Dos Painéis a Rodin. O que os museus nos vão mostrar

Um quadro do terramoto de 1755, restaurado, abre 2018 no Museu de Arte Antiga, aquele que troca as voltas ao visitante e mostrará obras do século XXI. Na Gulbenkian, o palco é da escultura do século XIX. Mas há muitas mais exposições

Um roteiro pelas exposições a anotar no calendário podia obedecer a critérios cronológicos, mas é o Museu de Arte Antiga que troca as voltas ao leitor e visitante. Para 2018 prepara uma exposição que nos conduz até ao século XXI. Do Tirar pelo Natural. Inquérito ao Retrato Português, com inauguração prevista para junho, cruza épocas distintas, do século XV aos dias de hoje, a partir da história da arte do retrato produzida por artistas portugueses ou que fizeram carreira em Portugal, com os Painéis de São Vicente como ponto de partida.

A outra exposição em preparação no museu das Janelas Verdes abre em novembro e reúne obras portuguesas dos séculos XV e XVI que adotaram os classicismos renascentistas e o legado de Francisco de Holanda, encerrando a celebração dos quinhentos anos do nascimento do pintor.

Na pequena sala do Teto Pintado, já a partir de 18 de janeiro (e até 20 de maio), o MNAA mostrará a pintura O Terramoto de 1755, de João Glama, considerada uma obra central do século XVIII na coleção da instituição, recentemente submetida a um restauro. O mesmo espaço do museu é ocupado em outubro de 2018 por Small and Beautiful. Arte na Palma da Mão, um conjunto de obras de pequeno formato dos séculos XV a XVIII.

Com viagem marcada para o Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto, está a atual exposição do MNAA, As Ilhas de Ouro Branco, centrada na encomenda artística que chegou à Madeira nos séculos XV e XVI, à boleia dos dividendos do açúcar.

Outro museu nacional que inaugura nova exposição em 2018 é o da Arqueologia. Em Belém, no Mosteiro dos Jerónimos, abre ao público, em março, O Perene e o Belo - Ecos da Antiguidade Clássica, sucessora de Loulé. Territórios, Memórias, Identidades.

A Pose. Escultura Francesa antes e depois de Rodin vai ser a exposição de inverno do Museu Gulbenkian em 2018. Ao (Auguste) Rodin do título juntam-se Paul Dubois, Jean Baptiste Carpeaux, Edgar Degas ou Denys-Pierre Puech (entre outros) numa mostra de cerca de 30 esculturas das coleções do Museu Gulbenkian e da Glyptotekde Copenhaga, com curadoria de Luísa Sampaio, que procura explorar "o modo como os artistas adotaram e adaptaram certas poses nas suas criações, produzindo novas variações sobre velhos temas", refere a instituição. Abre a 26 de outubro e fica até 4 de fevereiro de 2019.

Lá fora, em Paris, o Louvre, em parceria com o Museu Metropolitan de Nova Iorque, inaugura na primavera uma exposição dedicada ao pintor francês Eugène Delacroix (1798-1863). É a primeira desde 1963 e reúne cerca de 180 obras do artista.

Pela mão dos artistas do século XX

No Place Like Home, que o Museu Berardo, em Lisboa, inaugura a 28 de fevereiro, comemora o centenário da fonte do artista Marcel Duchamp. A exposição procura mostrar como os artistas do século XX incorporaram objetos domésticos nas suas obras de forma a subverter as suas funções e os seus significados quotidianos. Além do francês, serão mostradas peças de Man Ray, Claes Oldenburg, Louise Bourgeois, Mona Hatoum, Yayoi Kusamae, Alina Szapocznikow e Andy Warhol, a quem o Whitney Museum, em Nova Iorque, dedica uma retrospetiva a partir de novembro.

Obras de arte não figurativas são as protagonistas de outra exposição do Berardo em 2018. Linha, Forma e Cor, a partir da coleção do museu, abre no dia 22 de março e fica até 16 de setembro, e mostra como estes elementos estiveram na construção da arte abstrata desde o início do século XX, como testemunham as obras de Piet Mondrian, Kazimir Malevich, Vladimir Tatlin, Ellsworth Kelly, entre outros.

