Dez dias a aprender, a tocar e a ouvir ao lado dos grandes

O Verão Clássico começa na terça feira no CCB. Um festival escola, que atrai jovens de todo o mundo

Numa altura em que todos pensam nas férias, cerca de 150 jovens de mais de 20 nacionalidades (cem são portugueses) convergem por estes dias para o Centro Cultural de Belém, em Lisboa, para frequentar o Verão Clássico. Para os receber, 11 reputados mestres, encabeçados pelo diretor artístico e pedagógico, o pianista Filipe Pinto-Ribeiro.

Durante nove dias, oito salas do CCB enchem-se de "lições magistrais" (cerca de 380, ao todo), não só dos instrumentos individuais (piano, os quatro de cordas, oboé, clarinete e trompa), mas ainda de música de câmara e de Técnica Alexander dirigida a músicos profissionais. A parte pedagógica é complementada por uma igualmente intensa componente performativa, com recitais diários, protagonizados ora por professores (as MasterFest), ora por alunos (as TalentFest). Para apoio, dispõem ainda de 25 salas de estudo na AMEC/Metropolitana.

Dois dos professores/mestres que estarão no CCB esta ano são o pianista de origem russa Eldar Nebolsin e o oboísta espanhol Ramón Ortega Quero.

Eldar regressa após a experiência de 2016: "Qualquer desculpa é boa para vir a Lisboa! E aproveito e trago a minha mulher e filhas. Gosto muito de tudo: o local e a envolvente, a atmosfera que se cria ali dentro, o facto de também poder fazer concertos, a convivência com os outros professores. É uma bela iniciativa e há muito mérito do Filipe nisso: ele é um excelente anfitrião!"

Já para Ramón é uma estreia: "Em Portugal, toquei muito pouco, até agora, e foi sempre com o grupo do Filipe [DSCH-Shostakovich Ensemble]. Mas a localização destes cursos é um privilégio: Lisboa e a zona de Belém, em particular. É uma maravilha poder fazer ali uma academia de verão!"

Vêm ambos da Alemanha: Eldar, pedagogo muito reputado, ensina na Superior Hanns Eisler de Berlim, enquanto que Ramón, apenas 29 anos, é desde há nove 1.º oboé solista (escolha pessoal do grande maestro Mariss Jansons) da Orquestra Sinfónica da Rádio da Baviera.

"E depois há outra questão - prossegue Eldar: estes cursos são muito apetecíveis em termos económicos para os estudantes, se os comparar com iniciativas comparáveis em que estive. Aliás, falei com vários alunos e todos eles se mostraram surpreendidos positivamente por esse factor, que é sempre determinante para eles."

Apesar de não ser professor regular - "sou Assistente Convidado do Conservatório do Liceu, em Barcelona e integro a Academia da Orquestra da Baviera, onde tive até ao ano passado por aluno o português Guilherme Sousa", Ramón já tem uma estratégia afinada para as masterclasses: "Gosto mais de explicar tocando do que explicar falando. E tenho tido bons feedbacks. De resto, para mim, que não sou o professor típico, uma masterclass é algo de complexo, pois temos de escolher cuidadosamente a informação que queremos transmitir naquele tempo limitado. E aí incluo quer os conselhos de interpretação, quer orientações/correções técnicas, com igual peso."

Já para Eldar, essencial é "dar orientações gerais, mostrar novos caminhos e possibilidades. Não tanto o "como é feito?", mas mais o "porque é feito assim?". Intuito é melhorar a forma do aluno tocar e dar-lhe ferramentas que lhe poderão ser úteis para outros obras que venha a abordar. Combino o falar, o tocar... e o cantar, que também é muito importante num pianista. E abordo mais a interpretação, pois mexer na técnica é melindroso..."

Ambos aplaudem inclusão (em estreia), por serem "duas vertentes fundamentais para um músico"da música de câmara e da Técnica Alexander no Verão Clássico 2017.

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