Concurso Yé-yé de 1965 visou combater delinquência juvenil

Entre o Movimento Nacional Feminino que queria uma juventude "alegre mas não irreverente" e as críticas do cantor José Afonso, os jovens do Yé-yé com rebeldia musical acabam por sobreviver, apesar do esquecimento.

Para o investigador Marcos Cardão, o concurso Yé-yé de 1966-67, organizado pelo Movimento Nacional Feminino (MNF) e que incluiu dezenas de bandas das então colónias e da metrópole, foi o "maior concurso de ritmos" realizado em Portugal e visou proteger a juventude, porque, segundo a organização, a delinquência juvenil descia quando os jovens se "entregavam às guitarras".

"Tendo como pano de fundo o contexto do colonialismo português tardio, em particular a guerra colonial, o concurso desenrolou-se por eliminatórias em várias cidades coloniais, permitindo medir o pulso aos consumos e lazeres urbanos no quotidiano colonial", escreve Cardão na pesquisa sobre o Ye-yé.

Em abril de 1965, o cantor José Afonso atacava os jovens "decadentes" nas páginas da revista Plateia, num texto em que escreve claramente que a música Yé-yé era um "abastardamento" das formas musicais modernas e que de nenhuma forma representava a época que se vivia.

José Afonso escreve que o Yé-yé representa a expressão de um processo de decadência de uma sociedade e que "o tipo que vai espernear para o Yé-yé" está, em absoluto, destituído de valores intelectuais, estando irremediavelmente impossibilitado de apreciar algumas das outras manifestações musicais como o jazz.

"Todo o indivíduo incapaz de criar, segue a primeira moda que lhe aparece, contando que essa moda lhe seja espetacular", escreve também o autor de "Grândola, Vila Morena" sobre o Yé-yé.

Para o investigador Marcos Cardão, adotando uma posição de pessimismo intelectual face ao fenómeno Yé-yé, José Afonso criticava a função "alienante e o mimetismo pueril" dos conjuntos Yé-yé, que se limitavam a adaptar temas norte-americanos e ingleses, e também a inexistência de um posicionamento político explícito por parte dos jovens Yé-yé.

"José Afonso criticava ainda a ousadia visual e corporal dos jovens, aparentemente reféns dos mecanismos da cultura de massas que padronizavam os seus gostos e lhes retirava autonomia e capacidade de criação", disse à Lusa Marcos Cardão, autor do estudo "'A juventude pode ser alegre sem ser irreverente' -- O concurso Yé-yé de 1966-67 e o luso-tropicalismo banal", publicado no livro "Cidade e Império -- Dinâmicas Coloniais e Reconfigurações Pós-Coloniais".

O "rock and roll" do mundo anglo-saxónico também existiu em Portugal, em Espanha e em outros países verificando-se a importação dos referentes urbanos e modernos. A nomenclatura Yé-yé -- foi assim que foi renomeado o rock em Portugal nos anos 1960- está mais relacionado com a origem francesa -- tendo o Yé-yé de França sido importado com o mesmo nome para Itália e Espanha e para o Brasil, onde se chama Yé-yé-yé.

"Essa juventude usava novas poses, novos estilos de vida, que não coincidia com aquela imagem que o Estado Novo reproduzia da juventude pacata, ordeira e principalmente aquela imagem rural e estática da juventude que vem das décadas de 1930 e 1940", explica Marcos Cardão.

Segundo o estudo, esta ousadia e irreverência "transformava transformando" e só por reivindicar a ousadia, a festa e o princípio do prazer na década de 1960 é uma evolução suficientemente ampla para se poder falar de uma "situação singular" longe do mundo católico, da força do Estado e do caráter opressor da ditadura.

Registam-se avanços e marcas de originalidade do ponto de vista musical apesar de o canto de intervenção vir a ganhar uma preponderância sobretudo no final da década de 1960, até mesmo no Festival da Canção.

"É interessante, o vocalista dos 'Rocks' (Eduardo Nascimento) está em dois mundos: esteve nos 'Rocks' e vai estar no Festival da Canção naquilo que se pressupõe no que pode ser uma mudança nas músicas", resume Marcos Cardão.

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