Descobrir a China através de um melodrama

"Se as Montanhas se Afastam" condensa a visão de Jia Zhang-ke sobre conflitos de gerações e os enigmas que o futuro encerra

Bem sabemos que, da cena política ao desenvolvimento científico, a China se tornou um parceiro fundamental. Daí a pergunta básica: afinal, que sabemos dos chineses, nossos contemporâneos?

No campo do cinema, a pergunta pode ser tanto mais sugestiva quanto vários estudos e estatísticas publicados em tempos recentes indicam que, para além do seu poder na área da produção, alicerçado numa indústria de grande sofisticação tecnológica, a China está à beira de se tornar o maior mercado cinematográfico do mundo. Em tal contexto, a figura do cineasta Jia Zhang-ke emerge como alguém especialmente empenhado em observar, num misto de proximidade afetiva e exigência crítica, a história da China do último meio século - o seu filme mais recente, Se as Montanhas se Afastam (estreia hoje), é mais um esclarecedor exemplo da versatilidade do seu talento e também de uma arrojada visão do mundo.

Em boa verdade, entramos na teia do filme como quem redescobre as vibrações clássicas de um melodrama. Em cena está o vaivém emocional de Shen Tao, uma jovem da cidade de Fenyang, interpretada por essa excelente atriz que é Zaho Tao, presença regular nos filmes de Jia Zhang-ke (com quem casou em 2012). Cortejada por dois homens com diferentes estatutos sociais, um proprietário de uma estação de serviço (Zhang Yi) e um trabalhador de uma mina de carvão (Jing Dong Liang), vê-se compelida a um conjunto de decisões que vão determinar todo o seu futuro e, em particular, o crescimento do seu filho.

A aproximação de todas estas histórias cruzadas é feita através de um método a que apetece chamar romanesco, com o filme divido em três capítulos, identificados por outras tantas datas: 1999, 2014 e 2025. Quer isto dizer que Jia Zhang-ke vai respeitando os parâmetros de um realismo muito estrito, sem que isso o impeça de projetar o seu filme numa data "impossível", dez anos posterior à sua própria fabricação.

O futuro é já hoje

No Festival de Cannes de 2015, cuja seleção oficial acolheu Se as Montanhas se Afastam, o realizador explicou que os seus filmes partem sempre de paisagens e ambientes que ele gosta de ir registando com uma câmara. É a partir das respetivas imagens que vai elaborando as suas personagens e inventando as respetivas histórias, como quem pergunta se as montanhas podem, ou não, mudar de lugar e conferir novas significações a essas mesmas histórias. Numa declaração eivada de objetividade e poesia, Jia Zhang-ke sugeriu mesmo que uma tradução possível do título original do seu filme (Shan he Gu Ren) seria "Os velhos amigos são como a montanha e o rio".

Quando Se as Montanhas se Afastam chega ao seu capítulo de 2025, para mais em cenários australianos (os dois primeiros decorrem na China), dir-se-ia que experimentamos uma breve e desconcertante sugestão de ficção cientí-fica - afinal, para todos os efeitos, o filme parece propor um desenlace "futurista". Assim é, sem dúvida: trata-se de questionar como poderão evoluir as relações, afinal tão frágeis, entre as gerações. Seja como for, por calculado paradoxo, experimentamos também a sensação de que o tempo cristalizou. No fundo, aquele futuro é tão-só outra maneira de dizer as dúvidas, dores e perplexidades do presente.

Jia Zhang-ke pertence à chamada "6.ª Geração" do cinema chinês, sendo a "5.ª" (Zhang Yimou, Chen Kaige, etc.) a que, para além da sua subtileza histórica e crítica, colocou a China no mapa mundial do cinema. Há nele uma lógica de trabalho que, integrando sempre alguns sinais de natureza documental, não o impede de ser um brilhante e imaginativo contador de histórias. Os seus filmes constituem um reflexo de uma geração (atualmente entre os 40 e 50 anos) que recebeu a pesada herança da Revolução Cultural maoista, ao mesmo tempo que tem assistido ao vertiginoso e contraditório desenvolvimento das grandes metrópoles. Na sua filmografia encontramos, por exemplo, uma abordagem da sua cidade, Fenyang, nos tempos conturbados da Revolução Cultural (Plataforma, 2000), ou uma crónica profundamente desencantada sobre o crescimento urbano (24 City, 2008).

O mundo em miniatura

Provavelmente, o seu filme com uma carga simbólica mais forte, e também mais subtil, será O Mundo (2004), rodado no Beijing World Park, de Pequim. No seu centro está uma mulher (de novo Zhao Tao) que participa em performances num parque de diversões que se distingue por exibir requintadas miniaturas de muitos lugares e monumentos emblemáticos dos mais diversos países. É um lugar marcado por rotinas sem grandes perspetivas, especialmente concebido para atrair turistas; ao mesmo tempo, a coexistência de miniaturas de referências universais (Torre Eiffel, pirâmides do Egito, etc.) transforma aquele "mundo" numa espécie de sonho acordado em que, de forma mais ou menos consciente, todos formulam a hipótese de uma existência alternativa.

Agora, Se as Montanhas se Afastam acaba por funcionar como um capítulo mais desse esforço, de uma só vez emocional e intelectual, para descortinar nos conflitos das gerações algo que harmonize o presente ou, pelo menos, salve o futuro. Nesta perspetiva, é um filme que possui essa capacidade sempre fascinante de ser universal (e universalmente compreensível) a partir dos sinais muito particulares de um país e uma dinâmica cultural muito distante da nossa sensibilidade ocidental. Jia Zhang-ke é alguém que reconhece os efeitos da globali-zação, mas nunca banalizando a imensa paisagem das infinitas diferenças humanas.

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