ElDorado XXI: num outro coração das trevas

Um olhar à mina de Rinconada, no Perú. ElDorado XXI, que venceu o Porto/Post/Doc chega hoje às salas de cinema

A palavra "eldorado" significa cidade imaginária de abundantes riquezas. É nessa fantasia antiga que, a 5500 metros de altitude, ainda vive a comunidade mineira de La Rinconada, povoação dos Andes peruanos que a segunda longa--metragem de Salomé Lamas nos revela, sem ferir o mistério intrínseco do lugar. Nos limites da sobrevivência, e nessa "terra de ninguém" (como a certa altura lhe chamam, remetendo para o título da outra longa da realizadora), em pleno século XXI, é a força do mito que conduz a experiência humana ao ponto da miséria.

Um único plano fixo, a partir da entrada das minas, domina a primeira hora de Eldorado XXI, oferecendo um ângulo privilegiado sobre o movimento de quem entra e sai da assombrosa profundidade. São como zombies, de lanterna na cabeça. Este quadro hipnotizante de um mecanismo perpétuo é acompanhado, em fundo, pela ruidosa animação da rádio regional, cujo locutor, entre spots institucionais e entrevistas, fornece algum esclarecimento sobre uma realidade que parece indecifrável. Ouve--se falar, por exemplo, de prostituição, lavagem de dinheiro, ausência de leis, tráfico humano: é o retrato de uma terra de ninguém.

Por fim somos arrancados às profundezas. Salomé Lamas devolve-nos o fôlego - e a luz - para observar o que está em volta. Uma paisagem desarmante, onde os corpos que nela vagueiam apenas se tornam visíveis pelo gesto contínuo e angustiante da picareta que bate nas pedras à procura do ouro... E a coragem de filmar naquele lugar? O que dizer da perseverança do olhar documental? Há justeza neste modo de captar a realidade etnográfica de La Rinconada, uma verdade que nos aproxima do labor de quem também aqui usa a câmara como picareta para sondar a vida nas trevas.

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