Nós não Estamos Algures - Ecos na Obra de Ernesto de Sousa é a exposição que o MAAT - Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia abre no dia 28 de fevereiro na Central reunindo obras de Melanie Bonajo, Rita Sobral Campos, Vasco Costa, Simon Dybbroe Møller, Jannis Varelas, Supergood. A curadoria é de Hugo Canoilas e Inês Grosso e parte da obra transversal e transdisciplinar do artista português (1921-1988).

Da construção do Estádio de Bagdad à encomenda artística, a Fundação Calouste Gulbenkian desenvolveu uma forte ligação filantrópica ao Iraque entre o final da década de 50 e o início da década de 70 que se pretende registar na exposição Iraque e o Modernismo - Ligações com a Fundação Calouste Gulbenkian (1957-1977) com obras do núcleo iraquiano da coleção moderna, a maior parte nunca expostas em Portugal. Com curadoria de Patrícia Rosas e Amin Alsaden, para ver entre 26 de outubro e 28 de janeiro.

Em Londres, Picasso é, pela primeira vez, o protagonista da programação da Tate a partir de 8 de março. O ponto de partida é o ano de 1932, muito intenso na carreira de um dos pintores mais importantes do século passado, como provam os três quadros de Marie-Thérèse Walter, sua amante, pintados em cinco dias de março desse ano, que, também pela primeira vez, se poderão ver juntos. A exposição reúne mais de cem pinturas, esculturas, desenhos e fotografias de família.

Em Madrid, o Reina Sofia detém-se na arte portuguesa em fevereiro: Pessoa. Toda a Arte É Uma Forma de Literatura, com curadoria de João Fernandes, subdiretor do museu, e da historiadora de arte Ana Ara, reúne trabalhos assinados por Almada Negreiros, Amadeo de Souza Cardoso, Eduardo Viana, Sarah Afonso ou Júlio (Saul Dias).

Pelos olhos dos contemporâneos

A partir de 21 de março, o MAAT - Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia entrega ao artista português Miguel Palma a sala de projeto, numa exposição com curadoria de Adelaide Ginga e Luísa Santos. Chama-se A-Z e, segundo nota do museu, é "uma instalação inédita constituída por um vasto conjunto de obras sobre papel realizado ao longo das últimas duas décadas".

Em abril, é inaugurada Eco-Visionários: Arte e Arquitetura para o Antropoceno, com curadoria do diretor do MAAT, Pedro Gadanho, e Mariana Pestana, em coprodução com museus da Suécia, Suíça e Espanha. "Num momento em que as alterações climáticas se fazem sentir de modo mais premente, Eco--Visionários lança o debate sobre um vasto panorama de questões associadas ao Antropoceno - a designação recente de um novo período geológico definido pelo impacto das ações humanas. As obras em exposição focam tanto fenómenos de extinção de massa ou a convivência interespécies como os efeitos da exploração de recursos naturais ou a nossa capacidade de adaptação a uma nova realidade global", refere nota do museu.

Em 2018, na Galeria Municipal do Porto, será mostrada, pela primeira vez, a Coleção Pedro Cabrita Reis, adquirida pela Fundação EDP em 2015. Germinal está calendarizada para março e será acompanhada pelo artista.

Na sua exposição de verão, entre 20 de abril e 10 de setembro, o Museu Gulbenkian apresenta Pós-Pop: Fora do Lugar Comum - Desvios em Portugal e Inglaterra 1965-75 (da Guerra Colonial ao 25 de Abril), a partir de uma seleção de obras de Ana Vasconcelos e Patrícia Rosas que inclui Eduardo Batarda, Ana Vieira, António Palolo, Nikias Skapinakis, Ruy Leitão, Menez, Allen Jones, Jeremy Moon, Patrick Caulfield e Bernard Cohen, num diálogo entre portugueses e britânicos "que herdaram e transcenderam a lição da pop art, usada como instrumento de crítica e de ironia", segundo o museu.

