Dois festivaleiros clássicos falam das suas experiências Europa fora

Dos grandes festivais da Europa Central, onde podemos descobrir Vargas Llosa ao nosso lado ou Angela Merkel sentada à nossa frente, até aos pequenos eventos em aldeias remotas

"Os festivais de música clássica têm um retorno económico enorme. Um turista de festival gasta quatro vezes mais por dia que um turista de praia". Quem o afirma é Henrique Silveira, docente do Instituto Superior Técnico, melómano e com assíduo historial em festivais de ópera e música clássica.
De facto, chegado junho, começa a época dos festivais de verão um pouco por toda a Europa, de Portugal até à Grécia e à Finlândia - e já que falamos do país nórdico, o Festival de Ópera de Savonlinna, que se realiza numa fortaleza medieval, entre lago e floresta, no leste daquele país, registou na edição deste ano (que terminou no dia 6) um total de 66 mil espectadores, o que é notável, dada a excentricidade do país e o remoto do local.

Henrique enumera grandes festivais: "Bayreuth, onde fui anualmente ao longo de dez anos, o de Páscoa de Salzburgo - detesto o de verão: é muito snob e está demasiado calor para seguir o código de indumentária -, Aix-en-Provence e, na música antiga, Ambronay". Mas também conhece pequenos: "a Schubertiade de Schwarzenberg [Áustria]: uma aldeia num cenário verdejante nos Alpes e os concertos decorrem num celeiro reconvertido. Sítio encantador!"

Outro "festivaleiro" é Miguel Vaz: este ano já foi a Aix-en-Provence - "e no dia 19 vou para Salzburgo, onde me esperam, até dia 25, quatro óperas e cinco concertos sinfónicos!" Desse festival diz que, "embora caríssimo, encontras ali conjunções artísticas a um nível que não tens em mais lado nenhum do mundo". E isso vai de encontro ao que, no seu parecer, deve presidir a um Festival: "fazer coisas geniais, coisas de exceção e experimentar o fora do comum, arriscar".

Os bilhetes, diz este sócio dos Amigos de Salzburgo e dos Amigos de Bayreuth, "são comprados com entre seis a nove meses de antecedência" e são estas vivências que definem as suas férias: "os meus amigos até perguntam: "Como é que, em vez de estares na praia, preferes andar por aí de smoking?"" O que nem sempre é verdade: "em Aix, o vestuário é muito mais informal, por exemplo; ou no de La Roque d"Anthéron (na Provença), que tem uma magia especial e um ambiente familiar". Mas Miguel segue o dictum "em Roma sê romano": "adapto-me bem às práticas, regras e rituais de cada sítio", resume este melómano que certa vez, em Salzburgo, reparou estar sentado ao lado de Mario Vargas Llosa. Encontro "imediato" assim teve-o também Henrique: "aconteceu várias vezes em Bayreuth ficar sentado atrás da Angela Merkel, que, aliás, não falha uma edição do Festival!"

Um episódio engraçado sucedeu-lhe em Salzburgo: "estava num bar e apareceu lá o grande maestro Seiji Ozawa. Pediu um vinho e uma sandes para levar, mas estava com um aspeto tal que o empregado pensou que ele era um sem-abrigo e não lhe cobrou nada. O engraçado é que o Ozawa não se "descoseu"!", conta, rindo.

Bayreuth e Salzburgo, claro, mas também os Proms de Londres, o Rossini de Pesaro, o de Baden-Baden e o de Zurique constam do "currículo" de Miguel. E outros mais inesperados: "uma vez que estava em Aix, fui passear pela região e descobri um festival ótimo que é promovido pelo Pierre Cardin, que comprou ali perto um castelo que pertenceu ao marquês de Sade. Mais tarde reparei que na Provença, no verão, qualquer terrinha tem um festival!"

Miguel ainda não sabe onde irá em 2017: "uma hipótese, para já, é o Festival de Páscoa de Baden-Baden". Mais incerteza com Henrique: "estou a pensar ir ao Cantar Lontano, em Ancona, que é em junho. Mas muitas vezes resolvo essas coisas de um dia para o outro!"

Um festival de grande calibre em Portugal? "Já tivemos - recorda Miguel: os festivais internacionais da Gulbenkian... Mas a falta de meios [financeiros] é o problema, não é?..." Henrique é mais otimista: "Claro que sim. Era até bem fácil." E alinhava dois pressupostos "essenciais": achar um tema "com sex appeal" e arranjar marketing para promoção internacional".

Um elenco de eventos ainda bem numeroso à sua escolha, em 11 países

Do apanhado que realizámos, temos, por exemplo, vários festivais de ópera em Itália, em locais de exceção: o Arena de Verona vai até 28 de agosto, com Carmen, Aida, Turandot e Trovador; o do Teatro Grego de Taormina (na Sicília) até 5 de setembro; no Sferisterio de Macerata (Marche) ainda pode assistir ao Otello e ao Trovador; o Rossini de Pesaro começou esta semana e vai até dia 20, com quatro títulos rossinianos no programa e um concerto celebrando o tenor peruano Juan Diego Flórez;

O Puccini-Torre del Lago (perto de Viareggio), com a espetacular plateia descendo sobre o lago, termina por estes dias, com as Turandot de Puccini e de Busoni; um cenário semelhante oferece o Festival de Bregenz (junto ao lago Constança), com o seu palco lacustre. Ali perto, em Lucerna, começa amanhã o festival, que se prolonga até 11 de setembro.

Em Inglaterra, Glyndebourne (Sussex) vai até 28 de agosto e ainda pode assistir a três óperas. Na Noruega, o de música de câmara de Rosendal (perto de Bergen) vai até domingo e, mais para leste, em Helsínquia, o Festival começa dia 19 e vai até 4 de setembro. Na Polónia, o Wratislavia Cantans (em Wroclaw) é só em setembro (de 3 a 18), tal como, em França, o de música antiga de Ambronay (de 16/9 a 9/10). No repertório mais antigo cabe ainda referir o Oude Muziek de Utrecht (26 agosto-4 setembro) e o Laus Polyphoniae de Antuérpia (de 19 a 28 de agosto).

E por últimos os três grandes festivais: Salzburgo, Bayreuth e os Proms. O primeiro prolonga-se até dia 31 e é um desfilar diário de propostas excecionais de todo o tipo; o segundo termina no dia 28 e este ano vai alternando Anel do Nibelungo, Parsifal, Navio fantasma e Tristão e Isolda; por último, os Proms (Londres) têm enfoque na música orquestral e estão ao nível de Salzburgo, embora a preços bem mais módicos. Termina a 10 de setembro, com a Last Night of the Proms tendo por convidado especial o tenor Juan Diego Flórez.

Por isso, tomando o conselho de Henrique, só tem que preparar as malas e "aterrar" num Festival, tratando só depois de arranjar bilhetes: "estando lá, é fácil arranjar, e sem serem inflacionados!" Há muita boa música à sua espera.

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