Coleção revela mestres da arte cristã em Portugal

"Pero. O Mestre das Imagens" é o primeiro título da coleção que dá a conhecer os artistas e o contributo que trouxeram à produção do imaginário devocional em Portugal.

Dizer que este primeiro livro é dedicado a Mestre Pero pouco ou nada dirá à maioria dos portugueses. Mas se dissermos que é o escultor do túmulo da Rainha Santa (Convento de Santa Clara, em Coimbra) e dos Apóstolos no portal da Sé de Évora isso já mostra um pouco da sua importância. E se a isso juntarmos que foi este artista quem trouxe para Portugal o modelo da Virgem do Ó (representada grávida, com a mão sobre o ventre) percebemos ainda melhor a sua influência na arte medieval portuguesa.

É precisamente esse o protagonista do primeiro título da coleção Mestres da Arte Cristã, Pero. O Mestre das Imagens, lançado na última sexta-feira no Museu Nacional de Arte Antiga. em Lisboa. "Um projeto já com alguns anos que só agora começou a ser concretizado", contextualiza Sandra Costa Saldanha, diretora do Secretariado Nacional para os Bens Culturais da Igreja, entidade responsável pela coleção em parceria com a editora Imprimatur.

O facto de este ano se assinalar o Ano Europeu do Património Cultural "é apenas uma feliz coincidência", assegura Sandra Costa Saldanha, adiantando o objetivo da coleção: "analisar e fazer sair dos circuitos académicos mais fechados toda uma produção de conhecimento muito interessante à volta de uma série de artistas cuja produção foi sobretudo vocacionada à produção de arte cristã". "Interessa-nos não só conhecer melhor estes artistas mas também compreender o alcance das suas obras e o contributo que trouxeram à produção da imagética devocional em Portugal", acrescenta.

O total de volumes da coleção ainda não está fechado e a sua publicação não obedecerá a uma ordem cronológica, apesar de começar com este artista que trabalhou durante a primeira metade do século XIV. "Os volumes vão saindo à medida que forem estando prontos. Neste momento já estão a ser produzidos vários, muito em breve será publicado um consagrado ao pintor barroco Marcos da Cruz, ao escultor Claude Laprade, ao escultor Barros Laborão, mas também serão considerados arquitetos e outros artistas com cronologias muito vastas que vão desde a Idade Média, como é o caso deste primeiro, até à contemporaneidade. Dando assim a conhecer uma fatia muito relevante e ampla do património cultural português".

Por outro lado, explica ainda a responsável, "recorrendo a vários especialistas temos a possibilidade de oferecer aos leitores um tipo de conteúdos bastante atualizado".

No caso do título inaugural, "é um trabalho de muitos anos de Carla Varela Fernandes que agora se materializa numa versão de livro disponível a um público alargado".

Uma paixão com mais de 20 anos

A investigadora e historiadora de arte confirma: "É uma paixão com mais de 20 anos. Comecei a interessar-me por imaginário medieval para o mestrado, que defendi em 1998. Foi aí que contactei com este mestre, e outros, mas este é o amor dos meus olhos".

E após mais de duas décadas de investigação, Carla Varela Fernandes condensa neste livro o que é conhecido do artista, em termos documentais e da sua obra, e avança com hipóteses relativamente ao itinerário que terá percorrido bem como possíveis obras em que terá trabalhado, para além das já consensualmente aceites no meio académico.

O seu local de origem bem como data de nascimento e morte são questões que continuam em aberto. Bonneuil-sur-Marne (a cerca de 16 quilómetros de Paris) ou a Catalunha continuam a ser duas possibilidades fortes quanto ao local de nascimento e terá vivido entre 1300 e 1350. "Aqui não é possível ir mais longe, não há documentos que comprovem", explica.

Apesar dessas incógnitas, um dos riscos que Carla Varela Fernandes assume correr neste livro é traçar uma hipótese para o seu percurso artístico tendo como ponto de partida precisamente Bonneuil-sur-Marne, passando depois pelo reino de Aragão, atual Catalunha, passando por Morella (perto de Valência) terminando no local onde se sabe que residiu, Coimbra.

Em conversa com o DN, a investigadora explica que "existem apenas dois documentos em que Mestre Pero aparece referenciado em Portugal, e são relativos a dois túmulos: de D. Gonçalo Pereira, arcebispo de Braga [que se pode ver na Sé de Braga] e de D. Vataça de Lascaris, aia da Rainha Santa Isabel [que pode ser visto na Sé Velha de Coimbra]".

Antes de chegar a Portugal, é certo que Mestre Pero trabalhou na Catalunha, no monumento funerário do casal régio Jaime II de Aragão e Branca de Anjou, no Real Mosteiro de Santes Creus, em Tarragona. "Pere de Boneil [como é referido na documentação conhecida do antigo reino de Aragão], se é francês, e pode muito bem ser porque todo este figurino é muito em linha com a escultura francesa desta época, vem trabalhar para Aragão, um reino com grande pujança e com grandes clientes como é o caso do pai e do irmão da Rainha Santa Isabel". E contextualiza: "Nesta época, os artistas vão para onde há trabalho e para onde lhes pagam muito bem. São itinerantes por natureza e por vezes fixam-se, como é o caso deste que se fixou depois em Coimbra".

