Eduardo Lourenço: "Lobo Antunes fez-nos o luto da descolonizacao"

A terceira edição do Festival Internacional de Cultura de Cascais terminou com um encontro entre António Lobo Antunes e Eduardo Lourenço. Um verdadeiro encontro de ficção!

Todos olhavam para os relógios mas ainda só passavam oito minutos da hora marcada para o início do grande encontro entre intelectuais do ano: António Lobo Antunes e Eduardo Lourenço. Quando se voltou a olhar para o relógio já passavam 20 minutos e a sala ainda mais do que cheia da Casa das Histórias Paula Rego, o principal auditório deste terceira edição do Festival Internacional de Cultura de Cascais, já suspirava.

Não que fosse inesperado o atraso, ainda por cima sendo a sessão que fechava o evento. A razão era simples, os dois oradores tinham ido jantar e a coisa demorava. Ao fim de meia hora tudo se compôs, quando as dezenas de pessoas que estavam sentadas nos degraus abriram alas para o Professor entrar. O Escritor, no entanto, ficara para trás... "O nosso artista?", perguntou, sozinho no palco, Eduardo Lourenço após uma salva de palmas geral.

A plateia agitou-se um pouco e passaram mais cinco minutos sem parceiro, distraindo-se a olhar para os rostos que aguardavam o "artista".

Minutos depois, Eduardo Lourenço começou a ler um livro que estava sobre a mesa a seu lado e a tomar notas. Uma voz informou que Lobo Antunes estava com um "problema de saúde', acrescentando que "era de fácil resolução "... e o Professor continuou a escrevinhar.

Alguém grita:."Começa professor Eduardo". Mas Lourenço prefere aguardar. E o espetáculo iria começar dez minutos depois. Lourenço diz o tema do debate que se seguiria com o escritor "conhecido em toda a Europa": "Requiem por um Império que nunca nos existiu".

Lourenço "vingou-se" da espera e deu uma aula sobre o Império português "que terminou no 25 de Abril, mesmo que muitos dos presentes não tenham idade para se lembrar. Somos sobreviventes de um Império de lembranças".

Estava dado o mote para Lobo Antunes falar, disse, através de uma das maiores obras literárias que reinventou o que se abandonou em 1974 sem fazer luto". Acrescentou que é "uma obra representativa para fazer o luto sem viver de nostalgias confusas e aberrantes".

Lourenço pegou nas Cartas de Guerra do escritor para a mulher e pediu a Lobo Antunes para comentar "aquela África". Mas o escritor preferiu recordar as suas memórias de quando conheceu o outro orador e agradecer terem voltado a estar juntos. E garantir que "o Eduardo é a pessoa que melhor sabe explicar o nosso país. Tem uma forma de olhar para o que somos e não somos que deriva de ter estado fora tanto tempo". Depois começou a contar histórias sobre a hipotética histeria em Antero de Quental e outras tantas, seduzindo o público que tinha perdido a paciência minutos antes.

Depois Lourenço continuou a conversa, tentando repor o debate em África e não na histeria de Antero. Referiu a memória de elefante do escritor e sensibilizou-se com a presença de novas gerações à sua frente. Recordou a Revolução Russa a fazer cem anos e repescou o tema África, sem conseguir pôr Lobo Antunes a debitar sobre a principal questão de metade dos livros que escreveu.

Após muita insistência o Professor lá fez Lobo Antunes falar de África. Por dois segundos apenas, pois preferiu glosar uma frase em que uma escritora definia o intelectual assim : "Muita chatice e pouca foda". Depois usou as metáforas de um doente e a risada foi geral. Para que não houvesse dúvidas garantia "isto é real". E disse mais umas graças sobre os intelectuais portugueses, que "eram uns enconados", que o Fernando Namora ia para a cama às 21 para ter mais insónias, que o Vergílio Ferreira era um chato. E como Lourenço não lhe dava saída, Lobo Antunes tinha afirmado antes que o Professor era dono de um grande humor, atirou-lhe está pérola:"Quero-te ver com tesão!" Não se publica a resposta... A plateia gostou do encontro. Afinal, estavam no palco quase 160 anos de conhecimento de histórias e historietas que não caíam para o chão só porque já estamos no outono.

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