De Nick Cave a Sting, 2016 ainda nos vai dar muita música

Disco de Nick Cave assinala rentrée de um ano que ainda nos vai dar novos álbuns de Sting, Kings of Leon e António Zambujo

A reentrada do ano fez-se nesta sexta-feira sob o signo dramático do novo álbum de Nick Cave and the Bad Seeds, Skeleton Tree, marcado pela morte do filho do cantor, Arthur, mas que não é tão explícito quanto o documentário do amigo pessoal Andrew Dominik, One More Time with Feeling. Poderia estabelecer-se um elo de ligação com o álbum antecessor Push the Sky Away pela estética transformadora das canções, próximas das baladas, mas o acontecimento fatal faz de Skeleton Tree outra obra à parte e ainda mais imprevisível.

Se nestes dias passamos também a contar com o novo álbum da rapper M.I.A., AIM, a próxima semana reserva-nos discos fresquinhos de Usher, Hard II Love, do brasileiro Martinho da Vila, De Bem com a Vida, da cantora de raízes americanas Madeleine Peyroux, Secular Hymns, da dupla de eletrónica AlunaGeorge, I Remember, e ainda o segundo longo das indie rockers norte-americanas Deap Vally, Femejism.

A amostra do single New Song deixa a promessa da aproximação das indies Warpaint ao formato mais radiofónico no próximo álbum Heads Up. O disco sai ainda neste mês, tal como o segundo álbum da segunda vida dos Pixies, Head Carrier.

Mas em setembro vai haver mais novidades discográficas, com os álbuns de Randy Newman, The Randy Newman Songbook Vol. 3, de Van Morrison, Keep Me Singing, de Shawn Mendes, Illuminate, dos Bon Iver, 22, A Million, e da pianista Regina Spector, Remember Us to Life. Outro acontecimento curioso, a gerar expectativas para o final deste mês, é o disco do supergrupo Giraffe Tongue Orchestra, de ex-membros dos Mastodon, Alice in Chains ou dos Mars Volta, Broken Lines.

Dois anos e meio depois do premiado álbum folk Morning Phase, Beck vai voltar em outubro com um álbum, ainda sem título anunciado, mas que se adivinha ser o regresso do músico californiano ao formato eletrónico, segundo prenuncia a nova canção Wow. Duas estrelas que costumam pescar no jazz de formas diferentes vão poder partilhar com o público novos discos: Norah Jones por intermédio de Day Breaks (com selo da Blue Note), e Michael Bublé, com Nobody But Me (mais virado para os standards pop).

Não faltará rock para vários gostos em outubro, mas todo ele bem enquadrado nos parâmetros mainstream. Os hardrockers Bon Jovi vão tentar assinar novo manifesto de sobrevivência sem o guitarrista Richie Sambora em This House Is not for Sale, enquanto os Korn testam a validade do nu-metal em The Serenity of Suffering. Ao modo mais britânico, os outrora irrequietos Kaiser Chiefs vão querer amadurecer mais em Stay Together. Ao estilo mais americano, os Kings of Leon, através de Walls, e os mais disfarçados de punks Green Day e Sum 41, respetivamente escudados por Revolution Radio e 13 Voices, vão assinar também presença nas secções de novidades das várias plataformas de vendas. Já Chrissie Hynde desistiu da ideia de um álbum a solo e resolveu dar nova vida aos Pretenders através de Alone.

Em novembro, Sting vai lançar 57th & 9th, o álbum que marca o regresso do ex-Police ao pop-rock 13 anos depois, após várias experiências com a música erudita e a folk. Outro regresso que vai matar muitas saudades, igualmente marcado para o mês n.º 11, é o dos metaleiros Metallica, através de Hardwired... To Self-Destruct, que fecha um interregno de oito anos.

Na música mais marginal ao grande público, vai haver várias tentações no penúltimo mês do ano. No segmento indie, se o facto de Howe Gelb (o senhor dos Giant Sand) se meter com o jazz em Future Standards não é assim tão surpreendente, o mesmo não se pode dizer dos country rockers Lambchop, que mergulham a fundo na eletrónica em FLOTUS. A diva da folk britânica Shirley Collins, que se distinguiu pela dupla que formou com a irmã falecida Dolly, tem ainda uma palavra a dizer (ou a cantar) aos 81 anos: o álbum chama-se Lodestar.

Música nacional

Há muito familiarizado com a música brasileira, António Zambujo vai lançar em outubro um álbum de homenagem a Chico Buarque, com uma série de versões. Também a olhar para o Brasil está a fadista Carminho, que ultima o álbum de versões de Tom Jobim, com convidados especiais como Marisa Monte, Maria Bethânia e o já mencionado Chico Buarque. Mas ainda não se sabe quando sai o novo disco de Carminho.

Num fado cada vez mais híbrido, Cristina Branco lança na próxima sexta-feira Menina. Fadista mais jovem e uma das esperanças do género nacional, Fábia Rebordão lança no dia 30 Eu, no mesmo dia em que chega também às lojas o álbum de junção de forças entre Rodrigo Leão e o cantor inglês Scott Matthew em Life Is Long.

Em outubro, são editados os novos álbuns de Rita Redshoes, a ser produzido pelo australiano Victor Van Vugt, que já trabalhou com Nick Cave e PJ Harvey, e dos You Can"t Win, Charlie Brown (de título Marrow).

Para novembro esperam-se discos de Luísa Sobral e Mickael Carreira. Também no final deste ano sai o segundo álbum dos Osso Vaidoso, formados pela vocalista Ana Deus e pelo instrumentista Alexandre Soares (ambos vindos dos Três Tristes Tigres).

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