Doc italiano financiado por crowdfunding conquista Lisboa

Em Il Solengo os italianos Alessio Rigo de Righi e Matteo Zoppis contam a história do "bom selvagem."

Há uma linha que une os filmes vencedores das competições internacional e portuguesa desta 15.ª edição do Doclisboa: olhares e imaginários centrados em figuras singulares, numa paisagem rural. Il Solengo, de Alessio Rigo de Righi e Matteo Zoppis, é o vencedor máximo do festival, arrecadando o Grande Prémio da Cidade de Lisboa. Este filme situa-se pois na Itália campestre, em Vejano, região do Lácio, perto de Roma. É lá que, numa cabana de caça, escutamos os relatos de alguns velhos habitantes sobre a memória que têm da vida de Mario de Marcella, justamente conhecido entre todos como Il Solengo, "O Javali Solitário", por se refugiar nos bosques à procura da solidão. O homem que virou costas à comunidade surge--nos apresentado pelo grupo, transformado em cada relato, como na tradição dos contos orais. Os realizadores, jovens, e que recorreram ao tão moderno crowdfunding para obter pelo menos os dez mil euros necessários para avançar com a produção, não querem saber a verdade sobre o solengo. Procuram sim entrar pelo território em que as histórias se confundem com a lenda, mostrando que nunca há uma só verdade. Ao mesmo tempo, este filme é um olhar bucólico à natureza, ao lugar de onde ancestralmente partimos, mas onde só alguns, como Mario de Marcella, regressam. Ele é uma espécie de Henry Thoreau, mas mais determinado e sem nos deixar um relato como Walden ou a Vida nos Bosques. Il Solengo passa hoje na Culturgest, pelas 21.30.

Rio Corgo: primeira obra

Por sua vez, na competição portuguesa, Rio Corgo, outro trabalho em dupla, de Maya Kosa e Sérgio Costa, é o vencedor do Prémio Liscont, e aproxima-se fisicamente do seu protagonista, o velho Sr. Silva, de cognome "O Espanhol", que num quotidiano de errância se cruza com uma jovem, destinada a conhecer os seus fantasmas interiores: "Eu não vivo sozinho. Tenho mais gente dentro de mim." Também na Culturgest, mas mais cedo, às 16.00, é possível descobrir esta primeira obra.

O Prémio SPA do Júri da Competição Internacional foi atribuído ao documentário Babor Casanova, do argelino-suíço Karim Sayad, focado em dois jovens de Argel, que encontram no amor ao clube de futebol um escape para as suas vidas vazias. Um filme que passou, em julho, pela seleção oficial do Festival de Locarno. Ainda na competição internacional, o espanhol Mauro Herce acumula o Prémio Íngreme do Júri Universidades e o Prémio FCSH para Melhor Primeira Obra Transversal às Competições e Riscos, com Dead Slow Ahead, sobre um cargueiro em contínuo movimento no oceano.

E na competição nacional, além do Prémio Íngreme do Júri, Talvez Deserto, Talvez Universo vence também o Prémio Escolas António Arroio. De Miguel Seabra Lopes e Karen Akerman, este documentário marca uma incursão no universo fechado, claustrofóbico, de uma unidade de internamento do Hospital Júlio de Matos, em Lisboa.

A vida e obra do poeta Bob Kaufman, considerado "o Rimbaud americano", é a matéria de And When I Die, I Won"t Stay Dead, uma coprodução portuguesa e americana, de Billy Woodberry, distinguida com o Prémio RTP para Melhor Documentário de Investigação, que é exibido às 22.00, no Cinema São Jorge. Ainda na competição portuguesa, Phil Mendrix, de Paulo Abreu, é Prémio do Público, um trabalho igualmente focado na vida conturbada de um artista, o guitarrista Filipe Mendes, que acaba por revisitar ainda a época em que o rock chegou a Portugal.

No quadro das menções honrosas: na competição internacional, este ano vai para a curta-metragem de Manuel Mozos, A Glória de Fazer Cinema Em Portugal, realizador que se tem debruçado particularmente sobre o arquivo do cinema português, e que agora chega com uma efabulação a partir do indício real de uma carta escrita por José Régio, reveladora da sua vontade de criar uma produtora e fazer filmes. Já na competição portuguesa destaca-se Setil, de Tiago Siopa, uma procura pela evocação histórica da construção de um espaço atualmente desabitado. A produção canadiana 88:88, de Isiah Medina, recebe a menção honrosa para Melhor Primeira Obra.

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