José Rodrigues dos Santos: "Este livro é um género inexistente em Portugal"

Chega às livrarias A Flor de Lótus. José Rodrigues dos Santos em entrevista ao DN

Chega outubro e a única certeza é que o autor mais vendido em Portugal, José Rodrigues dos Santos, vai lançar o seu livro. E este ano não foi diferente, pois o 14.º romance chegou na quinta-feira às livrarias, numa edição inicial de 50 mil exemplares, a maior desta rentrée literária.

Após os thrillers de Tomás de Noronha e a biografia de Calouste Gulbenkian em dois volumes, Rodrigues dos Santos escolhe a primeira metade do século XX para questionar as ideologias do fascismo e do comunismo e os grandes acontecimentos que marcaram as sociedades portuguesa, chinesa, soviética e japonesa.

A intenção do autor é relatar a vida de quatro famílias marcadas pelos eventos históricos: a queda da monarquia em Portugal que abre caminho a Salazar, pelo capitão Artur Teixeira; o Japão de Satake Fukui dividido entre a tradição e a modernidade; a China de Lian-hua, raptada por Mao Tse-Tung, e as coletivizações de Estaline que arruínam a família de Nadezhda.

Um livro escrito para vender os habituais (mais de cem) milhares junto dos leitores portugueses, mas que o autor deseja fazer chegar aos da China e aos do Japão. Afinal, ninguém vende três milhões de exemplares na sua terra.

Este é um romance que quando se chega à página 675 o leitor descobre que ainda está no princípio desta saga. Vai ser uma trilogia?

Vamos a ver. As Flores de Lótus fala-nos sobre a história e as ideias que formataram o século XX, e em particular o marxismo e os sistemas totalitários que engendrou, o bolchevismo e o fascismo. Acompanhamos quatro personagens e respetivas famílias, uma em Portugal, outra na Rússia, outra na China e a última no Japão, e vemos como as suas vidas foram afetadas pelas mudanças tumultuosas do seu tempo. É uma história ambiciosa e de grande fôlego. Para que fique bem contada terá de ser em saga, não vejo outra maneira. Eu sei que este livro é um género inexistente em Portugal, mas cá estou eu, nem que seja para inovar.

Este romance será provavelmente publicado na China e no Japão

Ao início já existia a intenção de desdobrar esta história?

A minha ideia sempre foi um único livro. O problema é que a ambição e dimensão do projeto me obrigou a separar a história. De resto, o mesmo me aconteceu com O Homem de Constantinopla, que estava para ser um único volume e que tive de desdobrar em dois, com Um Milionário em Lisboa, para poder contar a história como ela tinha de ser contada.

O romance abre com um "catálogo"de personagens. Entre portugueses, japoneses, chineses e russos, quais foram os mais complexos de estruturar?

Os asiáticos. Têm uma mentalidade totalmente diferente da nossa. Vi-me forçado a submergir na cultura chinesa e na cultura japonesa para criar personagens genuinamente asiáticas. Este romance será provavelmente publicado na China e no Japão e eu sabia que as culturas destes países teriam de estar credivelmente retratadas no romance, pois senão haveria rejeição nesses países. Mas sem dúvida que criar personagens com estas mentalidades tão diferentes da nossa foi duro.

Foi fácil fundir personagens de ficção e outras que pertencem à História numa narrativa?

Não tive particular dificuldade. Usei um truque adicional. Nas cenas em que aparece Salazar ou Mao Tse--Tung, por exemplo, pus-lhes na boca afirmações que essas figuras históricas efetivamente produziram. Isto é, os seus diálogos têm pouco de ficção. Salazar fala no romance com as ideias e palavras do próprio Salazar. Penso que uma coisa destas nunca foi feita.

Como é fazer uma investigação sobre tantos assuntos, países, culturas, civilizações, acontecimentos e mentalidades?

Muito difícil. Foi sem dúvida o meu romance histórico mais difícil de escrever. Não se tratou apenas de dominar uma época. Tratou-se de dominar quatro culturas diferentes, três das quais me são estranhas, numa época passada. Ou seja, não só tinha de perceber a cultura japonesa, como tinha de entender a cultura japonesa dos anos 1920, por exemplo.

Qual das situações anteriores - assuntos, países, culturas, civilizações, acontecimentos e mentalidades - foi mais difícil transplantar para o romance?

As mentalidades japonesa e chinesa. Os japoneses, por exemplo, têm uma moral dominada pelo que eles chamam de círculos ôn, giri e lugar próprio. Como compreender estes conceitos? Como se traduzem eles nas diversas situações concretas? Que papel desempenharam na condução do Japão para a guerra?

Quanto tempo demorou e o que exigiu a pesquisa?

A pesquisa foi contínua. Mesmo com a escrita já terminada fui sempre pesquisando e fazendo correções e adendas. O livro já estava na revisão e ainda havia novas emendas e adendas. Acho que há pessoas na Gradiva que já não me podem ver à frente...

Que tempo levou a escrita do livro?

É difícil contabilizar. Pesquiso, escrevo, pesquiso, escrevo, pesquiso. Só sei que todo o projeto já me consome há três anos.

