Estado põe Álvaro Pires no lugar certo

A Anunciação foi comprada em leilão da Sotheby"s por 350 mil euros. O Museu de Arte Antiga pediu ao ministério da Cultura que a comprasse, e o Estado avançou. Torna-se na segunda do pintor em museus nacionais

"Acho que os portugueses têm todos razões para estar contentes", declara, ele mesmo radiante, António Filipe Pimentel, diretor do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA). O motivo chama-se A Anunciação, a pintura de Álvaro Pires de Évora - primeiro pintor português a quem é possível atribuir obra - que na noite de quinta para sexta-feira o Estado adquiriu num leilão da Sotheby"s, em Nova Iorque, por 280 mil euros, 349 mil (435 mil dólares), se contarmos com a comissão da leiloeira.

O Ministério da Cultura, a quem o MNAA havia pedido que comprasse a obra no leilão, tinha um teto máximo definido de 250 mil euros; daí que a ele se tenha juntado o Grupo dos Amigos do MNAA, que contribuiu com 25 mil euros, e seis mil euros que vieram do "fundo da gaveta remanescente da campanha do Sequeira", explica o diretor, referindo-se à campanha Pôr o Sequeira no Lugar Certo, que entre 2015 e 2016 reuniu dinheiro para comprar A Adoração dos Magos, de Domingos Sequeira por 600 mil euros. Acabaria por sobrar o suficiente para isto e para comprar um retrato de D. João V com a Batalha de Matapão, pintado por Giorgio Domenico Duprà em 1717. "No fim de contas acaba por fazer uma história bonita: são os portugueses todos que ajudam a pôr agora o Álvaro Pires de Évora no lugar certo."

"Para quem está à espera de ter uma pintura destas há 30 anos, duas ou três semanas não nos assustam agora", lança Pimentel, acerca da chegada do quadro a Portugal. Em breve estará no MNAA, onde será vizinho dos Painéis de São Vicente, de Nuno Gonçalves, obra onde, no percurso do museu, começa a pintura portuguesa. Daí que A Anunciação seja naquelas salas, pelas palavras de Joaquim Caetano, conservador do MNAA, "um pequeno foco de luz numa zona de trevas quase absolutas". Também o diretor a descreve como "importante para compreender as nossas raízes na expressão plástica e a origem da pintura portuguesa para lá de Nuno Gonçalves, sobretudo de onde sai aquele génio, que começa logo em grande a história da pintura em Portugal".

Esta pintura de 1434 junta-se assim ao quadro A Virgem com o Menino entre S. Bartolomeu e Santo Antão, sob a Anunciação, comprado em 2001, e parte da coleção do Museu de Évora. São as duas únicas obras em Portugal desse pintor do século XV cuja vida permanece maioritariamente um mistério. Terá vivido quase sempre em Itália mas, no retábulo da igreja de Santa Croce em Fossabanda de Pisa, assinou o seu nome em português.

À frente do MNAA desde 2010, o atual diretor afirma que esta foi a única obra do artista que apareceu no mercado desde aí. "São raras. As obras sobreviventes são muito poucas. Algumas estão nos locais para os quais foram produzidas, várias igrejas, outras estão em museus internacionais, e as que estão disponíveis no mercado do colecionismo privado - que é origem desta - são de facto escassas." Pimentel sublinha, contudo, que a aquisição deste quadro de Álvaro Pires de Évora não se assemelha a "uma caderneta de cromos", e que está é, por si, "uma grande peça".

O ministério da Cultura considerava ontem que esta aquisição "dá continuidade e reforça as políticas do MC para a valorização das coleções nacionais", e, acrescenta o gabinete de Luís Filipe Castro Mendes numa nota enviada às redações, a obra "vai enriquecer e alargar o âmbito cronológico da coleção do principal Museu de Arte Antiga em Portugal".

Na noite de quinta para sexta-feira o Estado foi "a jogo" na Sotheby"s, onde o recorde de uma obra de Álvaro Pires em leilão foi atingido. Christopher Apostle, diretor do departamento de mestres da pintura antiga, afirmou esta semana ao DN que é "raro" aparecerem obras deste pintor a quem Giorgio Vasari, o grande biógrafo dos pintores do Renascimento chamava Alvaro di Piero di Portogallo. O último que passou pela Sotheby"s foi há dez anos, também em Nova Iorque: "Um maravilhoso São Miguel por 180 mil dólares, valor recorde em leilão do artista", lembrava Apostle. Agora já não.

A Anunciação, que em 1994 integrou a exposição Álvaro Pires de Évora : um pintor português na Itália do Quattrocento, única grande mostra dedicada ao pintor, comissariada por Pedro Dias, pertenceu à família de Heinz Kisters e à do chanceler alemão Konrad Adenauer, uma das mais marcantes figuras do pós-guerra.

Um outro Pires de Évora

São Cosme, outra obra de Álvaro Pires, está agora em vias de classificação pela Direção-Geral do Património Cultural (DGPC), deixando assim de poder sair do país, e deverá ir a leilão ainda neste mês em Portugal, apurou o DN nesta semana. Quase com as mesmas dimensões de A Anunciação (30,5 x 22 cm), esta pintura de 28 x 21,5 cm foi leiloada a 10 de novembro de 2010 pelo Palácio do Correio Velho por 15 mil euros. Sobre um eventual novo pedido de compra do MNAA para esta obra, Pimentel responde que essa questão ainda não foi analisada e que a pintura, "não sendo comparável" àquela que o Estado agora comprou, "é interessante", reforçando o interesse em reunir um núcleo de obras deste pintor. Mas agora, diz, ainda é hora de festejar A Anunciação: "Era morrer na praia ou conseguir chegar a bom porto."

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