Ecce Homo. Um restauro desastroso feito milagre

A cidade espanhola de Borja quadruplicou o turismo com o peculiar restauro de Cecilia Giménez, que tem já uma ópera, acabada de estrear

"Queríamos dois ímanes, por favor." Na entrada da capela do Santuário da Misericórdia, a cinco quilómetros da cidade espanhola de Borja, Maria José levanta-se e sai da pequena cabine onde, todos os dias, vende bilhetes, a dois euros cada, para quem vem ver a imagem original cuja reprodução as duas raparigas levam para usar - talvez - em frigoríficos. Ecce Homo. Eis o Homem. A expressão parece ter adquirido um novo significado desde que Cecilia Giménez, uma octogenária de Borja, pequena cidade com cinco mil habitantes, próxima de Saragoça, restaurou desastrosamente aquela obra em agosto de 2012.

A pintura original do rosto de Jesus, assinada pelo pintor espanhol Elías García Martínez em 1930, correu mundo com a forma que lhe deu Cecilia ao passar o seu pincel molhado por ela, que estava bastante deteriorada pela humidade e pela salinidade. A história do restauro daquela obra, gravada numa coluna da capela daquele santuário do século XV, foi contada mundo fora e repercutida nas redes num sem-número de memes. Entre agosto e dezembro de 2012, 45 824 pessoas, vindas de 110 diferentes países, fizeram a sua "peregrinação" até ao Ecce Homo. Hoje, contam-se 165 mil visitantes.

Olhamos em volta e há almofadas, T-shirts, crachás, ímanes, ursos de peluche, livros e blocos com a imagem do Ecce Homo que Cecilia Giménez, viúva e católica hoje com 85 anos, um dia quis restaurar. Depois de o fazer, saiu de Borja durante duas semanas. Quando regressou, o seu Cristo estava nas bocas do mundo. "As minhas irmãs diziam-me: "Cecilia, sabes que te vão levar para a prisão?" Ao que eu respondi: "Para a prisão? Mas que fiz eu?" "Alguma coisa hás de ter feito", diziam. O Ecce Homo foi a única coisa que fiz mal, e vejam o que saiu disso. Só posso estar muito agradecida a todos vocês. Que fizeram tanto para que eu, pobre de mim, tivesse feito algo. Nunca pensei que pudesse chegar a isto." Foi a própria quem o contou este sábado, quando entrou na capela de cadeira de rodas e, como uma vedeta, logo se viu rodeada de flashes, câmaras de televisão e gente que lhe pedia uma selfie.

A história, já a deve ter contado centenas de vezes, aos jornais locais como ao New York Times ou ao Guardian. Aquele dia era diferente. Era o dia de estreia da ópera que conta a sua história e a do seu, tão malfadado como bem-sucedido, restauro. Mas tal só aconteceria à noite e durante o dia havia um trânsito quase contínuo à porta do santuário.

Ópera estreou-se no sábado à noite com casa cheia

O mundo em Borja

Na entrada da capela onde está a imagem, há mapas colados na parede repletos de alfinetes com papelinhos quase em cada país do mundo. São como pequenas bandeiras de quem ali esteve. Na América do Sul não parece caber nem mais um alfinete. Na Europa tão-pouco. E depois estão sobre os Estados Unidos, Canadá, Angola, Austrália, Singapura.

"E vêm muitos, muitos japoneses", acrescenta Maria José. É aqui de Borja e reconhece como mudou a cidade nestes últimos quatro anos devido ao aumento do turismo. Perante o fenómeno, encolhe os ombros. "O que posso dizer? Não podemos dar nenhuma explicação, porque não tem." Conhece bem Cecilia, "que ao início passou muito mal". Depressiva, não comia, chorava. "Havia muita gente que se metia com ela. Agora vê que está a ajudar Borja e a fundação."

Maria José refere-se à fundação Hospital Sancti Spiritus y Santuario de Misericordia, para a qual reverte todo o dinheiro das entradas na capela e parte do merchandising vendido. 71 pessoas idosas vivem na residência do hospital por causa do Ecce Homo de Cecilia. Outra parte dos lucros da venda deste vão para a própria octogenária, que "pinta desde sempre, e muito bem. Vi paisagens dela ou sítios de Borja, como a praça onde vivia", recorda a trabalhadora do santuário.

No local existe agora um Centro de Interpretação Ecce Homo, onde os turistas podem pintar o seu próprio quadro homónimo e tirar fotografias encaixando o rosto num espaço da pintura deixado vazio para o efeito. É o que fazem, divertidos, Erica e Alex, de Huesca. Tiveram de vir a Borja e "se vens a Borja tens de vir ver o Ecce Homo", diz ela. E agora que o viram? "Nada. Não compreendemos nem o fenómeno nem o que passou pela cabeça da senhora." E assim entram mais dois visitantes para as estatísticas; as crianças, por não pagarem, não são contabilizadas.

