"É o fim de uma era", diz o ator Nuno Lopes

Os atores Nuno Lopes e Rita Durão falam do Teatro da Cornucópia como a sua casa.

Uma tristeza enorme. É isto que o ator Nuno Lopes sente no dia em que se confirma que o Teatro da Cornucópia vai terminar a sua atividade. "É uma pena que a companhia não consiga continuar", diz, "para mim é o fim de uma era. Com o dinheiro que existe neste momento para a cultura já não há condições para continuar a fazer este tipo de espetáculo, um teatro de repertório, atual e com qualidade. Só os Artistas Unidos é que ainda tentam fazê-lo. Mais ninguém."

Foi com a Cornucópia que Nuno Lopes se estreou em 1997, como Gustiuz Gonçalves de Os Sete Infantes. Tinha 19 anos. "Foi ali que me formei como ator e como homem. Com a Cornucópia aprendi uma ética e uma maneira de estar na profissão que me tem guiado até hoje." Nuno Lopes, que entretanto se tornou conhecido também pela sua presença na televisão (por exemplo em Os Contemporâneos) e no cinema (está a dar que falar nos festivais, neste momento, o filme São Jorge, de Marco Martins, com estreia prevista nos ecrãs nacionais em março), foi um dos atores que nestes últimos vinte anos marcou presença regular no palco do Teatro do Bairro Alto, em Lisboa. "Para mim, é como se fosse uma família. E é também o ponto de referência do que deve ser um grupo de teatro. Ali se formaram muitos atores e muitos espectadores."

No entanto, Nuno Lopes afirma que tem "muito orgulho por eles acabarem assim, nos seus moldes, no momento em que acham que devem fazê-lo, para não terem de mudar para um tipo de representação que não é seu".

O ator vai estar amanhã, certamente, na última sessão do Teatro da Cornucópia. E provavelmente vai lá encontrar Rita Durão, uma das atrizes que também pertence à geração de 90 da companhia. "A primeira vez que lá trabalhei ainda estava na escola, fui com o grupo 4º Período - o do Prazer fazer uma peça do Edward Bond." Voltou depois para O Triunfo do Inferno, de Gil Vicente (1994) e muitas outras vezes. "Foi a partir dali que começaram a acontecer muitas outras coisas e que eu comecei a perceber que este poderia ser um caminho", lembra.

"Foi um sítio onde cresci como atriz e como pessoa", diz Rita Durão, fazendo das palavras de Nuno Lopes. "As coisas estão misturadas, o trabalho e esta proximidade de quase família." "Para mim aquele espaço é uma casa. E mesmo que acabe vai continuar a ser uma casa minha", diz a atriz, sublinhando "o percurso tão sério que este grupo de pessoas fez": "Cada vez dou mais valor à maneira como conseguiram marcar presença acreditando naquilo que fazerem, sem se deixarem influenciar pelas pressões exteriores ou pelas modas. Mantiveram a coerência."

Rita Durão recorda que na Cornucópia cada projeto começava sempre com "uma vontade de franca de fazer um espetáculo". "Isso era o mais importante", diz. Nada era feito com leviandade. Querer fazer algo de que se gosta e como se acredita que deve ser feito, "e admitindo que só conseguimos fazer assim". "É uma posição face ao mundo que admiro imenso", conclui.

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.