Em dezembro, Marcelo volta à Ajuda para ver a Sala D. João IV restaurada

Nos próximos oito meses, os 170 metros quadrados de uma da maiores salas do Palácio da Ajuda vão ser restaurados. Quase sempre à vista do visitante. Uma obra de 130 mil euros financiada pela Fundação Millennium bcp.

"Em meados de dezembro cá estaremos para ver se o prazo foi cumprido". A promessa foi deixada por Marcelo Rebelo de Sousa logo no início do discurso com o qual encerrou a cerimónia oficial que marcou o arranque do restauro da Sala D. João IV, no Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa, que contou também com a presença do ministro da Cultura, Luís Castro Mendes.

Antes ouviu as explicações do diretor do monumento, José Alberto Ribeiro, sobre a urgência das obras no Palácio que começou a ser construído em 1796, sob a regência do príncipe real D. João.

A sala daquele que viria a ser o VI de Portugal, e onde decorre a cerimónia, já foi restaurada, em 2013. Mas "a sala de D. João IV, nunca foi restaurada", contextualiza José Alberto Ribeiro. "Entre a Sala dos Embaixadores e a de D. João VI era assim um bocadinho o patinho feio e aquela que está a precisar de um restauro mais urgente". Até o olhar mais distraído se detém num dos cantos, onde a pintura mural é interrompida pelo branco do estuque em bruto, descobrindo-se mesma a estrutura por trás em alguns pontos.

Um obra apenas possível graças ao mecenato da Fundação Millennium bcp que avança com os 130 mil euros necessários à intervenção numa das salas de maiores dimensões do Palácio, com 170 metros quadrados, completamente revestida a pintura mural.

O nome da sala deve-se precisamente "à pintura, de 1823, do pintor José da Cunha Taborda, representando D. João IV no momento da Restauração. No teto, são desenhos de Domingos Sequeira. Esse mesmo, o autor do quadro A Adoração dos Reis Magos, que o Museu Nacional de Arte Antiga comprou após uma campanha de crowdfunding.

Questionado pelo DN sobre se os visitantes, mais de 126 mil em 2017, podem acompanhar as obras, a decisão foi tomada ali mesmo, com Sofia Lopes, da Intonaco, empresa responsável pelo restauro. "Será complicado estar aberto?", quis saber o diretor. "Quando estivermos a fazer a intervenção cá em baixo, junto ao chão, será complicado. Mas quando estivermos mais em cima é possível. Podemos colocar aqui umas baias e pensar nessa situação", explica a conservadora. "É sempre interessante as pessoas verem a obra a ganhar forma e perceberem que se está a restaurar", junta o diretor. "Por mim deixaria a porta aberta sempre que vocês me digam que isso é possível." E assim ficou combinado.

Os trabalhos, iniciados esta semana, vão começar pelos alçados, onde as pinturas, foram recebendo sucessivas aplicações de verniz e camadas de proteção. "Já começámos a perceber como se consegue fazer o levantamento dessas camadas, em princípio com um solvente em gel. Se olharmos com atenção, a própria superfície é texturada, parece que tem gotas, tem uma camada muito muito espessa. Agora estamos na fase de afinar tempos, metodologias porque depois no final isto tem de parecer que foi feito por uma única mão". Mas não será. Para já, a equipa começa com quatro elementos e mais tarde outras mãos virão. Mais dois pares, pelo menos. No entanto, a equipa nunca será muito grande para garantir a homogeneidade final.

Em duas pequenas "janelas", junto à entrada da Sala D. João VI, já se antevê o resultado final a apresentar daqui a oito meses: retiradas algumas das camadas de verniz, descobre-se o verde e o bordeaux mais claros. E quanto aos espaços, agora "pintados" de branco após a queda dos pigmentos de cor, vão ser retocados e a sala irá recuar 195 anos recuperando os tons originais.

Condecoração surpresa

E como já vem sendo hábito em cerimónias com a participação de Marcelo Rebelo de Sousa, houve um momento surpresa. Fintando a "férrea vontade, teimosa mesmo" de Fernando Nogueira, presidente da Fundação Millennium bcp, em receber condecorações em nome pessoal, o Presidente da República concedeu o título de Membro Honorário da Ordem do Infante D. Henrique ao maior mecenas da Direção-Geral do Património Cultural. Para além da Sala D. João IV do Palácio da Ajuda, a Fundação está a financiar a reconstrução dos módulos de taipa do Castelo de Paderne, no Algarve, a porta axial do Convento do Carmo, em Lisboa, e o interior da Igreja de Santa Clara, no Porto.

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