Encenando o mundo inimigo de livros

Ramin Bahrani volta a adaptar o romance clássico de Ray Bradbury, 52 anos depois de François Truffaut

Na discussão em aberto sobre a continuada coexistência, eventualmente conflituosa, das produções de cinema e televisão, a passagem do filme americano Fahrenheit 451, de Ramin Bahrani, no recente Festival de Cannes (extra-competição), teve um curioso valor simbólico. Com chancela da HBO, aqui está, um reencontro com a herança de um nome grande da Nova Vaga francesa que, em 1966, realizou o seu Fahrenheit 451, também adaptado do romance clássico de Ray Bradbury sobre um mundo distópico em que passou a ser proibido ter livros. Dito de outro modo: a produção televisiva volta a interessar-se pelas possibilidades de reconversão e reinvenção do património literário e cinematográfico.

Conhecíamos Bahrani através de 99 Casas (2014), magnífico filme sobre as convulsões da compra e venda de imobiliário, tendo por pano de fundo a crise económica de 2008. Num registo inevitavelmente muito diferente, ligado à tradição da ficção científica, Bahrani tem o cuidado de preservar o núcleo da história original, em particular o drama do bombeiro Montag (Michael B. Jordan) que, embora profissionalmente obrigado a queimar livros (à temperatura de 451 graus Fahrenheit), sente um crescente fascínio pelas palavras escritas... Com a particularidade de, desta vez, tudo se passar num mundo dominado pela encenação televisiva do quotidiano: as fachadas espelhadas dos arranha-céus são mesmo utilizadas pelo governo como gigantescos ecrãs para dar conta das perseguições movidas contra quem arrisca conservar livros.

Marcado por meios de produção algo limitados, o novo Fahrenheit 451 não deixa de ser uma curiosa ilustração das relações de alguma televisão contemporânea com a pluralidade do património cinéfilo. Além do mais, seria interessante utilizar esta oportunidade para dar nova visibilidade ao belo filme de Truffaut, por certo um dos seus trabalhos mais esquecidos.

Ler mais

Exclusivos

João Almeida Moreira

Premium Segundos, Enéas e minutos

"O senhor vê na televisão o programa político eleitoral do presidente, tudo colorido, todos contentes, artistas milionários, se é essa a sua realidade, então vote neles, PT, PMDB, PSDB, PRTB, qualquer P, sempre estiveram juntos, é falsa a briga deles, agora se o senhor não aguenta mais ver menor abandonado na rua, as drogas, os crimes, tudo o que não presta aumentando, se você quiser expulsar para sempre esses patifes do poder, só existe uma opção, 56, o senhor nunca me viu junto com nenhum deles e comigo o senhor vai ficar livre de todos eles, o meu nome é Enéas 56."