Em Veneza, a montanha pariu mesmo um rato

Ainda se comenta o efeito de desilusão de Evereste, e de Beasts of No Nation, primeiro filme para o cinema da Netflix.

Aparato não faltou na abertura da 72.ª edição da Mostra Internacional de Arte Cinematográfica da Bienal de Veneza. Faltou, sim, cinema. Evereste, o filme escolhido para abrir o festival em regime de fora de competição é um tiro no pé para o festival e para o seu estúdio, a Universal.

A nova obra de Baltasar Korm Akur está a ser tudo menos bem recebida pela imprensa internacional - e mesmo para o festival dirigido por Alberto Barbera não deixa de ser uma má jogada com tantos outros filmes de Hollywood para escolher. Veneza não consegue em definitivo uma abertura ao nível dos anos anteriores, Gravidade (2013), de Alfonso Cuaron, e Bird-man (ou a Inesperada Virtude da Ignorância) (2014), de Iñarritu.

A história real de duas expedições ao cume do monte Evereste que acabaram em tragédia é o ponto de partida deste drama rodado para o formato IMAX em 3D. Uma superprodução filmada parcialmente nos estúdios Pinewood, em Inglaterra e na Cineccità, em Roma, mas também com ação no próprio Evereste. Ao filme sobra uma sensação de híbrido entre o cinema-catástrofe e o conto de "feito humano". Como se tudo fosse uma proeza, sempre mais técnica do que humana. O argumento parece desinteressar-se das personagens como seres humanos, ficando mais perto de um heroísmo fajuto. Pior: tem um esquema de manipulação sentimental daqueles que é feito para dizer ao espectador o que sentir, quando sentir. E estar lá Jake Gyllenhaal, Jason Clarke ou Josh Brolin é praticamente igual ao litro. Comercialmente tem tudo para cumprir a sua função nos cinemas dos shoppings.

A outra produção norte-americana a concurso já exibida no Lido é o tão aguardado primeiro filme de ficção da Netflix, Beasts of No Nation, de Cary Fukunaga, uma história sobre a guerra civil em África (num país sem nome) baseada no romance de estreia de Uzodinma Iweala. Em Portugal nunca irá ter direito a sala, mas nos EUA tem prevista estreia limitada ao mesmo tempo que é lançado nos serviços streaming da Netflix. Carregado de uma violência gráfica que poderá ser impossível de suportar para um público mais desprevenido, Beasts of No Nation pretende ser um alerta para o flagelo das crianças-soldado em África. Que o faça com uma câmara hiperestilizada e com recursos constantes a efeitos e efeitozinhos de luz e slowmotion é que já se torna mais duvidoso. No entanto, quase que a esmagadora presença de Idris Elba retifica tudo. Quase...

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