Alterou o processo de escrita tendo em conta o tema ou manteve o modo de trabalhar?

Um bocado, sim. Não quero apresentar aos leitores sempre a mesma coisa. Quero inovar, embora sempre na linha do meu estilo de escrita - que tento seja fluida, transparente e atraente.

Muitos dos acontecimentos do livro foram vividos por portugueses. Não deveriam ter escrito mais livros de memórias ou feito testemunhos para que o seu papel ficasse registado?

Em Portugal não há, infelizmente, muito a tradição das biografias ou autobiografias. Muita gente viveu coisas extraordinárias e delas quase não há registo. Enquanto os ingleses são capazes, a partir de um episódio menor da sua história, fazer uma grande saga, nós não temos esse hábito. Não sabemos contar a nossa própria história. Eu tento fazê-lo, claro, mas encontro pouco material autobiográfico por parte de quem viveu os grandes acontecimentos.

Questiona a perceção que os portugueses têm dos políticos, como no caso de Salazar, que tanto é visto como um "salvador da pátria" como um "provinciano". É só História este livro ou existe intenção de fazer um paralelo com a classe política atual?

Essa pergunta é muito certeira. Não, não tive qualquer intenção de fazer um paralelo com o que hoje vivemos. O que se passou foi que, à medida que ia descrevendo as situações que conduziram ao descrédito da República e à emergência da ditadura do Estado Novo, foi-se tornando evidente que os problemas que então existiam eram os mesmos que hoje existem. Nada pelos vistos mudou. Os partidos não se entendiam. Punham os seus interesses próprios, e os interesses das duas clientelas, à frente dos interesses do país. A luta entre eles tornou-se disfuncional e conduziu à ingovernabilidade. Diziam que queriam servir o povo e afinal serviam-se a si mesmos e às suas clientelas. Tudo isto aconteceu na República. Alguém nota alguma semelhança com o que se passa hoje?

O narrador é um homem moribundo... Só assim o autor poderia dizer o que tinha vontade?

As razões pelas quais o narrador está a morrer só se tornarão evidentes no final de toda a narrativa.

O que há de autobiográfico neste livro?

Nada de nada. Esta é uma saga sobre os totalitarismos e os autoritarismos, e as condições criadas pelas democracias que a eles conduziram. Estamos a falar da primeira metade do século XX. Não vivi nada disso, pelo que não há aqui nada de autobiográfico.

Sendo o autor que mais vende em Portugal, sente cada vez mais na pele essa rivalidade?

Rivalidade? Não sinto rivalidade para com ninguém. O que enfrento é a inveja. Mas a inveja é um sentimento humano normal, nem sequer é um exclusivo de Portugal. Temos de saber que é algo natural e viver com isso. Vivamos, pois.

Como está a reação dos leitores espanhóis após a edição pela Gradiva Ibérica?

Não sei. Ainda não me foram enviados os relatórios.

A reação a A Fórmula de Deus em França, por exemplo, foi muito boa. Esta é uma saga destinada aos leitores estrangeiros?

Escrevo os meus romances para os meus leitores, independentemente da nacionalidade. O que não impede que tenha um carinho especial pelos portugueses, pois são o meu povo. É verdade que As Flores de Lótus é o meu primeiro romance histórico em que tenho personagens estrangeiras. Isso não foi feito para entrar nos mercados estrangeiros, mas simplesmente porque a história o exigia. Se eu queria abordar a questão dos totalitarismos do século XX pareceu-me forçoso ter personagens que tivessem vivido sob esses regimes em países diferentes.

Acha que tem influência nas vendas e que os seus leitores se importam com as polémicas sobre o episódio Grécia ou Quintanilha?

São assuntos que não estão relacionados. A polémica Quintanilha é uma pseudopolémica em que, a partir de um simples lapso, me levantaram múltiplos processos de intenções. É um não assunto lançado nas redes sociais por perfis falsos ligados a uma organização política. Nem merece mais comentários. A Grécia é um pouco mais complexo. Fiz uma série de reportagens em que chamei a atenção para as causas internas da crise grega - temas sobre os quais o próprio Syriza falou durante a campanha eleitoral. Viemos a descobrir que o Syriza pode falar sobre esses assuntos, mas a RTP não. Ou melhor, sim. A RTP continuará a falar, continuará a apresentar as verdades, mesmo que politicamente inconvenientes. É interessante que quem criticou as reportagens na Grécia tenha sido incapaz de desmentir as verdades profundas que essas reportagens expuseram. Há ou não grande corrupção endémica na Grécia? É ou não verdade que a pequena corrupção do "envelopezinho" é considerada por organizações anticorrupção como o mais grave problema da Grécia? Há ou não fuga generalizada de impostos na Grécia e consequentemente a maioria dos gregos não se mostra disposta a pagar o seu estado social? Ninguém ainda conseguiu desmentir as verdades expostas nas minhas reportagens. De resto, o Provedor do Espectador e a ERC analisaram todas as reportagens e diretos que fiz na Grécia e validaram a correção das mesmas. Então qual é o problema? É eu ter dito a verdade? Pois da minha boca a verdade irão continuar a ouvir, por mais inconveniente que seja.

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