No último trimestre, a sala de projeto testemunha o encontro de Ana Jotta e Ricardo Valentim: Moer, de 19 de outubro a 15 de janeiro, é "um exercício crítico e performativo sobre a autoria artística e a curadoria de exposições, questionando os modos de produção e de apresentação".

Nas galerias municipais, a da Boavista dá palco ao jovem pintor João Gabriel, entre março e junho; na Cordoaria Nacional, prepara-se a exposição das obras de artistas portugueses que foram adquiridas em 2016 e 2017, durante a ARCO Lisboa. Acontece em maio, em simultâneo com a feira de arte.

De amor trata a exposição Quel Amour!?, uma das propostas do Museu Berardo, a partir de uma seleção de obras de artistas de diferentes geografias e gerações, que se deixaram inspirar pelo amor. De 3 de outubro a 3 de fevereiro de 2019.

Pela mão dos designers, deste e do outro lado do Atlântico

Com Tanto Mar: Fluxos Transatlânticos do Design, de 10 de março a 15 de julho, o MUDE - Museu do Design e da Moda encerra a trilogia de exposições que olharam para o espaço sul-americano. É também a última a ocupar o Palácio dos Condes de Calheta, em Belém. Parte das trocas culturais entre Portugal e Brasil e materializa-se, por exemplo, no cartaz da exposição, a partir de um lenço de Fernando Lemos, designer em São Paulo, mais conhecido em Portugal pelas suas fotografias do grupo surrealista.

No MAAT - Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, de 11 de abril a 4 de junho, do austríaco Stefan estará a exposição The Happy Show, uma pesquisa de mais de dez anos em torno da felicidade.

Chegou a estar prevista para 2017, mas será no primeiro semestre de 2018 que o Museu Nacional de Etnologia apresenta Uma Vida Dura. O Olhar de Um Designer sobre a Coleção do Museu, com os cerca de 200 objetos da vida rural portuguesa selecionados pelo britânico Jasper Morrison.

Após obras de remodelação, a galeria municipal Quadrum retoma a sua programação no verão com uma exposição a partir de uma coleção particular de obras relacionadas com o punk.

Em Londres, a partir de 18 de junho, o Museu Victoria & Albert mostra o guarda-roupa da pintora Frida Khalo, que esteve fechado durante 50 anos num armário por vontade do marido, Diego Rivera. A partir de 18 de junho.

Pela lente dos fotógrafos e imagens saídas dos baús

Fotografias do britânico Norman Parkinson (1913-1990) estarão em exposição no Centro Cultural de Cascais, de 13 de outubro a 11 de novembro. Conhecido pelos seus retratos e trabalhos para a Vogue e a Harper"s Bazaar, e também ele uma figura carismática e excêntrica, destacou-se por captar mulheres muito diferentes do grupo elitista que figurava nas páginas destas revistas. "As minhas mulheres comportavam-se de um modo completamente diferente - conduziam automóveis, iam às compras, tinham filhos e descarregavam as frustrações em quem estivesse mais à mão", disse o artista sobre os seus primeiros trabalhos.

"Queria-as nos campos a saltar sobre medas de feno - não achava que precisassem de ter uma postura rígida". Norman Parkinson: Lifeworks (Obras de Uma Vida) 1935-1990 é um percurso cronológico por 170 das suas obras. De ícones do XX como os Rolling Stones e David Bowie à família real britânica. A exposição tem a curadoria de Terence Pepper, ex-diretor de fotografia da National Portrait Gallery, onde em 1981 se realizou a primeira retrospetiva do artista. Esta instituição londrina apresenta, entre 1 de março e 20 de maio, fotografias raras e negativos originais dos primórdios da fotografia artística. A exposição chama-se Victorian Giants: The Birth of Art Photography e conta com obras de Lewis Carroll (1832-98), Julia Margaret Cameron (1815-79), Oscar Rejlander (1813-75) and Clementina Hawarden (1822-65).

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São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.