"Cuspiram para os quadros de Amadeo, deram-lhe pancada." E ele vai voltar

A exposição de Amadeo de Souza Cardoso de 1916 será recriada a partir de 1 de novembro no Museu Nacional de Soares dos Reis, no Porto, antes de seguir para o Museu do Chiado, em Lisboa

Se em 1916 houve quem cuspisse nos quadros de Amadeo de Souza Cardoso, a exposição no Porto também serviu para estimular o debate, segundo as comissárias da mostra a ser recriada no Museu Nacional de Soares dos Reis.

Em declarações à Lusa, a historiadora de arte e comissária da exposição Raquel Henriques da Silva lembrou que "aquilo que se diz desta exposição é sempre um aspeto anedótico mais castiço, que as pessoas não perceberam nada, que foi um escândalo, que lhe cuspiram para os quadros, que lhe deram pancada", mas há que acrescentar que a exposição de 1916, no Jardim Passos Manuel, no Porto, e na Liga Naval Portuguesa, em Lisboa, levou a um debate sobre o que era arte contemporânea.

Amadeo de Souza Cardoso - que teve nessa "exposição itinerante", como a define a também comissária Marta Soares, a única mostra individual em vida - foi "um gestor cultural como hoje [se diria]", considera Henriques da Silva, para quem "ele fez um trabalho pedagógico de mostrar a exposição a toda a gente, de explicar 'n' vezes, de situar a posição dele e houve um debate concreto".

Marta Soares sublinhou que Amadeo, para além de ter comissariado a sua própria exposição, divulgou-a: "Amadeo até então costuma ser uma figura discreta. De repente, está praticamente todos os dias nas exposições, acompanha os visitantes, os jornalistas e concede duas entrevistas. Ganha uma visibilidade nestas exposições que até então não tinha".

Raquel Henriques da Silva recordou que, um ano antes, face à publicação da Orpheu, houve apelos para que os autores da revista fossem internados, algo que se assemelha à reação à exposição de Amadeo e que não se volta a repetir.

Por seu lado, a diretora do Museu Nacional de Soares dos Reis, Maria João Vasconcelos, lembrou que a de 1916 foi "uma exposição que rompeu com muita coisa" e frisou que Amadeo "é um homem cuja obra tem uma capacidade de ser vista no conjunto da obra europeia, que é uma dimensão que não tem grande parte dos artistas [portugueses]".

A comissária da exposição que vai ser inaugurada a 1 de novembro no Museu Nacional de Soares dos Reis, no Porto, antes de seguir para o Museu do Chiado, em Lisboa, realçou que o facto de Amadeo ter escolhido o Jardim Passos Manuel (onde hoje se encontra o Coliseu do Porto) fez com que quem fosse ver cinema ou participar em chás-dançantes naquele local se deparasse com as obras de Amadeo, o que levou a que o número de 30 mil visitantes tivesse sido mencionado pelo artista a dada altura.

Se no Porto a imprensa da época reagiu de forma negativa e os conhecidos de Amadeo na região não se manifestaram (algo que faz com que Raquel Henriques da Silva estranhe "o silêncio dessa gente toda"), em Lisboa Amadeo de Souza-Cardoso "consegue ter o que não teve no Porto: os parceiros do lado dele".

"No Porto não há um igual que fale da exposição, são sempre jornalistas, mas quando chega a Lisboa tem uma receção apoteótica graças ao Almada Negreiros", explicou Henriques da Silva, lembrando o manifesto que Almada distribuiu pelos cafés da cidade, no qual se podia ler que "a Descoberta do Caminho Marítimo p'rá Índia é menos importante do que a Exposição de Amadeo de Souza Cardoso na Liga Naval de Lisboa".

Apesar do entusiasmo de Almada Negreiros e do grupo da Orpheu, Amadeo só conseguiu vender uma peça em Lisboa, depois de não ter vendido nenhuma no Porto.

Das 114 peças expostas no Porto há 100 anos, vão estar mais de 80 das obras identificadas a partir dos catálogos originais, para a exposição que fica na cidade até 01 de janeiro de 2017 antes de abrir, em Lisboa, a 12 desse mês.

Maria João Vasconcelos anunciou ainda que vão ser definidas uma série de atividades que liguem o Coliseu do Porto ao Soares dos Reis, incluindo um cortejo de carros da época.

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