Nazis chegaram a preocupar-se com "origens judaicas" de António Ferro

O escritor, jornalista e político português António Ferro, numa imagem do arquivo do Diário de Notícias

Segundo o livro "Portugal e os Nazis", da investigadora Cláudia Ninhos, relação do responsável pela propaganda do salazarismo com as autoridades nazis era tensa devido aos artigos que este publicava no DN

O livro da investigadora Cláudia Ninhos, "Portugal e os Nazis" revela que o embaixador de Berlim em Lisboa durante a II Guerra chegou a considerar a possibilidade de António Ferro, responsável pela propaganda, ser de "origem judaica".

O rascunho de um relatório do embaixador alemão em Lisboa Oswald von Hoyningen-Huene na sequência de uma viagem de jornalistas a Londres, em 1939, mencionava António Ferro, "escrevendo que era um anglófilo com 'origem judaica'".

"A informação sobre a origem de Ferro não chegou, no entanto a Berlim, uma vez que apenas consta no rascunho, onde foi rasurada. A amizade de António Ferro, que os alemães sabiam ter um papel proeminente no seio do regime português, foi sempre muito cobiçada, mas nem sempre correspondida" (página 167), escreve a autora referindo-se ao jornalista e político responsável pelo Secretariado da Propaganda Nacional do Estado Novo.

Cláudia Ninhos, que investigou fontes alemãs, acrescenta que a relação de António Ferro (1895-1956) com as autoridades nazis em Portugal foi "relativamente tensa" devido aos artigos críticos que o jornalista publicou no Diário de Notícias depois de ter estado na Alemanha, onde, em 1930 entrevistou Adolf Hitler.

As relações foram particularmente problemáticas com Friedhelman Burbach, representante do Partido Nacional Socialista em Espanha e Portugal.

"(Friedhelman Burbach) considerava-o também um francófilo que tinha uma grande simpatia pelas mulheres francesas. A sua predileção por Paris impedira-o mesmo de visitar o Instituto Luso-Brasileiro da Universidade de Colónia, no início de 1934. Mesmo assim, Burbach considerava essencial que Ferro passasse algum tempo em Berlim" (página 167), indica o livro "Portugal e os Nazis".

A investigação acrescenta que os funcionários do Ministério da Propaganda e dos Negócios Estrangeiros da Alemanha nazi "não estavam completamente cientes" do significado do chefe da propaganda portuguesa a Berlim porque "afirmava Burbach, consideravam que Ferro era judeu -- algo que Burbach desmente -- e antigermânico".

O livro "Portugal e os Nazis" investiga as relações luso-alemãs a partir das fontes de Berlim, com base no arquivo político do Ministério dos Negócios Estrangeiros alemão, e o trabalho do ministro da Alemanha (embaixador) em Portugal, barão Oswald von Hoyningen-Huene que se manteve no posto, em Lisboa, entre 1934 e 1944.

"Eu achava que havia uma falha grande da historiografia sobre Portugal na Segunda Guerra Mundial que é o acesso às fontes alemãs. O único grande trabalho que recorre às fontes alemãs é o de António Louçã ("Negócios com os Nazis -- Ouro e Outras Pilhagens") e o resultado é completamente diferente e há ainda informação que não está explorada", disse à Lusa Cláudia Ninhos autora do livro que explora o trabalho diplomático da Alemanha nazi em Lisboa desde os anos 1930 até ao final da Segunda Guerra Mundial.

O livro detalha os esforços da embaixada alemã nas questões relacionadas com o comércio do volfrâmio, o acordo das Lages, e sobretudo destaca os intensos esforços diplomáticos da Alemanha no sentido do intercâmbio cultural e académico como fatores de influência política, apesar de o acordo formal entre Lisboa e Berlim nunca ter sido firmado.

"Portugal e os Nazis -- Histórias e Segredos de uma Aliança" (Esfera dos Livros, 326 páginas) inclui fotografias e vai ser apresentado hoje na livraria Buchholz, em Lisboa.

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