Café Society: o exuberante charme dos anos dourados

Foi o filme de abertura do Festival de Cannes. Café Society, de Woody Allen, chega hoje às salas portuguesas. Jesse Eisenberg e Kristen Stewart protagonizam o romance

"Estou à espera de uma chamada da Ginger Rogers." A jactância de um agente de estrelas de Hollywood, num cocktail de fim de tarde, à beira de uma piscina extremamente azul, marca a entrada no novo filme de Woody Allen. Ao serem pronunciados, os grandes nomes da época dourada do cinema americano circulam nos mexericos com a elegante afetação que o realizador pretende e sublinha, aliás, numa irónica narração em voz off. Barbara Stanwyck, Joan Crawford, James Cagney? Nunca os vemos, são puros artifícios de discurso neste Café Society, que, a propósito, abriu o Festival de Cannes em maio, e estreia hoje entre nós.

Precisamente, o homem que dizia aguardar um telefonema de Ginger Rogers depara-se, do outro lado da linha, com a irmã mais velha, nova-iorquina (de um estrato social muito diferente), informando-o da ida do seu sobrinho para Los Angeles, à procura de trabalho junto dele. Steve Carell é a excelência desta interpretação do agente "muito ocupado", que vai evitar o encontro com o familiar, até não poder mais esconder-se... Mas a história de Café Society pertence, de facto, ao tal sobrinho, Bobby (Jesse Eisenberg), um jovem que, nesses áureos anos de 1930, chega à terra dos sonhos e vê muito pouco para se deslumbrar, a não ser a secretária do tio, Vonnie (Kristen Stewart), uma atenciosa guia que lhe dará a conhecer os lugares mais apreciáveis da cidade. Sobretudo pela sua companhia, entenda-se.

O romance, nos moldes que se podem reconhecer de outros filmes de Allen, com a personagem nervosa e loquaz de Eisenberg a contrastar com a serena fragilidade de Stewart, desenha-se em perfeitas notas jazzísticas, e numa formosa luz de âmbar - que permanecerá na memória como referência ao imaginário dourado da época retratada. Aqui se evidencia a indelével assinatura do célebre Vittorio Storaro (O Último Tango em Paris, Apocalypse Now), o diretor de fotografia que colabora com Allen nesta sua primeira incursão no formato digital.

Depois de ser trocado pelo anterior namorado de Vonnie, Bobby regressa a Nova Iorque - num regime de transição entre as duas cidades semelhante ao que víamos em Annie Hall (1977) - para o centro da comédia doméstica da sua família judia, começando a gerir o muito bem frequentado clube noturno Café Society, que pertence ao irmão gangster. Eis outra reminiscência: o confronto entre a pulsão da vivência artística e o submundo do crime, como o encontramos em Balas sobre a Broadway (1994).

Se tudo isto nos soa familiar, a verdade é que o cinema de Woody Allen se vai construindo numa aprazível reiteração dos seus temas e da escrita inteligente capaz de lhes renovar o fôlego. Uma escrita, repare-se, que valoriza muito os atores que com ele trabalham. Depois de ver Kristen Stewart neste brilhante papel em Café Society (a juntar ao filme de Olivier Assayas, As Nuvens de Sils Maria), ainda nos vamos lembrar da saga Twilight? E o que dizer de Jesse Eisenberg, claramente no seu elemento? Talvez nenhum outro ator tenha representado um alter ego tão certeiro de Allen. Se vislumbramos aqui uma certa nostalgia dos primeiros trabalhos do realizador de Manhattan, e se a intenção for mantê-la, ficamos à espera do regresso deste Eisenberg "perdido no mundo"...

Aos 80 anos, no mesmo ritmo de um filme por ano, Woody Allen continua a oferecer-nos os melhores romances no grande ecrã, que não são aqueles que nos comovem, mas que nos deixam na agradável suspensão entre o existencialismo e o amor. Não é preciso mais do que isso.

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