"Desde que sou gente, os espelhos sempre me fascinaram e seduziram"

Até 5 de fevereiro há todo o tipo de espelhos na galeria nobre da Gulbenkian, em pinturas, esculturas, fotografias, filmes e até num belo e grande móvel Lalique. É Do Outro Lado do Espelho, a última exposição da mais antiga funcionária da Fundação

Foi a licenciatura em Germânicas que levou esta "nossa" Geraldina Chaplin para a Gulbenkian, quando em 1968 foi catalogar os livros em alemão gótico da Biblioteca Vianna da Mota. As artes plásticas entraram na vida dela, numa formação prática consolidada em Bristol. A cineasta Catarina Mourão, a filha mais velha, fez o filme A Toca do Lobo, uma interrogação sobre o pai de Rosa, o escritor Tomás de Figueiredo, figura ausente na vida familiar.

Como aparece esta exposição?

Fui convidada para ir em janeiro à National Gallery [Londres] porque têm neste momento uma exposição sobre espelhos [Reflections, Van Eyck & the Pre-Raphaelites, até 2 de abril]. O tema é muito restritivo porque é o Van Eyck, os esposos Arnolfini e a influência deles nos pré-rafaelitas. Mas têm uma conferência de dois dias sobre o tema dos espelhos e, como souberam que eu tinha esta exposição, convidaram-me. Tenho estado a organizar um power point para apresentar e começo com uma fotografia minha aos dois anos.

Com um espelho?

Não. Depois, sou eu de novo aos nove anos [quando o pai lhe ofereceu Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll]. Praticamente toda a vida, desde que sou gente, que falo, que os espelhos me intrigaram e me seduziram. Eu morava na avenida Elias Garcia [Lisboa], muito perto da Feira Popular, onde depois ficou o Parque da Gulbenkian, o parque de Santa Gertrudes, e brincava num quarto onde tinha os brinquedos mas que era um quarto de arrumação, com um guarda-fatos onde a minha mãe tinha os fatos que vestia menos. Esse guarda-fatos tinha à frente um grande espelho. Eu sentava-me no chão, sempre gostei - agora infelizmente, como tenho próteses nos joelhos, já não gosto - de me sentar no chão. E como não tinha companheiros de brincadeira - não era filha única mas os meus irmãos eram muito mais velhos do que eu, ele 15 anos e ela 13 - eu conversava, fingia que tinha ali alguém.

Conversava com o espelho?

Sim, exatamente como aquele miúdo Svyato, que quer dizer feliz, do filme do Victor Kossakovsky [na exposição], que também começa a reconhecer-se. Eu não tenho noção de achar que era outra. Achava que era eu, falava alto com as bonecas, sempre brinquei muito com bonecas, nunca fui maria-rapaz. Não tinha jeito nenhum para o ringue nem para a bola, jogava mas para acompanhar as amigas.

Tratam-na por Maria Rosa ou Rosa?

Os meus amigos e a minha família tratam-me por Zinha, profissionalmente no Museu tratam-me por Rosa, mas eu sempre que assino, sobretudo em contactos com o exterior, ponho Maria Rosa. Os estrangeiros tendem a chamar-me Maria Rosa.

Até porque lhes deve ser difícil dizer Figueiredo.

Figueiredo é impossível. Vivi quatro anos da minha vida profissional em Inglaterra, em Bristol, e chamavam-me Maria, evidentemente.

É a funcionária mais antiga da Fundação Gulbenkian?

Entrei em 1968, imediatamente a seguir às inundações de novembro de 1967. A sede da fundação ainda não estava construída, estava quase pronta. O museu funcionava no Palácio Pombal em Oeiras e eu entrei, já no rescaldo das inundações, para catalogar a Biblioteca Vianna da Mota.

Como foi lá parar? É licenciada em Germânicas, um curso que as meninas faziam.

Sim, os rapazes eram um bocado de desconfiar.

O que a levou para a Gulbenkian?

Comecei a dar explicações e apanhei só alunos burros e disse: não quero isto para a minha vida. Não se conseguia que entrasse nada naquelas cabeças. Tinha uma amiga da faculdade que ainda é vagamente minha prima e que tinha começado a trabalhar no museu. Precisavam de mais gente para catalogar a biblioteca Vianna da Mota, porque os livros eram em alemão gótico.

