Este ringue tem um saxofonista boxeur e um pianista poeta

Um tece elogios a Floyd Mayweather, o outro conta como fazia rimas secretas aos sete anos. Os dois músicos, que amanhã se juntam no CCB, falam das suas vidas além do jazz

"Às vezes, se eu estou no saco, já todo roto, a morrer, que é o que acontece muitas vezes no fim do treino, mas tenho de continuar a fazer aquele exercício, tenho de aguentar o round até ao fim, penso: Concentra-te, faz um solo de ritmo, um blues lento. Tipo assim..." Então Ricardo Toscano começa a estalar os dedos e a cantar baixinho: Pa pa dum dum pa... Há dois anos que o saxofonista pratica boxe todos os dias. "Eu às vezes temo por ele, que ele leve alguma coisa na boca que o impeça de tocar", diz num sorriso João Paulo Esteves da Silva, o pianista que também é poeta e tradutor, com quem Toscano mais uma vez se encontrará em palco: amanhã será no Centro Cultural de Belém. Foram as outras vidas de cada um deles, para lá do jazz, que nos juntaram naquela tarde em Lisboa.

O jovem saxofonista, ainda na casa dos 20, sossegaria João Paulo: "Na semana do concerto não vou fazer esse tipo de coisas. Não vou para o ringue. Fico a treinar técnica." Não se aplica, por isso, a icónica frase de Miles Davis (quem não se lembra das fotografias que Jim Marshall lhe tirou num ringue?): Don"t hit me in the mouth, I gotta play tonight. Miles, como Coltrane, está na vida de Toscano, filho de um também saxofonista (mas não de jazz), desde que nasceu. Mas não foi por causa dele que se iniciou no boxe.

"O boxe é técnica. E eu gosto disso no desporto, não gosto daquela cena de ir para a frente, ver quem é que tem um queixo mais forte. Se é para isso vão para a rua, andar à porrada. Aquilo é uma arte", diz Ricardo. Nem de propósito, faz um rasgado elogio a Floyd Mayweather, um dos maiores pugilistas da história do boxe, que em agosto voltou ao ringue para derrotar Conor McGregor. Acusam Mayweather de se defender demasiado. Toscano começa outra vez a estalar os dedos e a cantar, para explicar que, ao tocar um standard, alguém pode fazer "alta cena", ou então, mostra de forma muito mais pausada, usar "menos notas, menos coisas. Um gajo para fazer menos tem de saber muito mais. Se os outros lançam 400 golpes e acertam 120, ele se calhar lança 300 e acerta 270."

Toscano, a quem há pouco tempo Madonna viu tocar em duas festas privadas e uma outra vez na Fábrica do Braço de Prata (aí propositadamente para ouvir o seu saxofone), explica que o boxe "libertou coisas" no seu corpo. "Faz com que eu esteja mais em contacto comigo, e sinto que quando estou a tocar consigo conectar-me melhor ao meu instrumento". Uma vez, conta, Joe Chambers, histórico baterista que tocou com Miles Davis ou Wayne Shorter, disse de Toscano a um outro saxofonista: " Meu, aquele rapaz toca como se fosse um pugilista." Em janeiro o rapaz deve estrear-se nos combates.

O pianista que traduz Shakespeare

João Paulo Esteves da Silva deve ter herdado o talento para o piano da mãe, filha de uma professora de piano, e que em pequena, "quando teve força para subir ao banco do piano, sentou-se e já sabia tocar aquelas músicas todas". Maria Leonor Fernandes: "O último concerto que ela deu foi num direto para a televisão, grávida". Depois de João Paulo nascer, só tocou em festas, "instada por amigos".

O lado da escrita, que o faz escrever poesia ou traduzir o Rei Lear, de Shakespeare, como fez recentemente, vir-lhe-á provavelmente do pai, João Esteves da Silva, filósofo que viveu sempre fora da academia. Foi bancário, por isso debruçava-se sobre os livros "normalmente à vinda do trabalho: ficava umas duas horas, e depois do jantar ainda voltava ao café para ler e escrever". Um daqueles cafés de Benfica onde, conta o pianista nascido em 1961, "se cruzava todo o tipo de pessoas: de ladrões ao que eles chamam senhores doutores e madames".

O seu pai foi o seu público. "A coisa de escrever tem sempre a ver com o meu pai, ele era o meu público, o meu leitor. Escrevia de certa maneira para ele. Se eu acho que o meu pai ia gostar, pode cair o mundo que aquilo está firme." Começou a escrever rimas aos seis anos. As pessoas, sobretudo visitas da casa, davam-lhe o mote e ele seguia. "Isso dava-me algum prazer, mas também tinha uma vergonha incrível. Ainda me dá um bocadinho dessa vergonha perante a poesia", confessa. Depois, fala de uns cadernos forrados e com "etiquetas a dizer "Caligrafia" ou "Aritmética". Sobrava um, e eu escrevi lá: "Versos." Tinha sete anos. Quando mudei de colégio, o meu colega de carteira viu e disse: "Ah, vocês já começaram a estudar verbos? Nós aqui ainda não." E eu: Pois, pois é." Era uma coisa secreta."

Enquanto vivia em França, João Paulo percebeu a certa altura que nunca falava português, estava a perder a língua. "Mandei vir o Camilo todo e o Eça. Lia em voz alta todos os dias, coisa que ainda faço hoje. Ia ao mercado lá na terrinha onde vivíamos, havia um tipo português a vender presuntos e bacalhau, falava com ele. Rapidamente a língua voltou, e com mais força."

Já traduziu Samuel Beckett, Henrik Ibsen, August Strindberg, ou o poeta Mordechai Geldman, a partir do hebraico, uma das suas paixões. Já tocou com textos de Shakespeare à frente, para ver que música lhe inspiravam. "A música está um bocado em toda a parte. No texto está qualquer coisa que ainda não é música no sentido normal, mas é qualquer coisa da qual se pode fazer música."

Amanhã, o pugilista e o poeta/tradutor improvisarão, tocarão standards do jazz e composições próprias, como aquela de Ricardo que fez com que este perguntasse a João Paulo: "Ainda tens aquele papelinho?" E tinha, claro.

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