Esta é a lava de que Saramago também foi feito

"Obrigado, João. Nunca me imaginei assim tão grande" disse ele ao fotógrafo João Francisco Vilhena, que ontem inaugurou a exposição Lanzarote a janela de Saramago

"Ó João, agora vão dizer que eu sou uma figura muito religiosa ou que tenho uma relação muito próxima com Deus. Parece que estou aqui a orar ou a pedir alguma coisa a um deus." José Saramago, 1998, Lanzarote, a pouco tempo de receber o Nobel da Literatura. Falava com João Francisco Vilhena a propósito de uma fotografia que este lhe tirou. Nela, surge em contraluz - destacado na paisagem vulcânica da ilha - com as palmas das mãos viradas para cima e o rosto levantado para o céu.

Essa fotografia, como todas as outras de Lanzarote a janela de Saramago, está agora numa parede do Centro Cultural Palácio do Egipto, em Oeiras. À entrada, pisa-se ou contorna-se lava vinda de Lanzarote. Saramago é um Robinson Crusoe (ele próprio o dizia) naquela ilha que o fotógrafo João Francisco Vilhena reconstruiu em fotografias, como "um círculo mágico em que os horizontes se alinham, sendo vulcões, mar e nuvens, e todos eles se fecham à volta de um homem que é Saramago".

A linha do horizonte ou o contorno dos vulcões de Timanfaya - a parte da ilha em que eles estão - mantém-se irrepreensivelmente alinhado de imagem para imagem. "Todos os níveis de olhar têm de ser o mesmo." Como num círculo, cada ponto tem de ser já a coincidência entre princípio e fim, e por isso Saramago está inteiro em todos os quadros. Mesmo naqueles em que não aparece.

Pois Vilhena voltou à ilha em 2014 - depois da morte do escritor, em 2010 - para fotografar os sítios em que já não estava aquele que "adorava fazer passeios pela paisagem inóspita e subia a todos os montes próximos de sua casa". Aquele que costumava fazer o caminho até ao seu vulcão favorito, o del Cuervo, para ondeo fotógrafo o acompanhou.

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