Com um filho que sofre de paralisia cerebral e poliomielite, e outro que morreu aos 20 anos, vítima de doença degenerativa, Cecilia casou naquela mesma igreja que a haveria de tornar conhecida por toda a parte. Juan Pablo conhece-a desde que era "daquele tamanho ali", lança, apontando para as crianças que brincam no parque infantil do santuário. Nasceu perto de Borja, na pequena povoação de Maleján, e é um dos muitos veraneantes da zona onde foi erguido o santuário, quase 700 metros acima do nível do mar. Há 76 anos que vem aqui.

"Eu não entendo este fenómeno do Ecce Homo. Não me entra na cabeça. Vejamos: se isto tivesse saído uma obra de arte, aí entenderia. Mas isto é um acidente. Restauraram-no e deixaram-no cinquenta vezes pior. Já o viste?" Diz de Cecilia que, "apesar de tudo o que lhe aconteceu na vida, é uma pessoa muito contente, leva a coisa com muita alegria."

Foi essa Cecilia, e não "a da senhora idosa e louca que tinha estragado uma obra, como estava a ser contado pelos media", que um americano de Denver, Andrew Flack, quis mostrar na ópera Behold the Man (He aquí el hombre, na tradução espanhola), cujo libreto escreveu. E esta é aquela que pode chamar-se a segunda parte da história a que muitos, como Juan Pablo, sentado num banco de jardim e empunhando a sua muleta, assistem como quem testemunha um episódio rocambolesco.

Em Borja havia cartazes da ópera espalhados quase porta sim, porta não. Era sábado, o dia da estreia mundial. Não da ópera completa, pois essa só deverá ser apresentada em agosto de 2017, mas de algumas cenas. Andrew Flack parece extasiado com tudo o que se passa à sua volta. Paul Fowles, o compositor da ópera que, não se restringindo à realidade dos factos, conta a história do mítico restauro que aconteceu naquela pequena cidade de Aragão não pode vir.

"Fui chamado a escrever esta ópera como a Cecilia foi chamada a restaurar aquela pintura. Eu sei que parece uma loucura, mas é o que sinto", afirma, temerário, o autor do libreto. Aponta para a zona da esplanada do bar do santuário e diz: "Foi ali que conheci a Cecilia, há três anos." Quando rumou de Denver a Borja, já tinha "umas três ou quatro cenas escritas". Coincidência ou não, tudo o que eram palpites seus coincidia com o que esta lhe contava de si.

"Ela não se zangou com Deus nem com as pessoas. Pensou: provavelmente Deus tem um plano para mim e vou continuar. Esta é a lição que a Cecilia nos ensina a todos: o teu desastre também pode ser o teu milagre, se tiveres a paciência e a fé suficientes", conta Flack, referindo-se ao "milagre" de que Cecilia, se seguirmos o raciocínio de Flack, foi instrumento, por si e pela sua cidade.

Aliás, a primeira cena apresentada neste sábado, e interpretada pelo Coral Vientos del Pueblo, de Borja, mostra, antes do restauro de Cecilia, o presidente da câmara lamentando-se e perguntando como poderia tirar a cidade da crise económica que atravessava. O verdadeiro, o socialista Eduardo Arilla Pablo, explica que "o turismo quadruplicou: vinham a Borja umas seis ou sete mil pessoas turisticamente. Passaram para 27, 28 mil turistas anuais, que veem o Ecce Homo mas também vão a Borja". O consumo aumentou e o desemprego diminuiu.

Aplaudida de pé pela plateia de cerca de trezentas pessoas, maioritariamente de Borja, a cidade que naquela noite subiu ao santuário, a ópera apresenta Sara Almazán, mezzo soprano, no papel de Cecilia, que ali conta que em sonhos Deus lhe terá dito para fazer o restauro. Na plateia estavam habitantes como Maria Isabel, artesã que vende pulseiras do Ecce Homo feitas com pedras semipreciosas, Mamén, que trabalha numa padaria na cidade e a quem o restauro da obra não trouxe qualquer alteração na vida, Sérgio, que foi lá apenas "por graça", ou Adélia, familiar remota de Cecilia que quis ver o que fizeram com a história da sua prima e da sua cidade.

Quando a ópera , que conseguiu angariar 23 mil euros em crowd-funding para a sua produção, acabou, as câmaras voltaram a rodear Cecilia para a ouvir dizer que tinha gostado muito do que vira. Quanto à ópera, "que tem tragédia e comédia, canto gregoriano, canções típicas da zona ou indie-rock", como disse o autor do libreto que está a ser traduzido para espanhol, tem como cenário o sítio onde estamos. Até porque, a certa altura, adianta Flack, ouve--se cantar: When you come to Borja, baby, you better have a glass of wine and buy a hat.

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