Bosch é tão bom que fica mais tempo no Museu do Prado

O museu espanhol prolongou até 25 de setembro a exposição dedicada ao pintor holandês. O tríptico "As Tentações de Santo Antão", que pertence ao Museu de Arte Antiga, só volta depois desta data.

Quem caminhasse junto ao Passeio do Prado, em Madrid, no início do verão, e prestasse atenção aos cartazes que anunciavam a exposição dedicada a Hieronymus Bosch que o Museu do Prado inaugurou em maio, percebia que faltava uma informação importante: até quando se podia ver. A data avançada inicialmente aos meios de comunicação era 11 de setembro, mas o prolongamento era quase uma certeza. Sobretudo, tendo em conta as filas de espera que se faziam para entrar e que os números oficiais confirmam. Até anteontem tinham sido registadas 428 527 entradas.

A confirmação chegou ontem, num comunicado do Museu Nacional do Prado. El Bosco. La Exposición del V Centenario poderá ser vista até 25 de setembro. O tríptico As Tentações de Santo Antão, pertencente ao Estado português, só regressa a casa, isto é, o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) depois disso. "É mais do que justificado", considera António Filipe Pimentel, diretor do museu português ao DN. "Pelas mesmas razões que cedemos, por ser uma dificuldade incrível reunir estas peças, é lógico que fique mais três semanas", continua. Em contrapartida, o autorretrato de Albrecht Dürer, pintado em 1498, quando o artista tinha 26 anos, também ficará mais três semanas à disposição do visitante em Lisboa.

O diretor do Museu de Arte Antiga diz que já esperava a grande afluência de público à exposição, inaugurada a 31 de maio. "Pela capacidade organizativa do Prado, porque todos os espanhóis compreendem a importância de uma oportunidade destas e depois pela aliança eficaz entre cultura e turismo. Há uma grande divulgação internacional", explica.

Além disso, completa António Filipe Pimentel, a presença de As Tentações de Santo Antão é benéfica também para Portugal. "É um grande outdoor do MNAA e de Portugal". Acrescenta: "Por intermédio desta exposição está a haver uma grande divulgação do Museu Nacional de Arte Antiga".

O tríptico em causa é uma entre quase 30 obras de Bosch em exposição (são 21 quadros e oito desenhos), para além de outras 30 dos que trabalharam com ele, como é o caso do Ecce Homo, que veio do Museu de Boston.

O conjunto reunido no Prado para esta mostra constitui 75% da obra do artista que chegou aos nossos dias, com empréstimos de quase todas as instituições que detêm quadros do pintor, como a Galeria da Academia de Veneza, o Museu de Bruges, o Kunsthistoriches, em Viena, o Metropolitan, em Nova Iorque ou a National Gallery, em Washington.

O Museu do Prado pôs em evidência as suas seis obras. É a instituição mundial que mais quadros do artista reúne, graças ao rei Filipe II, I de Portugal, que foi um grande colecionador do seu trabalho. Poderá, aliás, ter sido no seu reinado que As Tentações de Santo Antão chegaram a Portugal.

A exposição abriu envolta numa aura de polémica, mercê dos resultados de um estudo que punha em causa a autenticidade de três obras de Bosch que estão no Prado. Segundo o comité Bosch Research e Conservation Project, que investigou todas as obras atribuídas ao pintor, A Extração da Pedra da Loucura, As Tentações de Santo António Abade e A Mesa dos Pecados Capitais seriam trabalhos de discípulos de Bosch e não do próprio.

O museu espanhol apressou-se a refutar a tese. Sobre As Tentações de Santo Antão as certezas foram sempre totais. "Tem um ADN da mais pura linhagem", referiu António Filipe Pimentel.

O caso tornou-se numa guerra de instituições. Ao mesmo tempo que o Prado recebia empréstimos das pinacotecas internacionais, na terra natal do pintor, Noordbrabants, organizava-se outra exposição dedicada ao seu trabalho.

Foi da cidade holandesa de Noordbrabants que partiu o financiamento para o projeto de investigação sobre Bosch. Os resultados, apresentados no início do ano, defendiam que um um quadro passou a figurar na lista de obras realizadas pelo holandês. Trata-se de As Tentações de Santo António, que até este ano era atribuído a um aluno de Bosch, e que se encontrava nas reservas do museu de Kansas City.

O quinto centenário da morte do artista holandês deu pretexto a outra iniciativa cultural. Na sala C do Museu do Prado pode ser vista até 2 de outubro a instalação em vídeo Jardim Infinito - multiprojeção de uma peça de 75 minutos em que a obra Jardim das Delícias é objeto de reinterpretação. A ideia original é dos artistas Álvaro Perdices e Andrés Sanz.

O bilhete normal no museu custa 16 euros, 25 com o guia da exposição.

A exposição está aberta das 10.00 às 00.00 de segunda a sábado, até às 21.00 aos domingos e feriados (com entradas a cada 15 minutos das até às 21.15 e 20.15). Exceto nos dois últimos fins de semana, isto é, 17 e 18 e 24 e 25 de setembro.

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