"Com os Ferro Gaita, não é o Rock in Rio, é o Rock Funaná"

Oriundos de Cabo Verde, os Ferro Gaita foram os cabeça de cartaz deste domingo do palco EDP Rock Street África, no Rock in Rio. Puseram toda a gente a cantar, a dançar, a pular, a gritar. Fez-se a festa. A tarde foi de funaná

Patrícia Francisco passou por acaso no palco EDP Rock Street África do Rock in Rio. "Viemos para aqui porque estava sombra", confessa ao DN, rindo. A brasileira, de 40 anos, veio ver Bruno Mars, a filha de 17 anos a Demi Lovato e o filho de sete a Anitta. Mas como todos esses só iriam tocar mais tarde, decidiram ficar por ali, pois a música africana já lhe é familiar, sobretudo a kizomba, que aprendeu a dançar numa escola e nas festas sociais. Mas hoje o dia era de Cabo Verde. Funaná sobretudo. Trazido pelos cabeça de cartaz Ferro Gaita. A esteticista, oriunda de São Paulo, não conhece mas diz que vai ficar à espera para ver a banda cabo-verdiana fundada em 1996.

Vânia Brito conhece. E muito bem. Ela é portuguesa, mas os pais cabo-verdianos, de Santiago. "Gosto de kizomba, mas claro que prefiro funaná, funaná definido numa só palavra é sinónimo de alegria", diz ao DN a assistente de recursos humanos, de 27 anos. Está num grupo de cinco amigos, frente ao palco, uns conhecem Ferro Gaita, outros não. Vêm conhecer. Enquanto esperam por Bruno Mars num domingo de Rock in Rio esgotado. "É a primeira vez que venho a este festival. Juntei o útil ao agradável. Vim ver Bruno Mars. E também Ferro Gaita. Acho bem este palco dedicado a África, pois permite divulgar a outros públicos a música de bandas africanas diferentes".

E se para ela funaná é alegria, para Carlos Lopes (Bino Branco), um dos dois vocalistas dos Ferro Gaita, funaná é vida. "Para haver alegria é preciso haver primeiro vida. E funaná é vida. É isso", afirma ao DN no backstage, antes de entrar em palco. Na altura, esse está ocupado pelo hip hop crioulo de Karlon, rapper português com origens cabo-verdianas cujas músicas têm mensagens fortíssimas destinadas a fazer pensar e reagir.

"Os públicos que nunca ouviram Ferro Gaita ao vivo hoje têm aqui o seu batismo", diz o músico, que toca o ferro. A gaita é tocada pelo outro vocalista da banda, Estevão Tavares (Iduíno), o qual tem também um projeto a solo. Claro que na atuação, em seguida, no palco EDP Rock Street Africa do Rock in Rio não faltam outros instrumentos, como a enigmática bomboca (búzio com mais de uma centena de anos), de sopro, mas são o ferro e a gaita que, afinal, dão o nome à banda e Bino Branco e Iduíno.

"Hoje, com os Ferro Gaita, não é o Rock in Rio, é o Rock Funaná", atreve-se a dizer Bino, quando questionado sobre a oportunidade de ter um palco inteiramente dedicado ao continente africano num festival predominantemente de rock e pop. E, assim que se ouvem os primeiros acordes da gaita, a multidão, com muitas pessoas de origem cabo-verdiana a marcar presença, põe-se em sentido para dançar, cantar, pular.

Moças di Mangui, Caminho Longi, É si propi, Fidjus Pelada e Mapu Mapu foram algumas das músicas tocadas pelos Ferro Gaita. À frente do palco, um grupo de amigas cabo-verdianas dança a preceito, uma exibe um pano onde se lê Cabo Verde, outras filmam e tiram selfies. "Viva Cabo Verde, viva África, viva Portugal", grita Iduíno, enquanto o público repete as suas palavras. E aplaude. Ninguém fica parado. Nem de pés. Nem de anca. É que como diz Bino Branco, na conversa com o DN, "as músicas de África são muito fortes". Isso não há como negar.

O Rock in Rio, no parque da Bela Vista, em Lisboa, continua nos próximos dias 29 e 30 e no palco EDP Rock Street África passarão, nesses dias, músicos e bandas como Moh! Kouyaté, Nástio Mosquito e DZZZ Band, A'Mosi Just a Lebel, Selma Uamusse, Batuk e Paulo Flores.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

Isabel Moreira ou Churchill

Numa das muitas histórias que lhe são atribuídas, sem serem necessariamente verdadeiras, em resposta a um jovem deputado que, apontando para a bancada dos Trabalhistas, perguntou se era ali que se sentavam os seus inimigos, Churchill teria dito que não: "Ali sentam-se os nossos adversários, os nossos inimigos sentam-se aqui (do mesmo lado)." Verdadeira ou não, a história tem uma piada e duas lições. Depois de ler o que publicou no Expresso na semana passada, é evidente que a deputada Isabel Moreira não se teria rido de uma, nem percebido as outras duas.