Cabeça e corpo prontos para dançar

Duas estreias e reposições de peças raras no ciclo que entre janeiro e março assinala os 20 anos de criação artística de Tânia Carvalho. Ela que se estreia na programação, no festival Cumplicidades. Mas há uma extensa cartografia de razões para celebrar a criação de dança em português

2018 marca no tempo os 20 anos de criação artística de Tânia Carvalho e a celebração faz-se no ciclo que, de janeiro a março, revisita várias peças raras. De Icosahedron (Teatro Maria Matos, a 19 de janeiro, ainda programada por Mark Deputter, que desencadeou o ciclo) à icónica De mim não Posso Escapar, Paciência (teatro São Luiz, a 31 de janeiro), passando pelas reposições comissariadas por Paulo Ribeiro para a Companhia Nacional de Bailado (Olhos Caídos e A Tecedura do Caos, de 22 de fevereiro a 4 de março), há toda uma viagem a fazer pela obra da coreógrafa. "Sempre olhei para estas peças assim, juntas, mas na realidade elas nunca foram apresentadas tão perto umas das outras", reflete Tânia Carvalho, que assina também duas estreias absolutas: S, para a CNB (Teatro Camões, 22 de fevereiro), e Um Saco e Uma Pedra - peça de dança para ecrã (Maria Matos, 6 de fevereiro), filme coreografado com música original de Diogo Alvim, ao vivo.

Este é também o ano em que a criadora se estreia na programação, a convite de Francisco Camacho, do Cumplicidades - Festival Internacional de Dança Contemporânea de Lisboa. Em paralelo com a programação internacional de Abraham Hurtado, Tânia Carvalho escolheu Vitalina Sousa (que regressa ao país), Flora Detraz (que apresenta o seu solo na capital), Bruno Senune, Aurora Pinho, Inês Campos, Vasco Diogo e o BCN+Miguel Pereira, para se apresentarem em sete noites consecutivas (10 a 16 de março) e em sete espaços lisboetas - sendo certo que uma das moradas fundamentais é a Rua das Gaivotas, n.º 6, palco constante para artistas emergentes (só no primeiro semestre, Fábio Lopes, Coletivo Qualquer-Luciana Chieregati e Ibon Salvador + Carolina Campos, Joana Castro, Túlio Rosa, Daria Kaufman e Rose Mara Silva).

Em 2015, um dos solos mais carismáticos apresentados no Cumplicidades levava a assinatura de Bruno Alexandre (Cinemateca), cuja nova criação, Cavalos Selvagens, abre a última programação de Gil Mendo na Culturgest (a 19 de janeiro).

Victor Hugo Pontes arranca também o ano intensamente: estreia Margem (CCB, 27 de janeiro), criação inspirada pelo romance Capitães de Areia, de Jorge Amado, e, em simultâneo, integra o ciclo Portugal em Vias de Extinção, no TNDMII, com Canas 44 (25 de janeiro), espetáculo a partir das vivências da bailarina Leonor Keil e da atriz e encenadora Rafaela Santos em Canas de Senhorim. UMA NÃO HISTÓRIA #happiness, segundo capítulo do projeto de VHP em colaboração com vários artistas que cruzam as suas criações, tem estreia em abril, no Teatro Aveirense. Abril, no Teatro Maria Matos - a viver a sua derradeira temporada ao serviço da cidade, aprazada que está a sua entrega a privados -, acolhe a revolução (espacial, para começar) proposta por companhia, nova criação de João dos Santos Martins em torno dos conceitos de trabalho e bem-estar, para refletir "na forma como a dança, enquanto cânone de produção de prazer recíproco (tanto do bailarino como do espectador) e difícil de identificar socialmente como "labor", interage com os seus modos e agentes de produção". Companhia também na continuação do trabalho com a equipa do anterior Projecto Continuado e na renovada parceria com Cyriaque Villemaux em Onde Está o Casaco? - novo trabalho que integra uma obra da artista plástica Ana Jotta criada para a peça, com estreia no Circular Festival de Artes Performativas, em setembro. Antes, já nos primeiros dez dias de fevereiro, o festival que arranca o ano da dança chama-se GUIdance e acontece em Guimarães. Rui Horta é o coreógrafo em destaque, com a estreia absoluta de Humanário - obra a muitas vozes sobre a diversidade e o que nos é comunitário - e o regresso de Vespa, o solo do coreógrafo, ao lugar onde estreou. Rui Torrinha chamou à programação obras de Vera Mantero, Joana von Mayer Trindade & Hugo Calhim Cristóvão, Marlene Monteiro Freitas e Andreas Merk, num cartaz intenso.

