Estão mesmo a morrer mais celebridades este ano?

David Bowie, Umberto Eco, Prince e outros. O que explica este número inusual de mortes em 2016?

Ainda só passaram quatro meses, mas a sensação que temos é que este ano de 2016 tem sido especialmente doloroso no mundo das artes. O músico David Bowie morreu em janeiro, uma semana depois foi o ator britânico Alan Rickman que desapareceu. De então para cá, despedimo-nos do realizador italiano Ettore Scola, do maestro Pierre Boulez, do realizador Jacques Rivette, da escritora Harper Lee, da arquiteta Zaha Hadid, do escritor Umberto Eco, do produtor musical George Martin. E só estamos a referir os nomes mais conhecidos.

Em Portugal, 2016 já registou a perda de, entre outros, o arquiteto Nuno Teotónio Pereira, os atores José Boavida e António Filipe, a artista plástica Ana Vieira. Depois de Nicolau Breyner, já este mês, morreu o encenador e argumentista Francisco Nicholson.

Será que esta "onda" de mortes de celebridades é apenas uma "sensação" nossa ou é mesmo verdadeira? Sim, é real, responde o editor de obituários da BBC, Nick Serpell. O jornalista é o responsável pelos obituários da televisão, radio e site da BBC, sempre a morte de alguém "notável" é confirmada. E confirma que no primeiro trimestre de 2016 já se fez o dobro dos obituários que tinham sido feitos no primeiro trimestre do ano passado. De acordo com as estatísticas da sua secção, no primeiro trimestre de 2012 a BBC produziu 5 obituários. Em 2013 foram 8. No ano seguinte o número passou para 11. Nos primeiros três meses de 2015 houve 12 obituários na BBC. E este ano já vamos em 24.

A BBC quis perceber se este seria um fenómeno particular ou se acontecia nos outros meios de comunicação e foi ver a galeria de mortos do mundo da cultura no site do Daily Telegraph. Até ao final de abril de 2014, havia 34 pessoas nesta galeria. Este ano, o número de mortos já vai em 75.

Portanto, se é verdade que há mais pessoas famosas a morrer, a questão se coloca é: porquê?

"As pessoas que começaram a ficar famosas na década de 1960 estão agora a entrar nos seus 70 anos e começam a morrer", responde Nick Serpell. E a verdade é que, devido à profusão de meios de comunicação, "há mais pessoas famosas do que havia antes", diz. "No tempo do meu pai ou do meu avô, as únicas pessoas realmente famosas que havia eram do cinema. Não havia televisão."

E não havia internet. Hoje em dia a quantidade de pessoas, ligadas às mais variadas áreas artísticas, que conseguem o reconhecimento internacional, é inigualável. Poucas horas antes de saber da morte de Prince, o mundo chorava a morte de Chyna, uma antiga lutadora de wrestling e estrela porno, que tinha 45 anos. A sua morte deu origem mais de 400 mil tweets em todo o mundo, não apenas dos Estados Unidos mas também em países como a Nigéria ou o Peru. Há 20 anos seria impensável que a morte de uma lutadora de wrestling americana pudesse suscitar o interesse de alguém no outro canto do mundo, apenas algumas horas de ter acontecido.

Esta é uma tendência que vai continuar? Nick Serpell acredita que sim. "Nos próximos dez anos, as pessoas desta geração vão continuar a envelhecer e entrar nos seus 80 anos. Isto sem contar com as mortes inesperadas, das pessoas mais novas."

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