Cantar a Páscoa com antigos e contemporâneos

De Lisboa até Braga, passando por Coimbra, Viseu e Porto, apresentamos alguns dos concertos evocativos do período pascal que se irão realizar entre o dia de hoje e Sexta-Feira Santa (dia 14). Os repertórios não podiam ser mais variados, indo desde o século XV até ao nosso tempo

A par do Natal, a Semana Santa é o período para o qual historicamente mais música foi composta. A sucessão muito próxima da máxima expressão do sofrimento (na Paixão) e da máxima expressão de júbilo (na Ressurreição de Cristo) inspirou e inspira ainda hoje inúmeros compositores, crentes ou não, a debruçar-se sobre estas temáticas.

Hoje, em Lisboa, Coimbra e no Porto, teremos vários testemunhos da vitalidade moderna da composição associada a este tempo tão especial.

Na capital, a Igreja de São Roque recebe às 21.00 os Graindelavoix, o agrupamento vocal quase mítico dirigido por Björn Schmelzer. O programa tem por motivo unificador a oficina de impressão de Plantin/Moretus, de Antuérpia (uma das mais famosas da época), circa 1600. O interessante é que o grande polifonista português Duarte Lobo viu quatro livros de composições suas ali impressos entre 1602 e 1639, razão para a inclusão no programa - em conjunto com a proximidade da Semana Santa - das suas duas Missas de defuntos (a 6 e a 8 vozes), no que é uma oportunidade rara para ouvir ao vivo estas obras-primas da nossa música. O restante programa contém ainda outro Requiem a 8 vozes, de Orazio Vecchi e uma Missa de George de la Hèle, compositor quinhentista natural de Antuérpia.

Na cidade universitária, e integrado no V Ciclo de Requiem, realiza-se (21.30) no Auditório do Conservatório de Coimbra um concerto em que será interpretada a Missa 'The Armed Man', da autoria de Karl Jenkins, compositor galês nascido em 1944. Subintitulada A Mass for Peace, esta obra, dedicada às vítimas da Guerra do Kosovo, estreou a 25 de abril de 2000, no londrino Royal Albert Hall e cedo ganhou enorme popularidade em todo o mundo. Em Coimbra, serão intérpretes os coros reunidos da Universidade do Minho e do Conservatório Superior de Vigo, mais a Orquestra da Universidade do Minho, dirigida pelo turco Ertug Korkmaz. Serão solistas o meio-soprano Patrícia Quintas e o baixo Pedro Telles. O Ciclo de Requiem tem por capítulo seguinte e final um concerto na Sexta-Feira Santa (no mesmo espaço), com o magnífico Requiem Alemão, op. 45, de Johannes Brahms, por Coro Sinfónico Inês de Castro e Orquestra de Espinho, dirigidos por Pedro Neves, sendo solistas Carla Caramujo e Rodrigo Carvalho.

Já no Porto (Casa da Música), é também de um britânico (agora, escocês) a obra-rainha do programa desta tarde (18.00) na Sala Suggia. Trata-se de Via Sacra, obra de 1999 (estreada em março de 2000, em Bruxelas) de James Dillon (n. 1950). É uma obra puramente orquestral (divide-se), à qual o compositor chamou Cycle for orchestra. A interpretá-la estará a Orquestra Sinfónica do Porto-Casa da Música, dirigida por Peter Rundel. O programa é completado com Hymne (au Saint Sacrement), de Olivier Messiaen (1908-92) e com a Sinfonia da Requiem, de Benjamin Britten (1913-76). A primeira, escrita primeiro em 1932, perdeu-se na II Guerra Mundial, tendo sido reescrita de memória por Messiaen em 1946-47; já a segunda, datada de 1940, é a maior obra puramente orquestral de Britten. Encomenda original do governo imperial japonês para os 2600 anos do "Trono do Crisântemo", ela teve porém como intenção subliminar um requiem em três partes, em memória dos pais do compositor.

