Camané: "Os passarinhos é que cantam bem, nós temos imensos limites"

Camané Canta Marceneiro é o novo disco do fadista nascido em Oeiras em 1966, com 15 obras do genial criador de muitos dos fados tradicionais. Na voz de Camané, os fados são outros mas lá está o velho Marceneiro a espreitar. "O fado é uma maratona, é para a vida"

Quem andar amanhã às 19:00 pelo Chiado pode ouvir Camané a apresentar, pela primeira vez, o novo disco, só com fados de Alfredo Marceneiro. Só o viu uma vez, tinha dez anos, e ficou "com cara de parvo a olhar", mas aprendeu com ele muito do que sabe sobre fado, nas gravações que deixou, nas conversas dos mais velhos que duravam noites inteiras. Ainda baixa o som quando ouve fado, uma coisa que lhe ficou da juventude, quando não queria que os amigos soubessem que ele gostava desta música.

Como arranjou coragem para se atirar ao Alfredo Marceneiro?

Foi sem pensar, fui ganhando coragem aos poucos, nunca me passou pela cabeça que um dia iria fazer um disco com estes fados.

Mas sabia-os todos?

Sabia-os de sempre, aliás sempre cantei estas músicas. Já as cantei todas, com letras diferentes. Os fadistas arranjam um estilo para cada fado tradicional, conforme o poema que vão cantando. A Amália cantava o [Fado] Bailado do Marceneiro na Estranha Forma de Vida. O próprio Marceneiro cantou outras letras com este Bailado -" À mercê dum vento brando, bailam rosas nos vergéis, e as marias vão bailando, enquanto vários manéis, nos harmónios vão tocando" - e também "Que sorte que deus me deu, e que sempre hei de lembrar", a letra que eu canto no disco. Escolhi-o porque me inspirei no Manuel de Almeida, outro fadista de que gostei muito. O Marceneiro não gravou muito mas durante a vida, que foi bastante longa [1888-1982], repetiu as mesmas músicas que tinha feito com letras diferentes.

As músicas do disco são todas dele?

Algumas são fados tradicionais de outros músicos, mas o repertório é todo dele, são tudo criações do Marceneiro. São dele músicas como o Fado Cravo, o Laranjeiro, o Fado Louco.

E os poemas são extraordinários.

São os melhores poetas populares do fado, ele tinha um bom gosto incrível no que escolhia. O Zé Pracana, que teve uma importância extrema na divulgação do Marceneiro, contou-me que ele se encontrava com os poetas populares, organizava grupos de leituras nas tabernas, nas coletividades, nos cafés. Juntavam-se à tarde e toca de fazer as leituras. Quando não tinha tradicionais que se adaptassem às letras, ele próprio fazia as músicas, inventava e dizia ao Armandinho ou outro guitarrista para reproduzirem musicalmente o que ele tinha feito.

O que é especial, único, no Alfredo Marceneiro?

É a autenticidade, o bom gosto, a capacidade interpretativa. Quem canta bem são os passarinhos, nós temos imensos limites e é com os nossos limites que conseguimos fazer música. Era isso que ele fazia. Tinha uma musicalidade incrível e era extremamente inteligente. Tinha uma enorme dedicação, fazia as coisas em que acreditava sem pensar o sucesso. O que queria era essa vivência, estar com as pessoas, fazer fado.

Era um tipo de vida diferente?

Eu cresci nas casas de fado e foi lá que aprendi. Há coisas que procuro que têm a ver com os ensinamentos dele: fazer o que é autêntico sem esperar sucesso fácil. O fado é uma maratona, é para a vida. Por isso é que fiz este disco. Honestamente, não passei a vida a pensar "um dia vou fazer". Achei até que talvez não conseguisse cantar estes fados com as letras que o Marceneiro cantou, coisas tão bem feitas. Tentei passá-las para a minha forma de cantar. A ideia foi fazer daquilo os meus fados, as minhas histórias, mas está lá o Marceneiro porque de repente há uma forma de estilar que lhe vou buscar. A minha forma de cantar tem muito a ver com o Marceneiro, sempre teve. Aprendi com ele a forma como divido as frases.

A ouvi-lo?

A ouvi-lo e a ouvir outros fadistas - o Carlos [do Carmo], a Amália, o João Braga, o João Ferreira Rosa...

... que morreu agora...

... e era genial. Há dez anos que termino os meus concertos com o Fado Cravo, uma das músicas mais antigas, que a Amália cantava a Maldição, a Maria Teresa de Noronha cantava outra letra, e eu canto com o poema do João Ferreira Rosa que para mim é o que é ser fadista: "Ando na vida à procura de uma noite menos escura que traga o luar do céu, uma noite menos fria em que não sinta agonia de um dia a mais que morreu" [Triste Sorte]. Para mim o fado é isto, é uma música triste mas que nos faz bem, há coisas muito mais tristes. Vamos à ópera e morrem todos no fim, mas vem tudo a sorrir quando acaba o espetáculo porque é muito bom, porque nos revemos naquilo, faz-nos pensar, exorciza a dor. Faz-me saber viver. O fado é isto também.

