Fátima traz coleção do Vaticano ao Museu Nacional de Arte Antiga

Diretor dos Museus Vaticanos esteve em Lisboa para um ciclo de documentários sobre Miguel Ângelo. E anunciou a exposição dedicada à iconografia de Nossa Senhora

O centenário das Aparições de Fátima deu o mote para a primeira colaboração entre os Museus Vaticanos e o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA). Os primeiros vão ceder obras que retratam Nossa Senhora ao longo da história. A exposição - que ainda está numa fase preliminar - tem inauguração marcada para maio do próximo ano, altura em que o Papa Francisco também estará em Fátima nas celebrações do centenário.

A iniciativa foi avançada ao DN pelo próprio diretor dos Museus Vaticanos, Antonio Paolucci. "Como vai ser o centenário de Fátima, vamos fazer uma mostra dedicada à iconografia de Nossa Senhora. Teremos obras desde os primeiros séculos até Salvador Dalí", explicou. A iniciativa está a ser preparada pelos diretores dos dois museus que ainda estão a debater as obras a serem incluídas no projeto. "Já temos uma lista preliminar, mas ainda estamos a trabalhar nela para chegar à lista final", acrescentou ao DN o diretor do MNAA, António Filipe Pimentel.

A exposição está prevista para maio de 2017 e deve manter-se até setembro. A data da inauguração também ainda não está fechada. Os dois diretores estão diretamente envolvidos na preparação desta exposição, como sublinhou Antonio Paolucci.

Em Portugal para encerrar um ciclo de documentários sobre Miguel Ângelo, o italiano revelou este projeto que está a preparar com Portugal, mas também falou com o DN sobre o trabalho nos museus, o papel da arte no mundo e os seus artistas favoritos. Sobre o atual primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, disse apenas ser um homem "esperto e astuto". Os dois trabalharam juntos quando Paolucci era superintendente do polo museológico de Florença e Renzi era presidente da câmara local.

Novo Miguel Ângelo em 200 anos

Veio falar de Miguel Ângelo, mas nem é o artista que Antonio Paolucci mais admira. "Digamos que a impressão que todo o mundo tem é que Miguel Ângelo foi o artista de todos os tempos, mas existiram outros, Rafael, por exemplo, Ticiano. Tantos italianos que foram grandes mestres. Contudo, aquele que neste momento tem os holofotes do mundo nele é Miguel Ângelo. Basta dizer que na Capela Sistina entram todos os anos seis milhões de pessoas." O especialista em história de arte aponta a "singularidade, a excecionalidade e o sentimento de terror" que as obras Miguel Ângelo transparecem como o segredo para o seu sucesso. "Cinco séculos depois ainda toca os corações das mulheres e dos homens em todo o mundo."

Apesar de defender que Rafael foi o maior artista de todos os tempos - "foi ele que ensinou a arte a todos" -, não retira mérito aos outros grandes pintores renascentistas. Acreditando mesmo que o mundo de hoje não vai conhecer ninguém que se destaque como eles. "Talvez daqui a dois ou três séculos nasça o novo Miguel Ângelo, mas todo o mundo deve mudar. Neste momento podemos apenas fazer experimentações, e depois de tudo isto, daqui a 100, 200 anos em qualquer parte do mundo - talvez em Portugal ou na China - nascerá o novo Miguel Ângelo. Itália já deu nos séculos passados grandes mestres, é o momento para novos países."

E não é que o mundo não precise de um novo mestre. "A minha experiência diz-me que há um grande desejo, uma fome de beleza, de ver, de compreender aquilo que se vê, de recordar o que se viu", defende o diretor dos Museus do Vaticano. Uma necessidade que "atinge todos independentemente do nível de estudos e que abre uma pradaria imensa para quem quer trabalhar nesta área". Cabe a Antonio Paolucci e aos seus colegas "tornar compreensível a todas as pessoas que as querem compreender, as obras-primas que têm ao dispor".