Igualmente a não perder, o Alkantara Festival (23 de maio a 9 de junho) celebra 25 anos desde o seu início (como Danças na Cidade), com novas criações portuguesas - Quarta-Feira, a terceira obra do projeto Sete Anos, Sete Peças, de Cláudia Dias, deverá estrear-se aqui - e nomes internacionais que refletem sobre a contemporaneidade. O regresso do criador brasileiro Bruno Beltrão está garantido numa programação ainda não revelada e que marca a despedida de Thomas Walgrave da direção do festival. Celebração também para Clara Andermatt: a par com A Educação da Desordem - projeto com a performer Mikaella Dantas (mostra-se no verão no Negócio-ZDB) -, 2018 marca os 20 anos de uma peça fundamental da coreógrafa: Uma História da Dúvida, com bailarinos e músicos cabo-verdianos, a partir de entrevistas conduzidas pelos próprios. As questões o que é o amor?, o que é a dúvida?, o que é o futuro?, o que é o fim do mundo? voltam a surgir numa criação de Andermatt, de novo em parceria com o compositor João Lucas, que estreia no São Luiz a 23 de novembro, antes de aterrar no Rivoli. A 20 de janeiro celebram-se os 86 anos da casa com uma maratona performativa das 10.00 às 04.00, e com a estreia de El Baile, de Mathilde Monnier (na Culturgest a 17 de fevereiro), a abrir o ano em que Marco da Silva Ferreira se torna artista associado, ele que será um dos artistas em evidência no Festival DDD - Dias da Dança (26 de abril a 13 de maio), onde se apresentarão as novas criações de Olga Roriz, João Fiadeiro, Carlota Lagido, Cristina Planas Leitão e a coleção Delirar a Anatomia, de Ana Rita Teodoro. A programação ainda não foi toda revelada, mas Tiago Guedes adianta um conceito-base: "As danças urbanas, o flamenco ou a dança indiana foram propositadamente convocadas para mostrar o quão vibrantes e diversas são "as danças" dos nossos dias."

Ler mais

Exclusivos

Premium

Nuno Artur Silva

Notícias da frente da guerra

Passaram cem anos do fim da Primeira Guerra Mundial. Foi a data do Armistício assinado entre os Aliados e o Império Alemão e do cessar-fogo na Frente Ocidental. As hostilidades continuaram ainda em outras regiões. Duas décadas depois, começava a Segunda Guerra Mundial, "um conflito militar global (...) Marcado por um número significativo de ataques contra civis, incluindo o Holocausto e a única vez em que armas nucleares foram utilizadas em combate, foi o conflito mais letal da história da humanidade, resultando entre 50 e mais de 70 milhões de mortes" (Wikipédia).

Premium

nuno camarneiro

Uma aldeia no centro da cidade

Os vizinhos conhecem-se pelos nomes, cultivam hortas e jardins comunitários, trocam móveis a que já não dão uso, organizam almoços, jogos de futebol e até magustos, como aconteceu no sábado passado. Não estou a descrever uma aldeia do Minho ou da Beira Baixa, tampouco uma comunidade hippie perdida na serra da Lousã, tudo isto acontece em plena Lisboa, numa rua com escadinhas que pertence ao Bairro dos Anjos.

Premium

Rui Pedro Tendinha

O João. Outra vez, o João Salaviza...

Foi neste fim de semana. Um fim de semana em que o cinema português foi notícia e ninguém reparou. Entre ex-presidentes de futebol a serem presos e desmentidos de fake news, parece que a vitória de Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos, de Renée Nader Messora e João Salaviza, no Festival do Rio, e o anúncio da nomeação de Diamantino, de Daniel Schmidt e Gabriel Abrantes, nos European Film Awards, não deixou o espaço mediático curioso.