Edgar Martins. "Nunca estou em controlo total das circunstâncias"

O fotógrafo português é finalista dos Sony World Photography Awards em três categorias. Os vencedores serão conhecidos hoje

Leva máquinas analógicas para lugares de tecnologia de ponta, como a Agência Espacial Europeia ou uma fábrica da BMW, e, além de fotografias, apresenta a um concurso imagens de cartas de suicidas digitalizadas por scanners de alta resolução. Tudo isto poderia não passar de uma questão técnica se por detrás das imagens de Edgar Martins não estivessem uma questão e um olhar vivos que, de cada vez, ecoam por detrás delas.

Hoje poderá ser premiado pelos Sony World Photography Awards, de que é finalista em três categorias. Foi na de Paisagem que venceu em 2009, ano em que receberia também o BES Photo. A série Silóquios e Solilóquios sobre a Morte, a Vida e outros Interlúdios, projeto desenvolvido ao longo de três anos no Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses (INMLCF), em que o fotógrafo português trabalhou o seu espólio composto por armas usadas em crimes, as tais cartas de suicidas, negativos, ou máscaras fúnebres, está nomeada para as categorias de Descoberta e de Natureza-Morta; enquanto A Impossibilidade Poética de Conter o Infinito, série que junta trabalhos desenvolvidos nas barragens hidráulicas da EDP (The Time Machine), na fábrica da BMW em Munique (00:00:00), ou na Agência Espacial Europeia (AEE) concorre na categoria de Arquitetura.

Quando lhe escrevemos pela primeira vez, Edgar responde rapidamente dizendo que passaria todo aquele dia em reuniões. Nada de estranho, se pensarmos que a maioria dos seus projetos são de longa-duração, "entre dois a três anos", e que envolvem um longo trabalho de pesquisa, diálogo com instituições que habitualmente não abrem as suas portas a artistas, como a AEE, e procura de financiamento para os levar a cabo. No dia combinado, o fotógrafo atende o telefone de Inglaterra, onde está desde que saiu de Macau, que o viu cresceu, para estudar. Diz, contudo, que passa tanto tempo em Portugal que não se pode dizer que esteja realmente fora.

Silóquios e Solilóquios sobre a Morte, a Vida e outros Interlúdios começou por ser uma ideia de fazer um projeto em torno de um espólio de balas. Até que um amigo lhe falou do espólio do IMLCF e o que Edgar ali encontraria abriria portas a um longo projeto - mostrado no ano passado no MAAT, em Lisboa - envolvendo várias técnicas de trabalho do material recolhido e material criado por ele. "Desde há muito que tinha tentado trabalhar esta ideia da morte. Há cerca de 15 anos tentei explorá-la com casas funerárias, mas apercebi-me logo de que não iria ser viável. Uma das coisas que queria pensar era o papel que a fotografia tem representado na nossa perceção e inteligibilidade da morte, o facto de ter tido um amigo que foi assassinado há alguns anos e de me ter apercebido da forma como o caso foi retratado nos meios de comunicação social fez-me pensar nos problemas inerentes à representação da morte."
"Foi o meu projeto mais experimental. O nível de tratamento que as imagens têm depende de projeto para projeto. Eu gosto sempre de me colocar nessa situação em que nunca estou em controlo total das circunstâncias, recria quase aquela primeira sensação que se tem quando se entra num laboratório às escuras pela primeira vez, e onde se vê a fotografia a revelar pela primeira vez, a aparecer." Imaginemos-lo, então, nessa situação, com as suas máquinas analógicas, a fotografar as instalações da AEE em 10 países diferentes naquela que foi a primeira vez que a instituição se abriu a um trabalho artístico. "O único contacto que eles tinham com fotógrafos era através de lançamentos de satélites, onde eles tinham um lugar específico onde podem fazer essas fotografias. Portanto, às vezes não percebiam, achavam que era um risco desnecessário terem alguém a fotografar um satélite que custa biliões e biliões de euros a menos de um metro do próprio satélite. Mas com diálogo as coisas vão-se resolvendo", recorda.

Por detrás desse trabalho estava uma interrogação em torno "do nosso relacionamento com a tecnologia e a indústria". Há na sua obra sempre esse eco de uma pergunta por responder. "No caso do projeto que fiz com a EDP, estava bastante interessado em pensar num enquadramento utópico da relação entre o homem e a máquina, a questão da desertificação, destes espaços modernos, todos eles hoje em dia já automatizados. O projeto da BMW foi todo concebido em torno da premissa de abrandar o tempo: estava interessado em criar uma espécie de metáfora, um ponto de resistência para o mundo de fluxo em que vivemos. E obviamente a fabrica automóvel é a apoteose do capitalismo." Todas as fotografias da BMW são tiradas em momentos de pausa da produção (umas já programadas, outras não).

A próxima questão, ainda sem imagens que se possam ver, é sobre a ausência. Há mais de um ano que Edgar Martins desenvolve um trabalho numa prisão de Birmingham, com os prisioneiros e as suas famílias, que tem ainda outra vertente, trabalhada com um físico, João Seixas. "Estamos a construir um guião que vai ser ilustrado por imagens de uma instituição científica europeia, que foram apropriadas para se poder contar essa história fictícia de uma prisão que cria ausência extrema. Estamos a criar um guião totalmente científico e verosímil."

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