Desenhar o património também é recuperá-lo

Uma das peças de Teresa Palma

Uma artista coleciona fragmentos de azulejos e fósseis que depois pinta, outra percorreu Portugal para traçar os seus palácios

Da vista que a Marquesa de Alorna tinha da sua janela no convento de Chelas, onde esteve presa a mando do Marquês de Pombal, "ainda persiste a paisagem rural", diz a artista Teresa Palma. "Ainda se podem ver aqueles campos cultivados. Quando passamos de metro [lisboeta] da Belavista para as Olaias, à superfície conseguimos observar o vale de Chelas cheio de hortas. Atualmente são de cabo-verdianos, é diferente da população rural que havia na altura da Marquesa de Alorna."

Teresa, cujo ateliê de trabalho se situa em Marvila, há muito recolhe naquela zona "de palácios abandonados ou devolutos, de quintas de recreio" pequenos fragmentos, entre fósseis e azulejos, de um tempo antigo. Alguns deles podem agora ser vistos na exposição Ao Sabor do Património, patente na galeria Opus 14, em Lisboa. Além dessas mínimas testemunhas de outro tempo, estão os desenhos que Teresa, ou não fosse ela pintora, fez deles. Há naqueles quadros feitos a aguarela japonesa qualquer coisa de ilustração científica, pela qual a artista confessa a sua afinidade.

"Fui ao Museu do Azulejo perguntar se era possível datar [os fragmentos] e eles mostraram-me centenas de pilhas de azulejos. Isto", diz a artista pegando com cuidado num deles, "pode ser do século XVIII, outros já serão do século XIX." Tudo ali aguça a sua imaginação. "O que me interessa quando observo estes fragmentos é ficcionar, pensar a quem é que terão pertencido. Durante o tempo em que estou a criar consigo criar ficções na minha cabeça."

Teresa Palma e Fernanda Lamelas

Fernanda Lamelas, que até 11 de janeiro partilha as paredes da galeria Opus 14 com Teresa, anda sempre com a sua caneta preferida, uma Namiki Falcon, de aparo e à prova de água. É arquiteta e urban sketcher, o que significa que a podemos encontrar a desenhar recantos de Lisboa ou a comida do seu jantar num qualquer restaurante.

"A máquina fotográfica apanha tudo o que está na lente, nós no desenho apanhamos aquilo que queremos, até pode ser só uma porta e um homem." Apanhou, portanto, o que quis para os desenhos com que ilustrou Palácios e Casas Senhoriais de Portugal, de Diana de Cadaval.

Os desenhos de Fernanda Lamelas

Ali estão expostos 15 dos 20 desenhos que fez. Desde o palácio do Buçaco ao "mais difícil", o de Vila Viçosa. "Não, olhe o mais difícil não foi esse, foi este." Fernanda aponta para o desenho do palácio de Santos, a embaixada francesa. Conta que o desenhou pouco depois dos atentados ao Charlie Hebdo, em Paris, janeiro último. Foi, por isso, a certa altura impedida de desenhar pelos responsáveis pela segurança. Uma proibição que durou pouco tempo quando perceberam que ela não representava qualquer perigo. A artista conta ainda que outro muito difícil foi o de Cidrô, em São João da Pesqueira. "Não o consegui ver, estava muito nevoeiro." Foi almoçar, esperou. Nada.

Agora, sem nevoeiro, o património reúne-se naquela pequena galeria.

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