Do romantismo alemão ao sinfonismo soviético

Orquestra do Concertgebouw de Amesterdão tocou Wagner, Bruch e Shostakovitch no Grande Auditório da Gulbenkian

Tornou-se um privilégio raro, em Lisboa, ouvir grandes orquestras internacionais, desde que, há cerca de uma década, terminaram os ciclos "Grandes Orquestras Mundiais". Tanto mais significativa foi por isso a visita de uma das orquestras absolutamente mais "primus inter pares" do mundo: a Concertgebouw de Amesterdão. Dirigida por Semyon Bychkov, trouxe o Prelúdio dos "Mestres Cantores" de Wagner, o "Concerto para dois pianos" de Bruch e a "Quinta Sinfonia" de Shostakovitch. Eram solistas no Bruch as irmãs Katia e Marielle Labèque.

O Wagner foi tocado em conjunto com 40 jovens do Estágio Gulbenkian de Orquestra. Ligeiras assincronias nos momentos iniciais foram corrigidas, numa interpretação que teve ímpeto, brilho e "panache".

Seguiu-se o raríssimo "Concerto para 2 pianos" de Max Bruch, obra tardia desse compositor (de 1912-15), mas nem por isso menos assertiva quanto às filiações e predileções estéticas do seu autor, sempre firmemente ancoradas no 1.º Romantismo germânico. A obra articula-se em 4 andamentos embora o "Andante sostenuto" inicial possa ser visto como um pórtico para o "Allegro molto vivace" (2.º and.), para que transita por meio de uma "ponte" (marcada "Andante con moto"). Esse "sostenuto" - austero, solene e de seriedade quase trágica - será talvez demasiado imponente para o que a obra revelará vir a ser, mas faz-nos ouvir Bruch (inesperadamente!) à luz - passe a sinestesia - dos seus contemporâneos Reger e Busoni e, por extensão quase "natural", de J. S. Bach, tal como o entendia a Alemanha guilhermina.

O "molto vivace" (2.º and.) está todo ele sob o signo de Schumann e Mendelssohn, com os pianos mais expostos na textura. No "Adagio ma non troppo" reencontramos o romantismo generoso (mas nunca espalhafatoso nem "açucarado") da página homóloga no seu famoso "Concerto para violino em sol menor". O andamento final recupera a Introdução do 1.º andamento e contrapõe-lhe material temático mais fluido e vivo (pelos pianos), numa página de feição bastante sinfónica, brilhante sem ser vazia e, de resto, muito bem orquestrada. Interessante na obra, ainda, o entendimento da função dos solistas como eminentemente integrada no tecido orquestral geral; e o princípio da economia temática claramente observado pelo autor. Em suma, uma obra que merece ser revisitada com mais frequência nas salas de concerto.

Em extra, as irmãs Labèque tocaram um excerto de "Four Movements", de Philip Glass (n. 1937), obra de 2008 dedicada a (e estreada por) Dennis Russell Davies e Maki Namakawa. Formalmente, revelou-se como um enorme "crescendo" sob todos os parâmetros musicais (na esteira longínqua de "La Valse" de Ravel), usando os padrões repetitivos, as figurações arpejísticas e os ritmos propulsivos - marca-d"água do compositor - como "dínamos" da sua explanação no tempo, terminando de forma sonora e visualmente espectacular.

A segunda parte foi preenchida com a "Sinfonia n.º 5" de Dmitri Shostakovitch, escrita e estreada em 1937, no auge da Grande Purga estalinista. Bychkov é um reconhecido especialista na música do compositor e isso ficou bem patente na leitura que imprimiu: o 1.º andamento, de contrastes muito cavados e sonoridade sempre muito bem cinzelada, foi um drama inteiro só por si; no 2.º andamento foi muito interessante perceber como Bychkov "levou" colorido orquestral e balanço rítmico na direção dos "Scherzi" das sinfonias de Mahler, sobretudo porque tal opção nos pareceu inteiramente coerente; o 3.º andamento foi o momento mais alto de todo o concerto: um intensíssimo tratado de música introspectiva e certamente uma das mais belas versões dessa página que jamais ouvimos! Depois de tal clímax, pareceu-nos que Bychkov "deixou" ir o "Finale" um pouco em "piloto automático": a sua leitura foi por isso um pouco menos conseguida em termos do grande arco dramático, conquanto esse andamento tenha de per si uma dramaturgia que infalivelmente conquista o público no final. Foi o que aconteceu.

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