Cinco euros bastam para ser mecenas de Belas-Artes

Fundada em 1836 por D, Maria, a academia celebra o aniversário com um colóquio e exposições com trabalhos de alunos. E lança uma campanha de crowdfunding para recuperar obras do seu acervo.

Pedro Cabrita Reis não sabia, mas um dos seus quadros de final de curso foi virado ao contrário e serviu para colar posters para os alunos nos corredores da faculdade de Belas Artes, em Lisboa. As marcas do pregos são evidentes para quem o vê, pendurado na galeria de exposições temporárias da antiga escola do artista português. Este quadro, e outro da sua autoria, está entre as sete obras que se podem ver até 30 de outubro na galeria de Belas-Artes. Procuram apoios ao restauro, através de uma campanha de crowdfunding, um dos projetos que assinalam os 180 anos da academia.

Ao todo, são necessários 12 mil euros para as intervenções nestas obras: um desenho de João Pedro Monteiro (1842); a escultura Génios Alados; Paisagem com dois Camponeses, de Artur Alves Cardoso (1903); uma escultura de 1920 de Simões de Almeida (Sobrinho) em homenagem a uma antiga professora francesa; uma gravura (sem data) de Francesco Bartolozzi; e as duas pinturas de Cabrita Reis, ambas de 1983. Pertencem ao vasto, e quase inexplorado, acervo da escola.

Ao Cab rita Reis com marcas de pregos, juntam-se outras histórias da vida das obras. A mais insólita é a da pintura de grandes dimensões de Alves Cardoso, grafitada em tempos de efervescência política. A vermelho, lê-se Aliança proletária camponesa. "É para manter", diz Victor dos Reis, presidente da assembleia geral da Faculdade de Belas-Artes. O restauro incorporarána obra outra parte da sua história, diz ao DN. É uma decisão pensada: "Quando se restaura repõe-se como seria à saída do atelier do artista ou guardamos isso mais o que a História acrescentou?", lança, em jeito de debate. Neste caso, responde, a solução foi manter.

Dos restauros propostos, e que serão levados a cabo pelo departamento de Ciências da Arte e do Património da faculdade, é a mais cara. São necessários 3 mil euros, segundo Beatriz Bento, aluna de mestrado, cuja teses se debruça sobre a coleção da faculdade. A mais barata é a gravura de Bartolozzi. Os valores variam entre os 2800 e 2000 do Cabrita Reis, os 1500 dos génios alados e os 420 do desenho.

Para ser mecenas bastam 5 euros. "Com 25 euros o nome fica associado ao restauro", explica o presidente da escola. "Vamos mostrar o processo e o resultado", afiança o professor.

Beatriz Ribeiro, uma das grandes dinamizadoras do projeto de crowdfunding, explica que está previsto que os fundos de uma obra revertam para outra, para que assim que o restauro seja concretizado mais rapidamente.

Os contributos são feitos através da Internet, a partir da loja de Bela-Artes, "a primeira escola a ter uma loja online", a maneira encontrada para pôr no mercado as suas publicações. Amanhã, quando a exposição abrir ao público, haverá um computador e ao computador um voluntário disponível para ajudar os que queiram contribuir no momento, explica Beatriz Bento.

As obras em causa foram escolhidas do acervo da escola. Desenhos, por exemplo, são tantos, e tão fáceis de arrumar, que lhes perdem a conta. Mostrar a coleção é um dos objetivos, diz Victor dos Reis.

"Temos um acervo de réplicas em gesso de grandes esculturas único", conta. "O edifício passou ileso às convulsões europeias e a nossa coleção também". Alguns estão nos corredores. "Estes são réplicas do friso do Partenón", diz.

Portas abertas

A assinalar os 180 anos desde que a 25 de outubro de 1836, D. Maria fundou a Academia de Belas-Artes, a escolaprogramou para hoje e amanhã dois dias abertos ao público (com repetição no fim de semana). Amanhã encerram com um colóquio científico com a presença de Pedro Cabrita Reis.

"A faculdade é marcada por um paradoxo", introduzindo uma explicação para esta vontade de se abrirem ao mundo. "Os nossos cursos atraem muitas pessoas, somos a segunda faculdade com as médias mais altas, é muito sedutora para a maior parte das pessoas, mas as poucas atividades que fazemos não trazem as pessoas à escola", explica o presidente de uma escola com sete licenciaturas, 12 mestrados, um doutoramento próprio e dois em parceria. As notas de que fala estão entre os 14 e os 17 valores. Entre 1600 alunos.

São de alguns deles os trabalhos que se mostram no primeiro piso do antigo Convento de S. Francisco. Os corredores amplos das salas de aulas estão guardados para esta mostra de obras "selecionadas por uma equipa curatorial ". As salas de aula também recebem obra relacionadas com o que ali se ensina.

"Entrei para o convento há 30 anos e ainda cá estou", diz Victor dos Reis, antigo diretor do departamento de Arte Multimédia. Termina em novembro o seu primeiro mandato à frente da escola. Frequentou a escola e anteriormente dirigia o departamento de Arte Multimédia. "Costumo dizer que entrei para o convento há 30 anos e por cá fiquei", diz. O edifício de Belas-Artes, que antes de acolher a academia, era "um dos maiores de Lisboa, ardeu no terramoto de 1755, foi ampliado nos anos 80 e deverá crescer de novo, em breve. "Conseguimos há três anos que fosse assinado um protocolo entre a reitoria, o ministério das Finanças e o da Administração Interna para ficar com uma parte do imóvel onde estiveram alguns serviços da PSP e Governo Civil. Este espaço será ocupado por um museu da Polícia, a ampliação do Museu do Chiado e também da Faculdade de Belas-Artes, com entrada na rua Capelo.

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