Canta histórias desgraçadas de uma Lisboa castiça e boémia.

No Bêbado Pintor, o Marceneiro faz a descrição de um café de camareiras. Ele não cantava a parte inicial que eu digo, cantava só a parte seguinte. É uma história de bas fonds mas essas histórias existem. Na Mocita dos Caracóis, ele diz: "A tua saia redonda bordada de girassóis, para a tua escultura bonda serei sempre a tua ronda". A palavra bonda não existe, mas estava lá e eu quis cantá-la. Gosto tanto daquilo - "serei sempre a tua ronda", acho tão bonito. É um homem, se calhar mais velho, obcecado por ela, que lhe vai dizendo coisas para ela não sair da terra, que na cidade vão desvirtuar a beleza e a sensibilidade dela, aquilo que ela tem de sensual e de único vai ser distorcido. E há temas atuais, como no Remorso. Naquela altura não havia psiquiatras nem psicólogos, mas é a descrição de uma noite de psicose, uma paranoia, um homem fechado em casa a ouvir barulhos cá fora. Isso já me aconteceu, aconteceu a quase toda a gente e os psicólogos já me explicaram que tem a ver com a ansiedade, é um ataque de pânico. Ali tem a ver com a culpa.

Viveu estes ambientes nas casas de fado?

Eu cresci no meio de pessoas mais velhas, as pessoas da minha idade não ouviam fado. Quando eu tinha 18 anos ia para as casas de fado e ficávamos até às seis da manhã a falar. Quando fui cantar para o Fado Menor, tocavam lá o Ribeirinho [Francisco Ribeiro], era um dos guitarristas preferidos do Marceneiro, e o Carvalhinho pai [Francisco Carvalhinho], extraordinário. Eu tinha o Carvalhinho a tocar para mim! Foram noites maravilhosas. Uma vez fui cantar para um restaurante na Cruz Quebrada. Eu estava a estudar naquela altura, só ia ao fim de semana. E de repente estavam lá o Martinho da Assunção, já velhinho, e o António Bessa. Era uma coisa do outro mundo. Eu estava ali a cantar com aqueles tipos, eu, um puto, só tinha que agradecer!

Como o aceitavam, muito mais novo?

Acho que perceberem que eu era um fadista.

Os seus irmãos [Helder e Pedro Moutinho] também iam?

Os meus irmãos nessa altura não cantavam, cantaram muito mais tarde.

Conheceu o Alfredo Marceneiro?

Vi-o uma vez, nem sequer falei com ele. Sentei-me um bocadinho numa mesa para fazer uma fotografia com a Amália e com o Carlos Conde, no Arreda. Tinha dez anos. Olhei em frente e estava lá o Marceneiro. Aproximei-me, a olhar para ele com cara de parvo.

Onde era o Arreda?

Em Cascais, era uma casa de fado frequentada pelo Manuel de Almeida, o Zé Pracana, às vezes o João Braga. Eu vivia em Oeiras e havia muito fado em Cascais. Em Lisboa havia fados nas matinées das coletividades, na Adiçence, na Voz do Operário. Às vezes, à noite ao fim de semana. Eu obrigava os meus pais a ir e eles adoravam.

Também cantavam?

Cantaram depois de mim. O meu bisavô e o meu avô cantavam, depois passou para mim.

Estamos a falar dos anos 1970 e 1980, toda a gente ouvia rock, música pop. Como veio para o fado?

Eu ouvia fados às escondidas. Ouvia fado mais baixinho do que o rock, para os meus amigos não perceberem o que eu estava a ouvir. Ainda hoje, quando vou no carro a ouvir rádio, se for rock oiço em altos berros, se for fado ponho baixinho. Foi uma coisa que não consegui ultrapassar. Muito novo, percebi que podia cantar aquelas músicas e adquiri aquela característica de canto. A partir daí foi uma paixão, mas uma coisa escondida. Às vezes vinha de comboio para Lisboa, já cantava nas casas de fado, e se aparecia um tipo com uma guitarra portuguesa, escondia-me para os amigos não me verem com ele.

A passagem das gerações antigas para as novas é uma aprendizagem?

