Eimear McBride, uma espécie de Henry Miller com culpa espiritual

A escritora Eimear McBride

É o segundo romance da autora irlandesa Eimear McBride. Uma história com uma jovem narrada de forma tão madura como inovadora.

Osegundo romance da escritora irlandesa Eimear McBride foi difícil de escrever. Apesar do título fabuloso, Pequenos Boémios [The Lesser Bohemians], a prosa estava emperrada e não se compunha enquanto livro. Por isso, foram muitos anos a lutar pelo segundo livro, que deveria confirmar uma estreia auspiciosa, com o romance Uma Rapariga É Uma Coisa Inacabada. Em entrevista ao DN, no início do ano, McBride contou que o primeiro livro demorara também o mesmo tempo a ser aceite para publicação pelas editoras que o segundo levara para ser redigido. Também explicou as dificuldades em avançar na narrativa e os truques - esta não foi a sua expressão - que usara para obter os resultados desejados na sua segunda experiência literária de fôlego.

Eimear McBride coloca nestes Boémios uma história normal, a de uma provinciana que ao chegar à grande cidade fica deslumbrada. Vai para uma companhia de teatro e em dias está na cama com um dos atores importantes, perdendo a virgindade de uma forma explícita, dolorosa e em poucos parágrafos. Depois é um rol de complicações em que a sua autoestima nem sempre fica por cima. Tudo isto relatado de uma forma muito intimista, tanto que parece em muito conter elementos de autobiografia de uma experiência de fim de adolescência que não será assim tão diferente da protagonista.

As dificuldades com a escrita deste livro são compreensíveis quando se o lê, e nem é necessários avançar além das primeiras páginas para se o perceber, pois Eimear McBride usa um registo literário complexo e com vários níveis de vozes. Mesmo que seja apenas a voz mais íntima da protagonista a rivalizar com os pensamentos mais soltos da própria. Essa técnica tem como resultado frases que obrigam à atenção do leitor pois provocam a alteração da composição gráfica ao nível do corpo de letra, vendo-se num mesmo parágrafo as diferenças de tamanho. Que colocam o leitor na situação de estar tão atento à forma como ao conteúdo.

Diga-se que para uma escritora irlandesa a afirmação no panorama literário do seu país, da Europa e, em seguida, do mundo que lê, não é coisa fácil. A Irlanda é o país que tem mais prémios Nobel da Literatura por quilómetro quadrado e ombrear com textos inovadores como os de Samuel Beckett e W.B. Yeats, ou Colm Tóibín e John Banville, não será coisa fácil. No entanto, a receção da sua breve obra tem sido calorosa e o que está na contracapa do livro (evitemos spoilers) é suficiente para explicar o seu sucesso: "Entre o épico e o delicadamente íntimo, Pequenos Boémios é a celebração da luz e da escuridão, das ansiedades de envelhecer e da intensidade transformadora do amor". As críticas têm sido muito boas, até nos EUA, e não é por acaso que a editora Elsinore esgota a obra da autora num ano.

Com uma linguagem em muito diferente da que é habitual, que exige ao leitor essa atenção tão especial para com os pormenores da composição da narrativa como dos alertas gráficos, no entanto acontece uma situação curiosa ainda nas primeiras páginas. A da culpabilidade da protagonista em relação à sua introdução à vida sexual a grande velocidade, que rapidamente descamba para uma real libertinagem ou na dependência emocional de um homem mais velho e frequentador do seu corpo. Na referida conversa com a autora esteve sempre presente essa culpa vinda de uma educação religiosa de que até agora parece não se ter libertado, transformando esta obra-prima num avesso à prática literária de Henry Miller e dos seus escritos libertinos, tão próprios de uma época. McBride, distancia-se bem destas histórias do passado e, num plano muito mais estruturado, oferece a história de uma iniciação à vida adulta de uma jovem com uma força pouco habitual nos tempos que correm fúteis nos livros.

PequenosBoémios

Eimear McBride

Editora Elsinore

320 páginas

PVP: 19,90 euros

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