"Bleed for This" não nos deixa KO mas vence por pontos

Miles Teller foi muito ovacionado com "Bleed for This" em Toronto, que já tinha tido sangue no ringue com "The Bleeder"

O boxe está de novo em força no cinema americano. Depois de no passado Creed - O Legado de Rocky, de Ryan Coogler, ter espantado mesmo os mais céticos e de em Cannes ter sido exibido Hands of Stone, com Robert De Niro na pele do lendário treinador de Roberto Duran, Toronto mostrou mais dois projetos com o ringue sob os holofotes. The Bleeder, de Philippe Falardeau, com Liev Schreiber e Naomi Watts, e Bleed for This, de Ben Younger, protagonizado por Miles Teller, ator em voga por estes dias.

The Bleeder baseia-se no percurso de Chuck Wepner, o pugilista de Nova Jérsia que serviu de inspiração a Stallone para escrever Rocky, a saga de boxe mais popular da história do cinema americano. O filme chegou de Veneza com uma boa imprensa e em Toronto teve aclamação instantânea. A vida do verdadeiro Rocky é a todos os títulos pungente, um pugilista que se elevava nas derrotas (ficou famoso por aguentar 16 assaltos contra Muhammad Ali) e que se tornou uma lenda local em Jérsia. O canadiano Falardeau filma-o como um adorável looser através de uma narrativa fragmentada e muito à base de imagens de arquivo (falsas, muitas vezes).

Está aqui uma credível recriação de uma certa América dos anos 1970, onde o sonho americano dos heróis da working class passava por uma suspensão da realidade. Estão lá os maneirismos, o retrato de uma virilidade terna e até se convocam as canções que marcavam a América. Sem exageros, é o melhor filme de boxe dos últimos anos, mas uma obra difícil de vender: o público de hoje conseguirá ver uma história de um falhado? Liev Schreiber e Naomi Watts, os protagonistas, casados na vida real, não são Brad Pitt e Angelina Jolie. Ainda assim, tem estreia assegurada em Portugal.

Perspetivas comerciais mais auspiciosas tem Bleed for This, outro filme de pugilismo com a carapaça de "velha escola" e cujo lançamento terá uma máquina de marketing diferente, sobretudo porque há uma estrela que faz vender bilhetes juntos dos mais novos, Miles Teller (dos filmes da série Divergente e de Whiplash), aqui impressionante a não tornar rotina a mudança física (passa de pugilista leve a pesado com uma autenticidade arrepiante).

Teller dá vida a outra das lendas do boxe dos anos 1980, Vinny Pazienza, um italo-americano de Providence que se tornou campeão do mundo com o treinador de Mike Tyson e que ficou para a história depois de recuperar de um acidente de carro quase fatal. Daqueles que os médicos não acreditavam que poderia de novo competir. O filme é sobre esse seu segundo ato, quando Vinny volta a lutar. Bleed for This não engana ninguém, é um puro sports movie com os habituais contornos dramáticos da superação e conto do desportista que vence quando as hipóteses eram reduzidas. É certo que Ben Younger filma todo este biopic com um sentido emocional justo e trabalha os elementos iconográficos no limite. O problema é apenas um: esta mise-en-scène com tanto cinema não merecia um argumento de TV movie.

Em Toronto

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