Crescimento zero no Vaticano

Ora no caso de Antonio Paolucci ele até tem o privilégio de poder mostrar ao mundo aquele que o próprio considera ser a melhor obra de arte de sempre: A Transfiguração, de Rafael. Uma admiração que o próprio defende só se pode explicar no local, em frente à obra, e com a luz cor de mel que tal como Lisboa, Roma também tem.

Antonio aproveita as tardes em que os museus fecham para "ir visitar uma série de obras pelas quais estou apaixonado. Elas são como namoradas, cada dia vejo uma diferente". A um ano de completar uma década à frente dos destinos dos Museus Vaticanos - um cargo que o próprio entende como "prémio carreira" -, o ex-ministro do Património Cultural e Ambiental pede que os seus museus não cresçam mais.

"Com seis milhões de visitantes por ano, invoco o crescimento zero para os Museus Vaticanos", justifica. Lembrando que está a falar de sete quilómetros de corredores, salas e jardins interiores que juntam arte contemporânea, com clássica, renascentista, etnográfica, etrusca ou egípcia.

Uma variedade que o próprio elogia. Embora reconheça que ver todas aquelas obras de uma só vez "acaba por ser desconcertante, num certo sentido. Para compreender alguma coisa tem de voltar pelo menos uma quinzena de vezes". Um primeiro olhar permite, no entanto, perceber que "a Igreja de Roma sempre teve atenção em relação a todas as culturas".

Outra mais-valia de se trabalhar no Vaticano é a liberdade na escolha das obras. "O Vaticano não tem, felizmente, uma teoria estética privilegiada, por oposição ao absolutismo de 1900. Não existem indicações precisas nas escolhas, é melhor assim, a arte é livre por definição, por natureza." Uma mistura de arte e beleza, que levam o próprio a comparar o paraíso com algo parecido com os Museus Vaticanos. Isso, e a proximidade que o local tem do paraíso, concretiza.

Ler mais

Exclusivos

Premium

robótica

Quando os robôs ajudam a aprender Estudo do Meio e Matemática

Os robôs chegaram aos jardins-de-infância e salas de aula de todo o país. Seja no âmbito do projeto de robótica do Ministério da Educação, da iniciativa das autarquias ou de outros programas, já há dezenas de milhares de crianças a aprender os fundamentos básicos da programação e do pensamento computacional em Portugal.

Premium

Anselmo Borges

"Likai-vos" uns aos outros

Quem nunca assistiu, num restaurante, por exemplo, a esta cena de estátuas: o pai a dedar num smartphone, a mãe a dedar noutro smartphone e cada um dos filhos pequenos a fazer o mesmo, eventualmente até a mandar mensagens uns aos outros? É nisto que estamos... Por isso, fiquei muito contente quando, há dias, num jantar em casa de um casal amigo, reparei que, à mesa, está proibido o dedar, porque aí não há telemóvel; às refeições, os miúdos adolescentes falam e contam histórias e estórias, e desabafam, e os pais riem-se com eles, e vão dizendo o que pode ser sumamente útil para a vida de todos... Se há visitas de outros miúdos, são avisados... de que ali os telemóveis ficam à distância...

Premium

João César das Neves

Donos de Portugal

A recente polémica dos salários dos professores revela muito do nosso carácter político e cultural. A OCDE, no habitual "Education at a Glance", apresenta comparações de indicadores escolares, incluindo a remuneração dos docentes. O estudo é reservado, mas a sua base de dados é pública e inclui dados espantosos, que o professor Daniel Bessa resumiu no Expresso de dia 15: "Com um salário que é cerca de 40% do finlandês, 45% do francês, 50% do italiano e 60% do espanhol, o português médio paga de impostos tanto como os cidadãos destes países (a taxas de tributação que, portanto, se aproximam do dobro) para que os salários dos seus professores sejam iguais aos praticados nestes países."