A Rosa sabia alemão. E o gótico?

Comecei a comparar, a ver. Nunca tinha lido em alemão gótico, mas consegui chegar lá e fazia as fichas, tudo à mão.

Trabalhou em Oeiras?

Sim, em Oeiras. Entrei em janeiro de 1968. Era uma tarefa de três meses. Trabalhava com a Cremilde Rosado Fernandes e com o Luís Pereira Leal, que depois foi diretor do Serviço de Música. Eles catalogavam os livros de música. A biblioteca era constituída em grande parte por pautas e livros de música e eu catalogava os livros em alemão gótico, uma coisa incrível. Trabalhávamos numa mesa redonda.

Os três?

Sim. Quando estava a acabar, houve um concurso para correspondente de línguas, ao qual eu concorri e fiquei. Fiquei no arquivo fotográfico, mais tarde mudámos para Lisboa. Houve uma vaga como assistente da conservadora de pintura, Maria Helena Soares Costa, porque a assistente dela foi convidada para o Museu de Arte Antiga, e eu fiquei lá até ir para Inglaterra. Estava casada com um senhor que ia fazer um doutoramento em Bioquímica em Inglaterra, em Bristol. Entretanto, comecei a interessar-me muito pelos temas de arte. O curso para conservador de museus, que funcionava parte na Faculdade de Letras e parte no Museu de Arte Antiga, tinha fechado para reestruturação. Tive uma sorte imensa porque houve um congresso de restauro com centenas de pessoas, na Fundação, e eu andei à procura de pessoas de museus de Bristol. Queria ver que possibilidades havia de fazer um curso em Inglaterra. Encontrei não só o diretor, o Arnold Wilson, que ficou amigo para toda a vida, como o chefe da oficina de restauro de Bristol, da City Art Gallery. Foram super-simpáticos, convidaram-me para trabalhar lá e disseram-me que podia fazer o curso através da Museum"s Association. Inscrevi-me no curso e ao mesmo tempo trabalhava no museu, no departamento de Fine Arts. A minha primeira exposição foi feita em Bristol - Victorian and Edwardian Paintings from City Art Gallery. Foi um teste. Não era eu sozinha, era eu e mais outra, mas depois ele veio dizer-me às escondidas que os teus textos eram melhores...

Esteve lá de 1973 a 1976?

De janeiro de 72 a 76.

Quantas exposições fez desde esse tempo?

Não as contei mas na maioria eu era só executiva. Com o meu conceito fiz poucas, porque não tinha grandes oportunidades. Havia um diretor que inventava uma exposição.

A sua formação foi feita por si?

Sim, não tinha apoio nenhum.

Não fez curso de Belas Artes nem de História de Arte e tornou-se uma grande especialista.

Não me considero especialista. Tenho o gosto das coisas e escrevo razoavelmente. E penso. Chega-se la com a prática.

Para a exposição Do outro Lado do Espelho foi buscar obras a vários lados. Deve conhecer a coleção da Gulbenkian de trás para a frente.

Sim, mas na Gulbenkian não havia nada. Na coleção antiga, só na parte dos livros consegui recolher algumas coisas e O Espelho de Vénus do Burne-Jones. Só que eu fiz uma recolha ao longo dos anos. Nós viajamos muito em transporte de obras de arte. As obras são emprestadas para exposições fora de Portugal e são sempre acompanhadas pelo conservador. Eu andava pelos museus sempre a ver onde havia imagens obras com espelhos. Uma amiga lembrou-me que estivemos em 2000 na feira de artes de Maastricht, e eu andava doida à procura de obras com espelhos.

Foi em Bruxelas que encontrou o quadro de Paul Delvaux que está na exposição?

Não, esse veio da coleção Thyssen.

E tinha registado todos os quadros que encontrou com espelhos?

Sim, quando encontrava tentava comprar postais. A exposição começou por ser só de pintura.

Mas não tem só pintura.

Depois teve um desenvolvimento. Eu tinha um projeto aprovado só de pintura, mas entretanto veio a Penelope Curtis...

