Estúdios Disney refazem fábula clássica

A Disney volta a apostar em recriar um dos seus clássicos. A Lenda do Dragão inspira-se num filme de 1977 para contar a aventura de uma criança que sobrevive numa floresta. Estreia-se hoje nas salas portuguesas

Sabemos que, ao longo das últimas décadas, para o melhor ou para o pior, a história de Hollywood tem sido pontuada por muitas cópias, sequelas atrás de sequelas. Tudo começou em meados dos anos 1970, com fenómenos como Tubarão e A Guerra das Estrelas, dirigidos por Steven Spielberg e George Lucas, respetivamente - porque um filme conseguiu bons resultados de bilheteira, então aposta-se em "repeti-lo" ou "continuá-lo".

Os estúdios Disney, em particular, têm-se dedicado a uma revisão metódica dos seus sucessos mais ou menos clássicos. Assim aconteceu, por exemplo, com o magnífico Maléfica (2014), com Angelina Jolie, contando de maneira diferente a história de A Bela Adormecida, ou ainda na versão pouco inspirada de Cinderela (2015), com Lily James e Cate Blanchett. A Lenda do Dragão é a nova aposta nesse domínio: uma fábula sobre a amizade entre uma criança e um dragão (estreia--se hoje), cuja primeira versão surgiu em 1977.

Quase quatro décadas depois, há uma óbvia diferença ligada ao modo de representação do dragão. No original dirigido por Don Chaffey (também intitulado Pete"s Dragon, entre nós lançado como Meu Amigo o Dragão), o dragão era um típico boneco de desenho animado, aliás aplicando uma técnica que tinha tido a sua consagração em 1964, com a festiva convivência de animais e humanos em Mary Poppins (um dos derradeiros títulos cuja produção ainda foi acompanhada por Walt Disney). No novo filme realizado por David Lowery, o dragão é um ser totalmente digital dotado de invulgar sofisticação de movimentos e expressões (tendo sido concebido pela Weta Digital, companhia sediada na Nova Zelândia).

A arte de contar histórias

Em boa verdade, as componentes técnicas, mesmo sendo essenciais para o visual do filme, não constituem uma questão prioritária. Este não é, de facto, um filme que, à maneira de algumas aventuras de super-heróis concebidas para o verão cinematográfico, se limite a ostentar os célebres "efeitos especiais" - A Lenda do Dragão procura recuperar um tom de ingenuidade e magia que, afinal, tanto em termos literários como no plano cinematográfico, tem que ver com os valores mais antigos da arte de contar histórias.

No filme de 1977, tudo se passava no começo do século XX, num ambiente que, através da presença do dragão, rapidamente adquiria componentes mais ou menos burlescas. Agora, com a ação deslocada para o ano de 1982, a solidão da criança adquire um fundamental valor dramático.
Uma sugestão ecológica

Sozinho na floresta na sequência de um acidente com os pais, o pequeno Pete (Oakes Fegley) vai apurando as suas técnicas de sobrevivência, formando com o seu dragão uma aliança que, refletindo inquietações do nosso tempo, envolve uma sugestiva componente ecológica. E tanto mais que a guarda florestal Grace (Bryce Dallas Howard) irá descobrir Pete durante a missão de controle do abate de árvores que está a ocorrer na sua zona.

Deparamos, assim, com um estranho e sedutor primitivismo, bem distante do niilismo de algumas aventuras contemporâneas. Em tais aventuras, a solidão dos heróis (ou anti-heróis) parece desligá-los de qualquer dimensão coletiva; por sua vez, A Lenda do Dragão é um filme em que, muitas vezes através de um contagiante humor, as diferenças entre gerações são expostas e valorizadas. Nesta perspetiva, importa destacar a personagem do pai de Grace, patriarca daquela pequena comunidade que, afinal, representa a energia de uma crença ancestral na fantasia das fábulas - isto sem esquecer que há um suplemento emocional e simbólico no facto de o seu intérprete ser o garboso Robert Redford (a completar 80 anos no dia 18 de agosto).

Num contexto mediático em que tantas vezes se confunde a importância dos filmes com a grandeza dos números dos respetivos orçamentos, vale a pena acrescentar que este é também um título de custo mediano (65 milhões de dólares) no interior da produção da Disney e, em geral, dos grandes estúdios de Hollywood.

Claro que os filmes não são "melhores" nem "piores" por causa dos milhões (ou tostões) que possam envolver. O certo é que A Lenda do Dragão parece refletir a preocupação de resistir a fenómenos de galopante inflação que já geraram alguns gigantescos desastres financeiros. Também neste aspeto, pode dizer-se que há setores de Hollywood empenhados em reaprender alguns métodos e valores da história do seu classicismo.

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