Este letão fotografou os 450 habitantes de uma aldeia

Maris Maskalans faz documentários com animais, mas interessou-se por uma pequena aldeia do seu país, a Letónia, na fronteira com a Rússia. Quis fotografar todos os seus habitantes. Demorou três anos.

Na Letónia, país de onde vem, Maris Maskalans é conhecido como cineasta e foi como operador de câmara, enquanto fazia um documentário sobre a aldeia de Nagli, que descobriu, há 20 anos, este local junto à fronteira russa. Um sítio pequeno e rural, com apenas 500 pessoas, que em 2008 decidiu retratar para a posteridade.

O projeto durou três anos e o artista conseguiu fotografar 450. Começou na única loja da aldeia, por achar que todos iriam lá. E quando esta ideia se esgotou e não tinha afinal toda a gente, passou para a igreja. Finalmente, foi de casa em casa, batendo de porta em porta. O último passo para convencer os habitantes foi quando começou a distribuir as fotos que ia tirando, e que resultaram numa exposição em Nagli, e até 17 de julho na Real Academia de Belas Artes de São Fernando, em Madrid, no âmbito do festival de fotografia e artes visuais PHotoEspaña, para o qual foram selecionadas cerca de 65 imagens do total do projeto de Maris Maskalans, realizado em parceria com a embaixada da Letónia.

"Foi muito emocional", conta o fotógrafo, explicando o momento em que os habitantes viram as imagens que tinha captado. Algumas já tinham morrido quando as mostrou aos habitantes de Nagli. "Uma senhora olhava a foto e chorava e, apesar de ser muito pobre, dizia que queria comprar a fotografia", explica, com recurso a um tradutor, apontando a imagem de um homem.

Cada fotografia tem a sua história. O fotógrafo chama a atenção para outra imagem: uma senhora com uma muleta. Explica que ela não tem uma perna. "Quando apareceu na exposição, o chão estava escorregadio. Então, ela largou as muletas e percorreu a sala de joelhos para ver a exposição".

Maris Maskalans acredita que o seu projeto terá valor documental para os antropólogos dentro de 100 anos. Foi feito na Letónia, mas podia ter sido feita em Espanha ou em França há 100 anos. "A curiosidade é também ver que a Europa é muito diversa. As pessoas vivem como uma família. Esta é uma aldeia que vai desaparecer como muitas outras, mesmo aqui em Espanha". Procura seguir uma máxima que ouviu dos habitantes de Nagli: "As coisas que preservamos são as que amamos, aquelas que amamos são as que conhecemos e só as conhecemos as que aprofundamos".

Para as fotos escolheu "um fundo neutral para tirar o tempo e o espaço", refere o tradutor, em seu nome. Usou luz natural e refletores. Ao princípio usava um rolo por pessoa, depois ficando com menos energia e "usava um rolo para cada duas ou três pessoas".

Diz que não orientou as poses dos seus modelos. "Trabalho com animais e aos animais não lhes posso pedir para fazerem esta ou aquela pose...", diz Maris Maskalans, cineasta e ornitólogo, nascido em 1971, em jeito de explicação.

O processo, explica, começou sem "uma ideia visual". "Estava a brincar à procura de algumas coisas", diz. E, por isso, existem grandes planos e planos fechados. Grupos e pessoas e pessoas solitárias. Ficaram de fora 50 pessoas. "As que não quiseram ou que não consegui", justifica. Há retratos de família, pessoas mais velhas, mais novas, um professor de música com casaco de couro, um miúdo a fumar e um homem em tronco imitando a pose de Popeye. "Foi ele que quis ser fotografado assim. Quando lhe pedi para tirar uma fotografia, perguntou se podia tirar a camisola e mostrar os músculos".

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