... a diretora do Museu Gulbenkian...

... que veio da Tate. Veio com a missão de juntar os dois museus, o que é à partida difícil, e de reduzir custos. Aliás, o juntar os dois museus já era para reduzir custos. Agora chama-se tudo Museu Gulbenkian, uma é a Coleção do Fundador e a outra é a Coleção Moderna. Eu já tinha um projeto aprovado pelo anterior presidente, Santos Silva, ainda vinha do tempo de João Castel-Branco [ex-diretor do Museu Gulbenkian]. Estive um ano e tal diretora interina do Museu, fiz a passagem entre o João Castel-Branco e a nova diretora, e nesse ano parei completamente com o projeto, era impossível. Uma pessoa que vai estar um ano à frente de um museu procura fazer o seu melhor. Trabalhei sete dias por semana, de manhã ao sol-posto, e não tinha tempo para mais nada. Quando chegou a nova diretora, apresentei-lhe o projeto e ela torceu um bocadinho o nariz.

Por ser só pintura?

Por ser só pintura e por serem obras fantásticas e difíceis de conseguir. Mas eu tinha uma grande escolha, umas 300 obras. Apresentei-lhe em três fatias. O primeiro pedido de empréstimo tinha à volta de 40 a 50 pinturas. Aquilo ficou na prateleira imenso tempo, às tantas já não havia tempo útil, e ela propôs-me que fizesse o primeiro pedido. Foram pedidas 40 pinturas e 14 foram aceites, 20 e tal foram recusadas pelas mais diversas razões. Quase todas as pinturas com espelho convexo - ainda consegui uma - foram para a exposição da National Gallery.

Então a exposição que está patente não é a que tinha idealizado?

Não é, e tive de engolir muitos sapos, muitos mesmo. Eu tinha-a sempre idealizado para a galeria de cima, a galeria nobre da Fundação, e remeteu-a para a galeria de baixo mas depois, à medida que se começava a ter coisas, voltou outra vez para a de cima.

Onde está, de facto.

E está muito bem. E deu-me uma ajudante, a Leonor Nazaré, que é uma pessoa muito competente mas não é nada o meu género, não é aberta, tem sempre um ar muito sério e eu pensei "ai meu Deus o que é que aí vem, como é que isto vai ser?" Simplesmente, correu muito bem, ela é corretíssima, nunca me impôs nada. Dava-me sugestões e eu dizia "isto sim, isto não". Só me interessavam obras que tivessem representação de pessoas, que tivessem ligação com pessoas, não me interessava uma coisa abstrata com um espelho que não me dissesse nada. Fiz ali uma única concessão.

Qual?

Um espelho que diz Eureka [Waltércio Caldas, Rio de Janeiro, 1946]. Mas achei que se encaixava muito bem nos instrumentos científicos.

E teve a montagem de Mariano Piçarra.

Para mim, é o melhor museógrafo que existe neste país. Já tinha feito muitas exposições com ele. Essa foi a minha condição, não pus mais condições. Entretanto, a exposição passou só de pintura para tudo o que eu quisesse, todo o tipo de arte.

Daí ter vídeos e esculturas?

E fotografia. As coisas mais variadas. O Mariano é fantástico. A minha esperança é que - isto é um bocadinho um recado - se continue a fazer destas exposições na Fundação porque são muito precisas, até para mostrar ao país as qualidades da museografia. Hoje nas exposições de arte contemporânea as obras são um bocadinho postas ali...

Quando entrou para a Gulbenkian, ainda no Palácio Pombal, em Oeiras, depois para o novo edifício...

... entretanto tive a minha filha Catarina...

...a cineasta Catarina Mourão.

Ela nasceu em fevereiro de 1969. As minhas colegas foram para Lisboa na Páscoa e eu só regressei ao trabalho depois - na altura tínhamos só dois meses de licença de parto. Fizeram a mudança, transportaram as minhas coisinhas quando eu estava em casa.

Tinha-se a sensação de estar a começar qualquer coisa de muito importante?

Claro que sim, o Museu inaugurou só em outubro e no dia da abertura pedi para ficar no balcão da receção, gostei imenso de ver as pessoas a entrar.

