Competição e espetáculo: o outro lado da kizomba

Dança. A 9.ª edição do concurso ÁfricAdançar termina hoje no Casino Estoril com um novo par campeão entre 23 países representados. A primeira eliminatória foi na sexta à noite

Por gosto todos o fazem, mas qualquer semelhança entre uma noite na pista de dança e o concurso de kizomba é coincidência. Dois pares de Espanha, dois de França e quatro pares da Tunísia, Polónia, Canadá e Portugal jogaram a sua última oportunidade na discoteca Barrio Latino, em Lisboa, na sexta-feira à noite, em busca de um lugar na final de hoje, no Casino Estoril, da 9ª edição do ÁfricAdançar.

"Kizomba de palco é show, a kizomba do social é diferente", afirma Zé Barbosa ao DN, minutos antes de sentar no seu lugar no palco, com uma folha e uma caneta, preparado para avaliar os oito pares que estão em competição. Apresentam-no assim, sem mais, e é ele quem desfia o currículo que faz dele um dos nomes mais conhecidos entre os praticantes de kizomba. Tem 43 anos, há 20 que se dedica a divulgar este género. Chegou para a Expo 98 vindo de Cabo Verde, onde fazia teatro e organizava um festival cultural. Convidaram-no para ensinar kizomba. Porto, Aveiro, Figueira da Foz, Coimbra... "Conhecia todos os motoristas de expresso", diz, sorridente. É do tempo em que ninguém chamava kizomba à kizomba, era passada. De Portugal para o mundo, exportando o bê-a-bâ desta dança - "tarrachinha" e "ginga". Esteve m Bucareste no último fim de semana, dentro de 15 dias vai à Rússia, quer ir ao Japão. "A partir do momento em que há um campeão, há um professor".

Uma mulher alta e loura cumprimenta-o. "É a maior impulsionadora de kizomba em Espanha, e vem da Ucrânia", como quem faz prova do que diz.

São 23 os países representados no concurso. Na sexta-feira competiram os segundos e terceiros classificados de cada país, e aqueles que não têm competição nos seus países.

Há um prémio de 3 mil euros em jogo, mas ninguém fala dele. Vêm, dizem, para aprender mais nos workshops que se realizaram ontem e anteontem, com os gurus da modalidade - Filipa Castanhas, Paulo Cruz e Lanna...

"Aprende-se sempre mais qualquer coisa", diz Romarey, espanhola da Gran Canária. Ela e o namorado, Echedey, souberam, já passava das 02.00 da manhã que tinham lugar na semifinal de sábado. Os compatriotas, primeiros a subir ao palco, dançaram o popular Vamos Ficar por Aqui, de C4Pedro, e tomaram o título da canção à letra. Tão-pouco houve espaço para os tunisinos. Susana e André, segundos classificados no concurso nacional competem esta noite. São os mais aplaudidos.

"Isto é kizomba show, é uma kizomba de fusão. Há tango/kizomba, samba/kizomba, hip hop kizomba", diz Zé Barbosa. Insiste na diferença entre o que dançam os pares na pista e o que competem em palco. Os primeiros usam o sentimento, os segundos procuram o espetáculo. Mas espetáculo sem sentimento não resulta, garante outro jurado, Sérgio Banderas, campeão de 2009. "É preciso dançar muito no social. Há pares que se nota que não têm essa experiência."

É um "defeito" que Jason Ng, canadiano, reconhece. "Venho das danças de salão, onde se dança assim [endireita-se e mantém-se hirto], na kizomba é assim [enrola-se sobre si próprio]. Estou a trabalhar", ri-se, ao lado de Julie, uma gestora de contas da rede social LinkdIn, tão apaixonada por kizomba que já tinha estado em Portugal para frequentar uma formação intensiva em Gaia.

Os pares ensaiam na pista: maquilhagem forte, pouca roupa, vestidos de dança com padrões de capulana lembrando a origem da kizomba (festa, em Angola). Misturam-se com quem vem dançar por sua conta e risco. Como Frida, representante de Moçambique, que, dá aulas na África do Sul, que está pronta para treinar um pouco mais. Abre a mala e tira os sapatos de dança. Que o show comece.

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