Sendo a obra do Real Mosteiro de Santes Creus de cerca de 1313-1316, altura em que Isabel de Aragão, irmã e D. Jaime II, já se encontrava em Portugal para onde veio em 1282 para se casar com D. Dinis, não terá sido vista pela Rainha Santa. "Mas tinham uma relação muito estreita, mesmo depois de ela ter vindo para Portugal para casar com D. Dinis, que atestada pelas muitas cartas que trocaram".

Por isso afirma convicta: "Mestre Pero vem para Portugal por vontade de uma rainha, D. Isabel. Acho que veio para Portugal para fazer o túmulo da Infanta [Isabel, neta da rainha], que morre antes da Rainha Santa. Faltam-nos documentos escritos, têm de ser as obras a dar-nos informações que tentamos explorar ao máximo possível, mas por vezes não é possível ir mais longe. Por isso fazemos comparações e correlações e deixamos a hipótese", afirma Carla Varela Fernandes.

Uma lufada de ar fresco

Mas por que razão D. Isabel terá elegido um artista estrangeiro para fazer o seu túmulo? "A Rainha Santa Isabel queria, certamente, um túmulo diferente do do marido, algo mais parecido com o que havia na terra dela. Sendo que, nesta altura, a moda vem de França. É o grande país da Cristandade e Mestre Pero traz para Portugal uma outra forma de trabalhar, mais atualizada com os modelos franceses que são considerados os mais importantes na época. Trazer este mestre para Portugal é dizer 'vamos lá sair desta coisa que andamos a repetir". É trazer a novidade, uma lufada de ar fresco na maneira de esculpir em Portugal", contextualiza a historiadora de arte.

Por outro lado, refere ainda: "É a primeira rainha que decide ficar sepultada longe do marido. É uma personagem extraordinária. Foi a única leiga na Idade Média que recebeu do Arcebispo de Compostela um bordão, com o qual se sepulta e hoje está em exposição na Confraria da Rainha Santa, em Santa Clara-a-Nova, em Coimbra, a insígnia mais importante do arcebispo".

Essa preocupação de D. Isabel com o seu túmulo tem um caráter inédito: "É a primeira vez que se vê uma rainha portuguesa preocupada com a sua memória póstuma. Uma memória póstuma que mostra uma imagem bem diferente daquela ideia que temos da santinha que abre o regaço e caem as rosas, que era muito pobrezinha e humilde. Era uma mulher de poder, nunca quis ser clarissa, quis sempre ser rainha até ao fim. E como se pode ver pelo túmulo, como aparece representada por Mestre Pero, vestida com o hábito de clarissa (forma de mostrar a sua adesão aos valores do franciscanismo, uma nova religiosidade nesse tempo, que mostra afastamento face à Ordem de Cister), mostrando que foi peregrina a Santiago de Compostela (com o bordão e a esmoleira), e de coroa na cabeça. A importância que dá à heráldica da família é tão grande que tem escudos do lado materno, do paterno, da família do marido".

O livro mostra as diferentes obras pelas quais foi responsável, desde o túmulo da Infanta Isabel, atualmente na igreja do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, o monumento funerário da Rainha Santa Isabel, no mesmo mosteiro, o túmulo de D. Gonçalo Pereira, arcebispo de Braga, o túmulo de D. Vataça de Lascaris, na Sé Velha de Coimbra, o túmulo do casal Joanes, na capela dos Ferreiros em Oliveira do Hospital e dez dos doze apóstolos do portal principal da Sé de Évora.

E mostra também o contributo deste mestre para a arte portuguesa que trouxe "uma atualização dos figurinos, com os modelos da escultura francesa, mas também da iconografia francesa". "Para além dos modelos, ele é o homem que traz novos temas como a Virgem da Glória, que pela primeira vez em Portugal aparece no túmulo de D. Gonçalo Pereira. A Virgem a ser coroada pelo Menino Jesus também é ele quem traz; a Virgem do Ó é outro exemplo, e que se tornou um sucesso absoluto. Ele fixou a iconografia da Virgem do Ó em Portugal, que se repetiu até ao século XV, XVI", destaca a historiadora.

Outro risco que Carla Varela Fernandes reconhece correr neste livro é uma nova relação que estabelece: "o rosto da estátua jacente de D. Pedro, Conde de Barcelos, um dos filhos bastardos de D. Dinis, que se encontra no Mosteiro de São João de Tarouca, apesar de ser naquele granito ingratíssimo para esculpir, pode ser perfeitamente um trabalho de Mestre Pero", defende a investigadora.

A concluir, garante: "Este livro não é o final da investigação. Ainda hei de encontrar mais respostas".

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