Tinha-se consciência de que aquilo era tão importante como veio a revelar-se?

Completamente. Um edifício daquela categoria, maravilhoso, aqueles jardins, a própria coleção do senhor Gulbenkian, tudo era fantástico. Como é que tínhamos conseguido ter em Portugal uma coleção daquelas! O centro de Arte Moderna ainda era o Serviço das Artes que estava a comprar, ainda não existia o edifício.

Acho que todas as pessoas que frequentam a Gulbenkian conhecem a Rosa, porque é a nossa Geraldine Chaplin. Tem o rosto muito parecido com o dela.

Houve uma altura em que as pessoas me diziam isso.

Não foi atriz de cinema mas recentemente a sua filha Catarina fez um filme sobre a sua família. Chama-se A Toca do Lobo, que é o título de um dos livros do seu pai, Tomás de Figueiredo.

O mais conhecido, teve o Prémio Eça de Queirós.

Foi um escritor que ficou um pouco na penumbra, não é dos mais conhecidos atualmente, embora, como a Catarina sublinha, tenha o nome em muitas ruas pelo país fora.

Mas são ruas de terceira ordem.

É como se a Catarina fosse à procura da família. A Rosa é uma figura central do filme, é a mãe da realizadora, é a filha do escritor. O seu pai era para si uma figura enigmática. Continua a ser?

Ainda é um bocadinho, mas acho que me reconciliei um pouco.

Porque era um pai...

...completamente ausente. Ele esteve em casa até aos meus dois anos. Eu não me lembro de o meu pai viver lá em permanência. Aos dois anos uma pessoa ainda não tem bem a consciência.

E nunca lhe foi explicado por que é que ele ia embora?

Era sempre porque o trabalho dele era em Estarreja. Na minha época ele era notário em Estarreja. Passou por várias terras antes disso. Os meus irmãos viveram em Ponte da Barca na sua infância, fizeram a escola primária, e faziam-me uma inveja enorme - porque tinham um cão, porque tinham brincadeiras, imensas aventuras. E viviam com os dois pais, e eu só com a mãe e com a irmã. Com o meu irmão pouco vivi. Foi expulso da Escola de Belas Artes de Lisboa e foi mandado estudar para o Porto, e depois entrou para a clandestinidade. Estive anos e anos sem o ver.

Ele foi militante do Partido Comunista. O que sabia sobre a vida do seu irmão?

Não sabia nada.

Era outra ausência?

Os homens estavam sempre ausentes, eu vivia no meio de mulheres. Só sabia que ele estava metido em política, que era "do contra", e que era perseguido pela polícia. Até que um dia, tinha eu talvez doze ou treze anos, ele foi preso. Visitei-o na prisão. No Aljube não o visitei, visitei-o depois em Caxias e, durante muitos anos, em Peniche.

Como era essa sensação de ir ver um irmão quase desconhecido para si também e que estava preso?

Lembro-me muito bem porque quando me soltava havia sempre um guarda atrás de mim que dizia: "não pode dizer isso". Eram conversas descabeladas e sem sentido, porque quando se chegava a qualquer coisa um bocadinho mais profunda interrompiam-nos: "isso é interdito, isso e interdito". Lembro-me de que uma vez numa época festiva - Natal ou Páscoa - houve em Caxias uma visita em comum. Mas em Peniche nunca houve. Uma visita em comum era os presos todos numa sala com as famílias todas, e portanto não havia a mesma vigilância. Em Peniche havia sempre um vidro, uma espécie de um balcão, de um lado e outro, onde nos pendurávamos, andávamos com a cabeça de um lado para o outro para tentar evitar os reflexos do vidro, e com um homem em pé, todo armado e composto, sempre a querer intervir. Não se podia falar de um livro, de nada. E as coisas que eles não percebiam, às vezes, como não percebiam também não autorizavam.

Foi uma família em que havia imensas interrogações. Para si, eram interrogações ou eram coisas que tinha arrumado e não queria pensar nisso?

Mais ou menos, era obrigada a arrumar. Claro que me interrogava. Mas aceitava, era o meu status quo.