Eles gostavam de mim e eu passava a noite a ouvi-los - "não faças isto, faz aquilo". Toda a vida os ouvi. Às vezes não gostava, achava que não era assim, e alguns eram brutos a ralhar. Mas ouvi-os sempre. Assim percebi o que quero fazer, o que devia fazer e o que não devia. Não havia escolas de fado, eu tinha que aprender a ouvir, nas conversas, nos conselhos que me davam.

Foi sempre bem acolhido?

Pelos bons. Havia uns mauzinhos que não prestavam e até gozavam comigo. Pelo contrário, lembro-me da forma como o Carlos do Carmo me tratou quando fui ao Faia. E foi a Amália que ligou para o David Ferreira para eu gravar para a EMI.

Foi a Amália?

A Amália ligou para o David Ferreira numa noite de Natal, e no dia 2 ou 3 de janeiro o David Ferreira e o João Teixeira a convidaram-me para gravar o primeiro disco. Ela tinha-me ouvido na Maldita Cocaína [1992], no meio daquela gente toda. Numa festa em Cascais na Feira do Artesanato, uma homenagem à Amália, ela convidou-me para cantar com os músicos dela. E eu tive que cantar com a Amália sentada num cadeirão ao meu lado! Cada vez que eu acabava de cantar ela dizia-me - "esta voltinha é minha, esta voltinha é do João Braga..."

O Carlos do Carmo tem no disco um dueto consigo, a Lucinda Camareira.

E a forma como ele canta... Eu pareço um menino a cantar. Como é que ele consegue cantar daquela maneira? E a forma como diz as palavras, a visualizar? É extraordinário. Foi a primeira pessoa a cantar fado assim, nunca ninguém tinha cantado como ele. Conseguiu, de uma maneira brilhante, ser novo mas ter lá o fado. Na Lucinda Camareira, eu estou a contar uma história que ele já me contou a mim, e ele está a contá-la em primeira mão - ele esteve lá, eu não estive. Ele respira no meio, os silêncios dele são incríveis.

É raro encontrar estas qualidades?

Há dias estava a ouvir rádio e apareceu um miúdo a cantar o [Fado] Pedro Rodrigues. Aquilo não era o Pedro Rodrigues em parte nenhuma do mundo. É um fado tradicional e é preciso saber de fados tradicionais para depois construir os seus. É preciso conhecer o fado, saber a música, para criar o seu estilo, através da musicalidade, do registo emocional do poema, entrar por aí dentro e construir uma canção dentro dessa canção. O miúdo estava a cantar e os próprios guitarristas não estavam a tocar o Pedro Rodrigues. O Pedro Rodrigues cantado pelo Carlos do Carmo - Duas Lágrimas de Orvalho - é genial. O João Braga criou um estilo completamente diferente e cantava "Porque é que adeus me disseste/Ontem e não noutro dia/Se os beijos que ontem me deste/ Deixaram a noite fria" [poema de Pedro Homem de Mello]. É lindíssimo. A opção do João Braga foi cantar o Pedro Rodrigues em quadras e o Rodrigo cantava-o num estilo completamente diferente, em sextilhas. Há miúdos que não aprenderam, cantam fados porque está na moda. Por que é que não aprendem? Aprender os fados tradicionais é básico.

No disco é novamente acompanhado por Carlos Manuel Proença, José Manuel Neto e Carlos Bica. A vossa relação já é tal que nem precisam de dizer nada?

Sim, está lá tudo. O Bica com estes anos todos aprendeu a tocar fado como um baixista de fado, começou a gostar de fado. Comecei a usar o contrabaixo no segundo disco. Queríamos arranjar um baixista de fado novo que depois quisesse percorrer um caminho. Não havia nenhum disponível e o Zé Mário lembrou-se do Bica, que já tinha participado em espetáculos com o Carlos do Carmo. O Bica vivia na Alemanha, em Berlim, e eu arranjei um contrabaixista para tocar comigo quando o Bica não podia, o Paulo Paz. Tenho-me dividido entre os dois.

O Carlos Proença e o José Manuel Neto são os permanentes?

Desde miúdos. A primeira vez que vi o Proença foi no Fado Menor, estava muito gordinho, tinha para aí 13 anos, com o cabelo muito comprido. Os mais velhos que não tinham trabalho faziam queixa à polícia porque estava uma criança a tocar viola. Mas ele já tocava bem e eles nem metade. Conhecia a mãe do Ze Manel Neto, a Deolinda Maria, que cantava numa casa de fados no Bairro Alto. Sei que o vi uma vez e ele tocava poucochinho, tinha começado um mês antes. Passado um ano, tocava que era uma coisa do outro mundo, foi um salto tão grande, como é que isto é possível? Lembro-me do Ricardo Rocha a tocar com 12 anos, de um dia para o outro tocava. Ele é canhoto, por isso tem uma mão esquerda genial. Até é capaz de tocar só com uma mão, é brutal.

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