De Ferreira de Castro a Manoel de Oliveira. As memórias de Mário Cláudio no DN

O escritor percorre as suas memórias e traça retratos de figuras das artes com quem ao longo do tempo se cruzou. Assina a rubrica Alma Vagueante a partir de amanhã, às sextas-feiras.

"Estou numa idade em que tenho memórias. Todos nós temos memória, mas há uma idade a partir da qual temos memórias" conta Mário Cláudio, escritor cuja obra conta ficção, poesia, biografia, teatro ou ensaio. Nasceu no Porto em 1941.

Ao longo dos anos - em que à atividade de escritor juntou a de professor universitário ou a direção de bibliotecas - cruzou-se brevemente ou travou amizade próxima com figuras já desaparecidas das artes portuguesas como Ferreira de Castro, Natália Correia, Sophia de Mello Breyner, Mário Viegas, Eugénio de Andrade, Vasco Graça Moura ou Manoel de Oliveira.

O autor deixa, a partir de sexta-feira, "o registo de alguns encontros com essas figuras, antes que fossem abandonados pelo tempo" numa rubrica a que chamou Alma Vagueante. O nome da página do DN em que a partir de agora todos os sábados deixa um episódio das suas memórias vem do - provavelmente mais conhecido - verso do imperador Adriano: Animula vagula blandula.

Se há uma adaptação da mão de escritor ao jornal, ela não é nova para Mário Cláudio, que ao longo dos anos colaborou com publicações portuguesas como o Expresso ou o Jornal de Notícias.

O autor que recentemente recebeu o Grande Prémio de Romance e Novela da APE com a novela Retrato de Rapaz - acrescendo ao Grande Prémio de Romance APE (1984) ou ao Prémio Pessoa em 2004 - afirma que "a publicação em jornal permite ir tomando pulso em termos de reações àquilo que eu vou publicando e nessa base administrar a escolha das figuras que retrato."

Entre essas figuras contar-se-ão a de José Régio, com quem uma vez Mário Cláudio terá travado um "diálogo muito pitoresco e algo sobressaltado". Eugénio de Andrade ou David Mourão Ferreira, por sua vez, "amigos de grande proximidade", obrigarão a uma "escolha" por entre as memórias, tantos são os episódios que deles guarda. Assim como Virgílio Ferreira, alguém que o "motivou muito" e nele "reparou ao início".

A par destes mais próximos, conta o autor ao DN, "há figuras que não conheci muito bem, mas o facto de ter lidado com elas algum tempo é bastante para que eu fique com elementos suficientes se não para fazer um retrato para fazer um croquis de um retrato."

É sobretudo do retrato que se trata, explica. "Não queria que estes textos funcionassem como uma espécie de edificação de bustos. Eu queria um retrato com luz e sombras. Essas figuras são todas humanas."

Daí, uma vez mais, Alma Vagueante. "Já fica aqui também definido o carácter de efemeridade que é a vida humana. Os que estão nesta lista amanhã serão substituídos por muitos que provavelmente se julgarão imortais, fisicamente imortais. E o que é importante é que eles fiquem mais ou menos imortais nas letras." O primeiro da lista é o escritor Ferreira de Castro.

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