Diamantes de Cannes

O filme "Diamantino" venceu a Semana da Crítica. O cinema português atravessa uma fase de grande reconhecimento.

Começa a cansar noticiar prémios internacionais do cinema português. A corrente do novo cinema português está tão pujante que parece que estamos a ficar habituados aos galardões nos festivais, embora o feito de Gabriel Abrantes e do seu colega norte-americano Daniel Schmidt em Diamantino seja de facto singular. Diamantino venceu a Semana da Crítica. Não foi uma menção, não foi um prémio secundário. Ganhou o Grande Prémio! Contra tudo e contra todos, contra os Velhos do Restelo que ainda só falam dos tempos de Oliveira.

E brinde-se com toda a força ao filme! Diamantino foi escolhido pelo júri presidido por Chloe Sevigny pela sua selvagem originalidade. Um obra que encena um humor satírico que diz muito sobre o Portugal que se estupidifica perante os seus ídolos. Não é apenas sobre a sugestão do Deus do futebol, Cristiano, é sobre como podemos vir a estar entregues a uma bicharada temível...

Na seleção oficial, no Un Certain Regard, outro diamante, o belo Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos, de João Salaviza e da sua mulher, a brasileira Renée Nader Massora (hoje serão ainda anunciados os prémios desta secção...). Trata-se de um outro feito do cinema português, o regresso à seleção oficial depois de O Estranho Caso de Angélica, de Oliveira, há oito anos, neste caso com uma prova de placagem na poesia de uma tribo brasileira de índios. Entre os mortos e os vivos, um objeto em permanente estado de sítio. Salaviza enche-nos de orgulho com um filme fortemente ovacionado na gala do Debussy. Um caso de humanismo único... Um filme em sagaz em graça com a selva, onde fogo, a noite e um design de som inovador deixam-nos banzados

Diamantino e Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos são dois novos colossos do cinema português.

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João Gobern

Há pessoas estranhas. E depois há David Lynch

Ganha-se balanço para o livro - Espaço para Sonhar, coassinado por David Lynch e Kristine McKenna, ed. Elsinore - em nome das melhores recordações, como Blue Velvet (Veludo Azul) ou Mulholland Drive, como essa singular série de TV, com princípio e sempre sem fim, que é Twin Peaks. Ou até em função de "objetos" estranhos e ainda à procura de descodificação definitiva, como Eraserhead ou Inland Empire, manifestos da peculiaridade do cineasta e criador biografado. Um dos primeiros elogios que ganha corpo é de que este longo percurso, dividido entre o relato clássico construído sobretudo a partir de entrevistas a terceiros próximos e envolvidos, por um lado, e as memórias do próprio David Lynch, por outro, nunca se torna pesado, fastidioso ou redundante - algo que merece ser sublinhado se pensarmos que se trata de um volume de 700 páginas, que acompanha o "visado" desde a infância até aos dias de hoje.