Depois desta Páscoa modernista, a Casa da Música propõe para o próximo dia 12 uma Páscoa bem mais tradicional, preenchida com sons barrocos: a Orquestra Barroca da Casa, dirigida por Laurence Cummings, alinha obras dos italianos Vivaldi, Ferrandini (a cantata Il Pianto di Maria), Geminiani e Albinoni (Concerto para oboé), bem como um Concerto grosso do quase desconhecido anglo-holandês Pieter Hellendaal (1721-99). Serão solistas o soprano Mónica Monteiro e o oboísta Pedro Castro.

Concertos

Lisboa - hoje, 21.00, Igreja de São Roque, bilhetes a 25 euros
Coimbra - hoje, 21.30, Auditório do Conservatório de Música de Coimbra, bilhetes a 10 euros
Porto - hoje, 18.00, Sala Suggia da Casa da Música, bilhetes a 16 e a 18 euros

Outras propostas

Semana Santa na Gulbenkian

A temporada de música da Fundação Gulbenkian programou para os próximos dias 11 e 12 o seu programa pascal. Do programa constam dois grandes clássicos do repertório: os Requiem de Gabriel Fauré e de Mozart. Aos Coro e Orquestra Gulbenkian juntam-se quatro solistas vocais, dos quais se destaca o soprano francês Sandrine Piau. Dirige Michel Corboz, decano maestro do Coro Gulbenkian. No Grande Auditório da Fundação.

Um clássico cântico à Virgem em Viseu

Integrado no 10.º Festival da Primavera da cidade beirã, realiza-se na Sé Catedral, pelas 21.00 de dia 12, um concerto pela Orquestra do Norte, à qual se junta o Coro Spatium Vocale e os solistas Leila Moreso, Marta Martins, José Manuel Araújo e Rui Silva, sob a direção de José Ferreira Lobo. No programa, apenas o Stabat Mater de Gioacchino Rossini, escrito entre 1831 e 1841, estreado em Paris em 1842 e em Lisboa logo no ano seguinte. O concerto é de entrada livre.

Braga entre a Santa Cruz e a Sé Catedral

Na capital minhota e chamada "cidade dos arcebispos", as celebrações da Semana Santa incluem um programa de concertos, do qual fazem parte estas duas propostas, nos dias 10 e 11. A 10, na Igreja de Santa Cruz, a Missa de Jenkins (ver texto principal), pelos mesmos intérpretes de Coimbra; já a 11, na Sé Catedral, o Coro da Sé do Porto e a Filarmonia das Beiras, dirigidos por Tiago Ferreira, interpretam o primeiro Stabat Mater de Schubert e o Requiem de Mozart.

Um concerto para a paz em Belém

Por fim, na Quinta-Feira Santa (dia 13, 21.00), no Grande Auditório do CCB, os Músicos do Tejo e o Coro Voces Caelestes, sob a direção do finlandês Äapo Häkkinen, delinearam um "Concerto para a paz", integrando obras que vão do século XV até ao XVIII (desde Guillaume Dufay a J.S. Bach), para terminar com Da pacem, Domine, de Arvo Pärt, obra de 2004. São solistas os cantores Susana Gaspar, Carolina Figueiredo, Marco Alves dos Santos e André Henriques.

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Rosália Amorim

Crédito: teremos aprendido a lição?

Crédito para a habitação, crédito para o carro, crédito para as obras, crédito para as férias, crédito para tudo... Foi assim a vida de muitos portugueses antes da crise, a contrair crédito sobre crédito. Particulares e também os bancos (que facilitaram demais) ficaram com culpas no cartório. A pergunta que vale a pena fazer hoje é se, depois da crise e da intervenção da troika, a realidade terá mudado assim tanto? Parece que não. Hoje não é só o Estado que está sobre-endividado, mas são também os privados, quer as empresas quer os particulares.