Diretor do MNAA defende autenticidade de quadros em exposição no museu

Uma das telas da Vista da Rua Nova dos Mercadores, que pode ser vista na exposição "Cidade Global", no MNAA

António Filipe Pimentel diz que os quadros que vão estar a partir de amanhã na exposição "Cidade Global" "são pintura antiga inquestionável". E admite pedir recomendar provas laboratoriais aos proprietários.

As declarações do diretor do Museu Nacional de Arte Antiga contestam uma notícia de sábado do semanário "Expresso" que levantava suspeitas sobre a autenticidade de duas obras que são mostradas na nova exposição temporária do Museu Nacional de Arte Antiga, "Cidade Global - Lisboa no Renascimento", que é inaugurada amanhã, às 18.30, com a presença do ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes.

A primeira é um quadro que retrata a Rua Nova dos Mercadores, a segunda é Chafariz d' El Rey, que pertence à coleção privada de Joe Berardo. "Não foram feitas no século XIX ou XX", afirma António Filipe Pimentel aos jornalistas, depois de uma conferência de imprensa que começou por desmontar os argumentos da notícia do semanário, em que também é publicado um ensaio do historiador Diogo Ramada Curto.

A notícia afirma que a obra em duas telas com a vista da Rua Nova dos Mercadores, identificada em 2009, "é um quadro forjado no século XX a imitar o passado", citando o historiador João Alves Dias. E que não poderia ter feito parte do espólio do pintor pré-rafaelita Dante Gabril Rossetti (1828-1882), à guarda da Society of Antiquaries de Londres, em Kelmscott Manor. António Filipe Pimentel contrapõe com as investigações de Kate Lowe e Annemarie Jordan, as primeiras a identificarem esta vista como pertencendo à Rua Nova dos Mercadores, em Lisboa, e o artigo publicado por Julia Dudkiewicz no The British Art Journal intitulado Dante Gabriel Rossetti"s collection of Old Masters at Kelmscott Manor.

Esta historiadora investigou o testamento de May Morris, filha de William Morris e herdeira de Kelmscott Manor de que consta uma lista de 220 objetos que foram doados à Universidade de Oxford, juntamente com a casa. "Nessa lista, com descrições dos vários itens, que englobam proveniências e localização na casa, surgem os dois quadros representando a Rua Nova dos Mercadores: 'Duas imagens de cenas de uma cidade, parte das coisas de D.G.R. [Dante Gabriel Rossetti]'."

No que diz respeito à obra Chafariz d'El Rey, António Filipe Pimentel diz que não foi produzido um exaustivo estudo monográfico, material e iconográfico", mas a obra é conhecida. Numa resenha do seu percurso, Pimentel explicou que a finais do século XIX pertencia à coleção do conde Adanero, de Madrid. "Identificada como uma cena urbana, foi fotografada cerca de 1940 pela Casa Moreno/Archivo de Arte Español", explica Pimentel. "Foi reconhecida como representando o Chafariz d"el-Rei no antiquário madrileno, Caylus Anticuarios, e divulgada em Portugal por Vitor Serrão em 1998". Acabaria por ser adquirida pelo empresário Joe Berardo.

O historiador de arte Fernando Baptista Pereira, que fez parte da organização da exposição Os Negros em Portugal, séculos XV a XIX, atesta da autenticidade da obra, em linha com o que tem defendido outro historiador de arte, Vítor Serrão. "São cenas irónicas, pícaras da vida de Lisboa", nota Baptista Pereira, ao DN. Acredita que se trata da visão de um artista de fora em Lisboa, mas provavelmente executada em Lisboa. "Os exames já feitos dizem-nos que a superfície da tela e a preparação técnica têm afinidades com o que se fazia na Península Ibérica", explica.

Anísio Franco, historiador de arte e conservador do MNAA, tem sim dúvidas na datação, que põe "entre 1590 e 1630", mas não põe em causa a autenticidade da obra, como frisa, em declarações ao DN. "[O quadro] Está a descrever uma coisa que só existia antes do terremoto".

Esta pintura tem sido mostrada por várias vezes, "reproduzida e comentada nos respetivos catálogos", diz Pimentel, elencando as referências e sublinhado a participando do historiador Diogo Ramada Curto em duas delas: "Os Negros em Portugal. Séculos XV a XIX, Lisboa, Mosteiro dos Jerónimos, 1999, com comissariado de Didier Lahon e Maria Cristina Neto; Encompassing the Globe. Portugal and the World in the 16th & 17th Centuries, Washington: Smithsonian Institution, 2007, editado por Jay A Levenson, com a colaboração de Diogo Ramada Curto e Jack Turner; Autour du Globe. Le Portugal dans le monde aux XVIe et XVIIe siècles, Bruxelas, Palais des Beaux-Arts, 2007-8, com comissariado de Jay A. Lavenson, com a colaboração de Jean-Michel Massing, Nuno Vassallo e Silva, Regina Krahl, Diogo Ramada Curto e James Ulak; e Portugal e o Mundo nos Séculos XVI e XVII, Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga, 2009, com comissariado de Jay A. Levenson, Jean Michel Massing, Julian Raby, Nuno Vassallo e Silva, James Ulak e Regina Krahl.

O diretor do MNAA acrescentou ainda que está aberta a possibilidade de se fazerem exames laboratoriais às obras, "desde que os proprietários se os proprietários queiram". Isto é, Kelmscott's Manor, no caso da vista da Rua Nova dos Mercadores, e Joe Berardo, quando falamos da pintura Chafariz d'El Rey. "É preciso saber se se consegue avançar mais do que aquilo que já foi feito", nota o diretor do museu.

A exposição abre ao público esta sexta-feira. Pode ser visitada de terça a quinta e aos domingos, das 10.00 às 18.00. Às sextas e sábados, das 10.00 às 20.00. Este fim de semana, dias 25 e 26, a entrada na exposição é gratuita (mantém-se a entrada paga no museu). Encerra a 9 de abril.

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