Caçadores, deuses, vedetas, personagens, companheiros

Sagrados no antigo Egito, símbolo de boa sorte no Japão com o tradicional maneki-neko, ou presença constante na arte, de La Dolce Vita a Alice no País das Maravilhas

Esta não é uma história do convívio entre homens e gatos. Mas uma história assim poderia ter diferentes pontos de partida e de chegada. Podia, por exemplo, começar na Mesopotâmia e acabar no número 10 de Downing Street, em Londres, onde o gato Larry, último numa antiga linha de sucessão de caçadores na residência oficial do primeiro-ministro britânico, guarda Theresa May dos ratos, depois de ter feito o mesmo a David Cameron.

Ou podia começar no antigo Egito e na sua devoção ao animal que era estritamente proibido matar, e cuja pena por esse crime chegou a ser de morte. A deusa Bastet, associada à proteção do lar, e objeto de grande devoção, era representada como uma gata. Conta Heródoto que, quando um gato morria, os habitantes dessa casa rapavam as sobrancelhas, e o tempo do luto era o tempo que elas demoravam a reaparecer. Foram os gatos os responsáveis pela derrota dos egípcios na Batalha de Pelúsio, com a Pérsia, no ano 525 a.C. Com imagens de gatos pintadas nos seus escudos e gatos na linha da frente da batalha, os soldados persas derrotaram os egípcios, que temiam fazer mal àqueles animais.

Não será talvez disparatado dizer que os soldados egípcios contam com a compreensão de um bando de escritores que vão de Charles Dickens a Mark Twain, de Louis-Ferdinand Céline a Ernest Hemingway, Doris Lessing (que lhes dedica Gatos e Mais Gatos), ou Manuel António Pina, cujos companheiros felinos muitas vezes se passeiam nos seus versos, como: "Há um deus único e secreto/ em cada gato inconcreto."

Segundo um antigo mito chinês, os deuses confiaram aos gatos a missão de vigiar a sua criação, e para isso lhes deram a fala; mas, encontrando-os sempre no seu característico preguiçar, tiraram-lhes a fala e deram-na aos homens. Aí não estamos longe de Garfield, por exemplo, esse gato gordo (com uma predileção por lasanha) e preguiçoso criado por Jim Davis nos anos 1970, e tão famoso quanto O Gato das Botas, conto de Charles Perrault, ou o Gato de Cheshire, que aparece como desaparece e que explica a Alice por que razão é louco em Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll.

Se falarmos de cinema, logo aparece Sylvia (Anita Ekberg) com um pequeníssimo gato na cabeça a perguntar: Marcello, where are you? em La Dolce Vita, o cat (nunca teve direito a nome) de Holly Golightly (Audrey Hepburn) em Breakfast at Tiffany"s, o gato que se rebola nas mãos de Don Corleone (Marlon Brando) n" O Padrinho, ou o gato ao colo do vilão da saga James Bond, Ernst Stavro Blofeld. O mesmo animal povoa a pintura de Edouard Manet, Pierre-Auguste Renoir, Picasso, ou Abraham Teniers. Uma das suas mais icónicas representações é assinada por Théophile Steinlen: Le Chat Noir, um poster do cabaret homónimo, que ainda hoje é reproduzido noutros posters como em chávenas ou porta-chaves.

Uma história de gatos poderia ainda começar no maneki-neko, a célebre figura japonesa de um gato de pata levantada que é conhecido por simbolizar boa sorte e que tem por trás diversas lendas, entre as quais a de um samurai salvo de um raio pelo gesto de um gato, e que se costuma datar do período Edo. A mesma história podia acabar em Fialho d"Almeida a abrir Os Gatos: "Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, e fez o crítico à semelhança do gato."

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