Bill Fontana tirou sombras e música da ponte 25 de Abril

O artista norte-americano trabalhou com John Cage e tem fascínio por pontes e pelo som que delas sai. Há cinquenta anos que faz esculturas sonoras

A ponte 25 de Abril é a protagonista das vistas a partir do topo do Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), e, a partir de hoje. é também a protagonista da instalação Shadow Soundings, que na quinta-feira abre ao público na galeria oval do edifício concebido pela arquiteta Amanda Levete. O autor é o norte-americano Bill Fontana, artista sonoro, antigo colaborador de John Cage, fascinado por pontes. Ou, mais corretamente, pelo som que delas tira.

Sete ecrãs exibem imagens da ponte de diferentes pontos de visita. No pilar sul, refletindo a sua sombra na água. Dos longos braços de aço ver melhor ou no corredor técnico entre o tabuleiro comboio e o dos automóveis, aquele em que se vê o ritmo compassado dos carros que circulam na cinquentenária 25 de Abril. Bill Fontana, 70 anos, chama a atenção para um dos ecrãs. "Os sons saem das sombras", diz, explicando assim o título da instalação, patente na galeria oval até 12 de fevereiro, todos os dias (exceto terça-feira), das 11.00 às 19.00.

"O Bill Fontana captura os sons que o ser humano normalmente não ouve", explica o diretor do MAAT, na visita à imprensa. Não é, porém, uma mera captura da identidade sonora. "Como curador, o que pedi ao Bill foi que transformasse o som em composição", explica Pedro Gadanho. O resultado é uma combinação do som real, em direto, da ponte misturado com água, aço, carro e a passagem no tabuleiro metálico. A maioria foram trabalhados em estúdio pelo artista, que começou por estudar composição e trabalhou com John Cage, nos anos 60, antes de se dedicar aos seus projetos a que chama "esculturas sonoras", à boleia de uma expressão de Marcel Duchamp.

O vídeo só surgiu recentemente Usou-o na última instalação que assinalava os 50 anos da Golden Gate de São Francisco e, agora, em Lisboa. O seu currículo inclui trabalhos na ponte de Brooklyn, em Nova Iorque, ou na Millenium, em Londres. "Estava familiarizado com a estrutura, mas fiquei impressionado com a complexidade de sons desta ponte", diz, a propósito da 25 de Abril e da primeira visita ao local, em março de 2016. "Quis entrar neste som e investigar as suas propriedades". "A ponte canta", diz. Essa música foi registada com microfones, hidromicrofones e acelerómetros, os mesmos instrumentos que usou para as instalações Silent Echoes em que regista o som de sinos imóveis.

O artista chama a atenção para uma zona atrás do ecrã que exibe imagens da ponte em direto, recomendando-o como um bom local para ver e ouvir Shadow Soundings. "Há ali uma almofada..." O trânsito compassado da ponte passa gigante enquanto se ouvem os 16 altifalantes instalados na galeria oval. É o "ambiente imersivo" que convida a experienciar.

Bill Fontana é o quarto artista a passar pela galeria oval, depois da francesa Dominique González Foerster, do mexicano Héctor Zamora e do cubano Carlos Garaicoa. No primeiro ano de vida, nenhum artista português trabalhou neste espaço, mas isso vai mudar. "Os artistas portugueses são internacionais, por isso estão previstos", afirma Gadanho. Em 2019.

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