"É uma tragédia saber que os nossos filhos não verão um espetáculo da Cornucópia"

"Anatomia de Tito", um dos espetáculos da Cornucópia lembrado por Tiago Rodrigues

O diretor do Teatro Nacional D. Maria II, Tiago Rodrigues, não poupa elogios a uma das companhias fundamentais da história do teatro português.

É um "momento acre" este em que assistimos ao final da atividade de "uma das companhias fundamentais não só dos últimos 43 anos mas do teatro português", afirma Tiago Rodrigues, diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II, reagindo assim ao anunciado encerramento do Teatro da Cornucópia.

O ator e encenador sublinha "a dignidade e a serenidade a que nos habituou" esta companhia, não só no seu trabalho artístico mas até na forma como decidiu terminar a atividade quando percebeu que não tinha condições para continuar a funcionar como até aqui. Entre as características principais do Teatro da Cornucópia, Tiago Rodrigues sublinha a forma como sempre trabalhou o texto e o seu papel fundamental na formação de novos atores.

Isso mesmo percebeu quando, muito novo, frequentava o 1º ano do Conservatório, Tiago Rodrigues viu no Teatro do Bairro Alto o espetáculo Os Sete Infantes (1997). "Foi um espetáculo que me maravilhou pela riqueza com que era tratado um texto dramaturgia popular. Essa foi uma lição muito importante para mim", recorda. "Mas também porque naquele palco estavam muitos colegas meus do Conservatório, e esse é um aspeto fundamental da Cornucópia, o de formar atores. Por ali passaram atores como Márcia Breia, Glícina Quartim e no início Jorge Silva Melo, não o podemos esquecer, mas também foi ali que começaram muitos jovens que se tornaram grandes atores." E conclui, com uma nota de esperança: "De alguma forma o trabalho da Cornucópia vai continuar através deles...".

Outro espetáculo que o diretor do Nacional recorda com satisfação é Anatomia de Tito, de Heiner Müller (2003). "Era absolutamente admirável. Naquela arrogância da juventude, uma pessoa podia pensar que as companhias mais antigas eram mais conservadoras mas o que vi ali foi uma explosão de transgressão e um pensamento muito atual sobre o teatro."

Luís Miguel Cintra é, segundo Tiago Rodrigues, "uma das figuras mais importantes do teatro português do século XX", assim como a cenógrafa Cristina Reis, que co-dirigia a companhia, sublinha.

"Independentemente dos motivos que possam levar a esta tomada de posição, o fim de uma companhia de teatro é sempre uma má notícia. Quando um escritor ou um músico ou um realizador terminam a sua carreira nós temos pena mas podemos continuar a usufruir do seu trabalho. Na atividade teatral isso não acontece. E é uma tragédia saber que os nossos filhos, os nosso netos, muitos portugueses não vão poder ver um espetáculo da Cornucópia."

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