Clooney a brincar aos comunistas na abertura da Berlinale

Até dia 21 o festival de Berlim torna-se o centro do mundo do cinema. Hoje começa com uma aposta americana, o novo dos Coen, Salve, César!

No dia em que começa a Berlinale há razões para o mundo do cinema ficar otimista. A programação desta festa de cinema promete mundos e fundos. Nomes fortíssimos numa competição que no papel faz do risco a sua força motriz. Meryl Streep, a presidente do Júri, encontra uma seleção que muitos afirmam a mais forte dos últimos anos, isto numa altura em que o festival parece ganhar de novo um embalo qualitativo depois do sucesso do ano passado. Nomes como Denis Côté, André Téchiné Mia Hansen-Love, Lav Diaz, Gianfranco Rosi e o dinamarquês Thomas Vinterberg são os nomes fortes que lutam para o Urso de Ouro, mas há também a estreia de Ivo M. Ferreira no "grand slam" dos festivais, com Cartas da Guerra, a partir das cartas de António Lobo Antunes.

Da América chegam dois filmes que geram alguma expectativa: Chi-Rak, de Spike Lee e Midnight Special, de Jeff Daniels. O primeiro é uma experiência dramática do veterano Lee ao adaptar uma tragédia grega clássica nos meandros da lutas de gangues de Chicago. O filme já foi lançado comercialmente nos EUA e não fez muito furor nas bilheteiras. Quanto a Nichols, cineasta aclamado de Mud- Fuga [2012], apresenta em estreia mundial um conto sobre paternidade com referência ao cinema de Spielberg. As más línguas acreditam ser um filme de estúdio travestido de cinema "indie" e talvez nem chegue às salas portuguesas.

Na Berlinale Special chega uma antestreia de peso: Miles Ahead, de Don Cheadle, o "biopic" de Miles Davis onde o próprio Cheadle é o protagonista. O filme foi já exibido no New York Film Festival com alguma aclamação e é mais um exemplo do cinema americano na fixação das biografias de ídolos musicais (Sean Durkin acabou de confirmar que este ano arranca as filmagens da história de vida de Janis Joplin e, no Festival de Toronto, em Setembro passado, já foram vistos os biopics de Hank Williams e Chet Baker).

Clooney e o seu rapto na sessão de abertura

Mas o filme de abertura hoje é acontecimento esperado. O regresso dos irmãos Coen numa comédia cinéfila chamada Salve, César!, onde um impressionante elenco garante absoluta histeria na passadeira vermelha, que em Berlim é sempre aquecida. Josh Brolin, George Clooney, Tilda Swinton e Channing Tatum já confirmaram a presença, ao contrário de Scarlett Johansson. O filme conta a história de um rapto de uma estrela de cinema dos anos 50 enquanto rodava um filme sobre Cristo. Na verdade, ele é raptado por uma organização comunista que pede um resgate de milhares de dólares para ajudar o império soviético. Salve, César!, em bicos de pé, tenta ser uma meditação contemporânea sobre a tacanhez de espírito americano através das memórias do medo do papão comunista durante o período em questão. Que faça tudo isto com um humor nada inspirado é que não é apanágio do melhor cinema dos irmãos. Na verdade, esta sátira a Hollywood é bem capaz de caber no lote das piores comédias da dupla, muito perto de desastres como Irmão, Onde Estás [2000] e The Ladykillers- O Quintento da Morte [2004]. Fica-se com a sensação que este pretexto para recriar História e histórias da Hollywood clássica é um pretexto, um mero pretexto, para os Coen brincarem aos géneros: do musical, ao melodrama, do épico romano ao "film noir". Um gesto sempre em molde lúdico, pouco sério, pouco focado. Como se fosse uma blague ligeira. O próprio desfile de estrelas surte um efeito estranho: Jonah Hill aparece apenas numa cena e tem direito ao poster; Scarlett Johansson afinal é apenas um "cameo" e o duplo papel de Tilda Swinton poucos efeitos práticos demonstra.

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