Tanto o seu pai como o seu irmão morreram sem ter tido tempo de lhes colocar essas interrogações?

Não, com o meu irmão ainda convivi bastante tempo. O meu irmão tem um filho, o Tiago Figueiredo, que fez um vídeo que está no facebook. Ele é músico e agora virou para o cinema e para a fotografia. Aliás, o filme da Catarina iria ter talvez uma sequência com uma junção do Tiago e da Catarina.

O filme da Catarina respondeu-lhe a perguntas que tinha, fez soltar algumas recordações que não sabia que lá estavam?

A Catarina ficou muito entusiasmada com a minha cena de regressão, porque eu não lhe tinha contado, achei que era daquelas coisas que a pessoa guarda para si. Mas de facto foi a primeira vez que um nó se desatou, nunca pensei que ao adormecer quem viria - quando a Flávia [Monsaraz] disse "desce a escadaria, chega a um átrio, e vem uma pessoa na sua direção. Quem é essa pessoa?" E eu, sem consciência, respondia. Só quando acordei soube que era o meu pai. "Dê-lhe um beijo". "Não consigo". "Então dê-lhe a mão". E eu dei-lhe a mão. Isso impressionou muito a Catarina, era uma cena muito boa para filmar.

Há outra situação curiosa no filme, quando reproduz um programa [de colecionismo] da RTP em que o seu pai participou e falou da coleção de saquinhas de cachimbo. É aliás o fio condutor da história. Ele é entrevistado e antes de existir a Catarina diz que gostava de que um dia uma eventual neta, talvez chamada Catarina, viesse a brincar com aquilo.

Quando eu nasci, o meu pai deu a escolher à minha mãe entre dois nomes - Catarina e Maria Rosa. E a minha mãe escolheu Maria Rosa. E eu fiquei sempre a ralhar com a minha mãe toda a vida porque queria ter sido Catarina, não gostava nada de Maria Rosa. Rosa naquela altura era nome de criada, e Catarina era uma coisa mais engraçada. Toda a vida eu disse que quando tivesse a primeira filha lhe chamava Catarina. Ver o meu pai a dizer aquilo que está gravado é que foi muito interessante.

As artes plásticas tornaram-se o centro da sua vida profissional. Foi fácil entrar nesse mundo, foi um fascínio?

Foi extremamente fácil, foi natural.

Descobriu que era o seu mundo?

Completamente, não me via a fazer outras coisas. Ainda fiz traduções em paralelo para comprar a minha casinha. Até fiz tradução simultânea.

Está reformada mas continua a ir todos os dias à Fundação?

Teoricamente, estou reformada desde 1 de janeiro de 2017, mas com todo este processo da exposição estou lá todos os dias. Agora estou a entrar pelas dez, estou um bocadinho mais preguiçosa. Muitas vezes saio de lá pelas sete ou oito.

Não se imagina a ficar em casa?

Muito dificilmente. Mas apetece-me ter um espaço livre. Toda a gente me pergunta o que vou fazer. Extraordinariamente, na última semana tive três convites.

E está a pensar neles?

Um deles era para um grupo e trabalho contra o tráfico ilícito de obras de arte, uma coisa ligada à Unesco e ao ICCROM (International Centre for th Study of the Preservation and Restoration of Cultural Property). Convidaram-me porque me conheciam mas queriam a Fundação Gulbenkian, portanto dirigi isso para a presidente, penso que é o Rui Vieira Nery que tem esse encargo. As outras coisas eram mais a nível pessoal, para o corpo editorial de uma revista e para júri de um prémio que é o "Nobel" da medalhística.

Aliás é uma das suas especialidades, tem obra publicada e é vice-presidente da FIDEM (Federação Internacional de Medalhística).

Sim, vou ao Canadá, onde este ano é o Congresso. Estou a fazer um porquinho porque até aqui a Fundação pagava-me a viagem, agora já não.

Não há nada como estar na perspetiva de parar para aparecerem mais coisas para fazer.

Espero que haja mais gente a ver a exposição, é o que mais me interessa neste momento, estou focada nisso. Toda a gente que visita a exposição gosta imenso mas há pouca gente a visitar.

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