Criar um espetáculo entre Santarém e Londres

The Old Image of Being Loved será apresentado no dia 22 no Sprint Festival, em Inglaterra.

O que é que nós poderíamos fazer para tornar este momento memorável?" O ator está sentado de frente para a plateia, muito perto dos espetadores, olhando-os nos olhos. "Memorável?" Ao princípio ninguém diz nada, mas basta alguém lançar uma ideia para logo as outras pessoas começarem também a dar a sua opinião. Se nos caísse o teto em cima. Se ficássemos presos no teatro. Se estivéssemos todos nus. Poderia ser uma conversa entre amigos. Quase nos esquecemos que estamos no Teatro Sá da Bandeira, em Santarém, a assistir a um ensaio do espetáculo The Old Image of Being Loved. E esse é precisamente o objetivo de Ana Gil, Nuno Leão e Óscar Silva, os três criadores deste projeto.
Tudo começou com a investigação de Óscar Silva que está a terminar o mestrado em Performance Design and Practice na Universidade Central St. Martins, em Londres. "A minha pesquisa é sobre a participação dos espetadores em espetáculos de teatro e como é que o público pode co-criar o espetáculo", explica. "Quem é o público, o que é que ele está aqui a fazer, porque fazemos isto para vocês e vocês ficam calados a ouvir, que levam à velha questão: o que é o teatro, afinal?"
Velhas questões mas que continuam a fazer sentido. Na tentativa de levar mais além a sua pesquisa, Óscar Silva respondeu a um "open call" do Camden"s People Theatre que andava à procura de projetos para ali serem co-produzidos. "Infelizmente não ganhei, mas o diretor do teatro mostrou-se interessado e disse-me que se eu conseguisse produzir o espetáculo ele poderia pensar em apresentá-lo."
E assim aconteceu. Óscar lembrou-se imediatamente de falar com os amigos da Terceira Pessoa, uma estrutura de produção sediada em Castelo Branco, e pôs de pé o seu espetáculo que, depois de uma ante-estreia, hoje, em Santarém, vai ser apresentado em Londres, no próximo dia 22, integrado no Sprint Festival, dedicado a espetáculos inovadores.
Este é um trio improvável: Óscar Silva, 27 anos, vem do Pinhal Novo, Ana Gil, de 29 anos, nasceu em Vila Nova de Famalicão, Nuno Leão, 32 anos, é de Castelo Branco. Encontraram-se todos na Escola Superior de Teatro e Cinema, em Lisboa, e depois foi cada um à sua vida. Óscar começou por ir para o Brasil e foi em São Paulo que iniciou a carreira. "Mas ao fim de quatro anos já tinha saudades da Europa", diz. E queria estudar em Londres.
Enquanto Óscar fazia o seu percurso em grandes metrópoles, Nuno e Ana deixavam Lisboa para se fixarem em Castelo Branco. "Primeiro, em 2012, fomos só fazer um projeto com os jovens, Kurt Cobain, mas a adesão foi enorme, as pessoas tinham muita vontade de participar. Sentimos que podíamos trabalhar ali e criámos a Terceira Pessoa", explica Nuno Leão. "Na nossa segunda produção já tínhamos 70 pessoas em palco connosco." Assim se vê que em Londres ou em Castelo Branco os artistas têm as mesmas preocupações.
Neste novo espetáculo, tentam ir ainda mais longe, diz Nuno Leão: "A utopia é que o espetador se aproxime de tal forma deste universo que ele próprio o continue a criar sem precisar da mediação dos atores, que não haja diferença entre o artista e o espectador." E fazer isso em inglês, com o público britânico, como será? Nenhum deles parece nervoso. "Depois da estreia aqui vamos ter 10 dias só para passarmos o espetáculo para inglês. Mas isso não nos assusta. É um espetáculo muito comunicativo, mas não depende da gramática", diz Óscar. Só precisam de espetadores dispostos a entrar no jogo.

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