Blade Runner, o admirável mundo de Ridley Scott

Antes da tão esperada estreia de Blade Runner 2049, na próxima quinta-feira, revisitamos a obra-prima de ficção científica que foi mudando o seu final ao longo dos anos e nunca deixou de marcar gerações por todo o mundo.

Quando Blade Runner chegou às salas de cinema, no ingrato ano de 1982, ninguém estava preparado para a fibra deste espetáculo visual ao som de Vangelis. A reação da crítica foi tépida e os resultados de bilheteira ficaram longe de refletir qualquer júbilo. Era o ano do lançamento de E.T. - O Extra- Terrestre, de Steven Spielberg, que trazia um protagonista bem mais caloroso e popular do que esse Harrison Ford em soturno modo detetivesco. E foi também o ano em que Philip K. Dick, o autor do livro que inspirou a obra-prima de Ridley Scott, morreu, quatro meses antes da estreia. Ele que tinha ignorado o projeto desde o início e que acabou por tirar o chapéu quando o realizador inglês lhe mostrou os primeiros 15 minutos. Nessa única ocasião, deixou estas palavras invulgarmente entusiastas: "É como se conseguisse entrar na minha cabeça!"

Mas não houve na altura muita gente com vontade de entrar nesta pesada estética futurista, e na história de um ex-polícia, Rick Deckard (Ford), forçado a voltar ao ativo para matar androides. Usando a linguagem do filme, Deckard é um Blade Runner com a missão de eliminar da face da Terra quatro replicantes que, já demasiado próximos da essência humana, vieram do espaço para ajustar contas com o seu criador... A abordagem estilística de Ridley Scott fez sobressair a opinião de que se tratava de uma obra confusa, perdida na sua atmosfera. Mas foi essa atmosfera que ao longo dos anos foi ganhando cada vez mais admiradores, em sessões da meia-noite ou através do VHS (e posteriores edições DVD), até se tornar um clássico de culto, considerado a referência maior do cinema de ficção científica.

A verdade é que hoje ninguém fica indiferente ao plano de abertura de Blade Runner - Perigo Iminente, com as suas chamas industriais a irromper na tela noturna, e uma sonoridade ao mesmo tempo mágica e grave. Essa foi, aliás, a imagem que causou espanto a Denis Villeneuve, o realizador de Blade Runner 2049, quando com ela se deparou em adolescente. O novo e tão esperado filme, cuja história avança 30 anos (o original passava-se em 2019), chega aos cinemas portugueses na próxima quinta-feira, com um elenco liderado por Ryan Gosling, trazendo Harrison Ford de volta às lides do futuro.

Estamos a pouco mais de um ano desse 2019, em que Blade Runner - Perigo Iminente fazia de Los Angeles uma versão distópica de Tóquio, com cores escuras, néons, fumo, ecrãs publicitários gigantes e carros voadores. Um cenário pensado ao pormenor por Ridley Scott e pelo designer industrial Syd Mead, partindo do icónico modelo de Metropolis (1927), de Fritz Lang.

Convém lembrar que o realizador, então em início de carreira (estava apenas na terceira grande aventura depois do muito bem-sucedido Alien - O Oitavo Passageiro), já se distinguia dos seus pares pela proeza desses designs de produção. Um nível de perfeccionismo que abrangia os elementos narrativos, na medida em que estes serviam uma gramática estética. Vejamos, é o Deckard de Harrison Ford quem lança o anacrónico estatuto de film noir a este ambiente futurista, juntamente com a Rachel de Sean Young, uma femme fatale de hipnotizantes lábios vermelhos. Também o replicante de Rutger Hauer, com a sua expressão perturbadora, é um rosto que favorece a leitura dramática, levando-nos sem aviso para zonas poéticas... Ninguém esquece o monólogo final, em que se solta uma pomba branca das suas mãos (foi ideia do ator). Estas são personagens que habitam e definem o cosmos do filme, a sua consistência visual.

Um final feliz?

De resto, Blade Runner - Perigo Iminente teve tudo menos uma gestão artística fácil. Logo nos testes de audiência feitos em Denver e em Dallas, meses antes da estreia, as reações negativas puseram Ridley Scott à mercê da Warner Bros. Obrigaram-no a acrescentar uma voz off (do protagonista), na perspetiva de tornar o enredo mais acessível, e a mudar a história para um final feliz. Por sua vez, em 1992, uma nova versão do realizador retirou a supérflua voz off de Harrison Ford - que o próprio tinha gravado a contragosto -, deu um toque de ambiguidade ao final e acrescentou a cena da visão do unicórnio, um momento do filme que dá a entender que Deckard poderá também ser um androide (mais um aspeto que não colheu muita aceitação de Ford...).

Finalmente, no 25.º aniversário do filme, em 2007, uma edição em DVD veio oferecer aquela que será a visão ideal de Ridley Scott, a final cut, sem alterações substanciais ao director"s cut de 1992, mas com as melhorias técnicas que o satisfazem plenamente. E apesar de estas e outras tantas atribulações, Blade Runner é o filme mais pessoal do realizador (até por isso se justificam os aperfeiçoamentos) e aquele que melhor representa a sua destreza na criação de novos mundos.

Incluído na caixa comemorativa dos 25 anos, o documentário Dangerous Days: Making Blade Runner, de Charles de Lauzirika (com três horas e meia de duração), será o complemento essencial para perceber a dimensão da jornada deste clássico, onde nem o título era uma certeza. "Android", "Mechanismo", "Animal" ou mesmo "Dangerous Days", que estava no cabeçalho original do argumento, foram as hipóteses que antecederam a designação definitiva encontrada no livro The Bladerunner, de Alan E. Nourse. Mas foi a William S. Burroughs que Ridley Scott pagou direitos para usar o título. Este tinha escrito Blade Runner: A Movie, um argumento e uma novela inspirados na obra de Nourse. Ora nem um nem outro foi a base do filme. O universo é verdadeiramente da cabeça de Philip K. Dick, conquanto lá não existam as palavras Blade Runner ou replicante, que marcaram gerações.

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Catarina Carvalho

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