E no fim, ficam as canções

Foi figura excêntrica, controversa e imprevisível. Quase septuagenário, focou-se no melhor que faz: compor, tocar e cantar.

As opiniões dividem-se: a imagem de marca de Elton John, que fez crescer o seu estatuto de estrela cintilante do pop-rock a partir da década de 1970, lucrou mais com as roupas de cores berrantes e carregadinhas de brilhos ou com os chapéus e óculos improváveis que usava, em palco mas não só? Hoje, a discussão tem um valor residual e "académico", desde que o cantor adotou uma aparência (mais) "normal" e passou a concentrar-se nas canções, tentando recuperar o génio que, em várias ocasiões, parecia perdido. Talvez Elton John - o nome com que Reginald Kenneth Dwight, nascido a 25 de Março de 1947, se "rebatizou" para efeitos artísticos - tenha percebido que, acima do efémero das modas, também musicais (que o levaram, por exemplo, a chegar-se ao "disco sound"), será preferível concentrar-se nas canções. Aconteceu em The Diving Board (2013, um bocadinho mais) e em Wonderful Crazy Tonight (2016, um poucochinho menos), este último o álbum que serve de pretexto à presente e longa digressão.

Até se percebe o encosto "à sombra da bananeira", quando se olham os números associados ao canto - e à conta... - de Sir Elton: 300 milhões de discos vendidos, uma presença perene na lista dos cidadãos mais ricos da Grã-Bretanha, pelo menos um êxito anual na lista Billboard Hot 100 entre 1970 e 2000 (o que significa 31 anos consecutivos!), canções que desde Your Song até aos nossos dias integram, sem esforço o património de cada um dos minimamente interessados pelo devir da pop. Basta pensar nisto: a versão de 1997 de Candle In The Wind, que se desviou de Marilyn Monroe para Lady Di na morte desta, tornou-se o single mais vendido de sempre, com 33 milhões de unidades. Até quando decide pensar - pelo menos aparentemente - "fora da caixa", Elton raramente falha: foi assim com O Rei Leão (o musical e o filme) e com os musicais Aida (em parceria com Tim Rice, levado à cena na Broadway) e Billy Elliott (com letras de Lee Hall, argumentista do filme, estreado no West End londrino.

Outras "aventuras" deram direito a mais fama que proveito, em particular quando Elton decidiu tomar assento no mundo do futebol, tornando-se proprietário e presidente (por duas vezes) do Wattford Football Club, em cujo estádio tem, desde 2014, uma bancada com o seu nome.

O pulso, a sorte e a acalmia

Ainda haverá, certamente, quem se lembre de um jovem pianista chamado Reggie, a quem cabia animar as noites do hotel londrino Northwood Hills, antes de formar uma banda chamada Bluesology e de se tornar instrumentista para "todo o serviço", acompanhando as digressões britânicas de estrelas norte-americanas como os Isley Brothers ou Patti Labelle. O que Reggie, depressa renascido como Elton John, não podia adivinhar é que, ao responder a um anúncio que procurava compositores, lhe sairia a sorte grande: as primeiras letras que lhe foram entregues tinham a assinatura de um tal Bernie Taupin, que ainda hoje - depois de um arrufo que acabou por ser um intervalo higiénico - é o seu grande cúmplice e sócio. Esta estabilidade também se verifica quanto aos músicos que o acompanham e que também tiveram direito aos períodos de negação, tão próprios das estrelas. Basta perceber que, dos cinco músicos que vão estar em palco na Meo Arena, dois fazem parte do círculo de Elton há 45 anos. Davey Johnstone, diretor musical e guitarrista, chegou em 1971, e participou em Madman Across The Water. Mais antigo ainda é o baterista Nigel Olsson, que se estreou com o cantor em 1970. O percussionista John Mahon vem da digressão de 1997 e o teclista Kim Bullard da de 2009. O "maçarico" é mesmo o baixista Matt Bissonette, que começou a "marcar o ponto" em 2012. O que permite concluir, se quisermos utilizar a analogia futebolística, que a rapaziada toca junta de olhos fechados.

De igual modo, os tempos dos escândalos em torno de Elton parecem ter-se desvanecido: nem bulimia, nem recurso a substâncias proibidas, nem subterfúgios quanto à sua opção sexual. Se começou por afirmar-se bissexual, se depois se casou com uma mulher (Renate Blauel por três anos), acabou por confirmar-se feliz e contente com o canadiano David Finch, com quem viveu em união de facto até o casamento entre pessoas do mesmo sexo ser legalizado em Inglaterra, em 2005. Aí, o casal foi dos primeiros a dar o nó.

Tal não significa que, aqui ou ali, Elton não tenha a sua recaída de mau génio: em 2000, ficou para a história o seu desaparecimento súbito (e, de alguma forma, inexplicado) um quarto de hora antes de atuar no Casino Estoril. É, de resto, a mancha negra nas passagens por Portugal, uma vez que foi empolgante em 1992, no antigo Estádio de Alvalade, e convincente em 2009, no Pavilhão Atlântico. Mais: ficará para sempre ligado ao nosso país, depois de ter atuado no primeiro festival "a doer" por cá realizado, o mítico Vilar de Mouros de 1971. Nessa fase, talvez não fosse tão iconográfico como se tornou pouco depois - mas o talento estava lá. Passaram 45 anos, é certo, mas ficaram as canções, mais importantes e significativas do que as novas manias do autor.

Elton John atua este domingo, dia 11, às 20.30, no Meo Arena, em Lisboa. Bilhetes de 38 a 110 euros.

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