Bill Fontana, o artista que "tira o som das coisas"

Autor de instalações sonoras que estão por todo o mundo, prepara uma obra para o MAAT a partir da Ponte 25 de Abril.

Bill Fontana começou a fazer esculturas com som no final dos anos 1960 quando poucos o tentavam. Aluno de John Cage, o norte--americano é o artista a quem o Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, que hoje abre portas ao público, encomendou a obra que assinalará o primeiro ano de vida do MAAT, em outubro de 2017. Trinta anos depois da ponte de São Francisco, prepara-se para ouvir o que diz a Ponte 25 de Abril.

Como definir o projeto que Bill Fontana está a preparar? Uma instalação sonora, claro, feita a partir da Ponte 25 de Abril; mas também uma obra em vídeo, um suporte que só nos últimos 15 anos tem vindo a usar. Em Lisboa, explica o artista ao DN, será uma transmissão em direto, a outra novidade do seu trabalho.

O artista está em Portugal esta semana continuando a pesquisa para este trabalho, a que já tinha dado início numa anterior visita, e inaugurou na sexta-feira, no Centro Cultural de Belém, o ano letivo do Programa Lisbon Consortium, mestrado e doutoramento em Estudos de Cultura da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Católica.

No ecrã surgem imagens e sons que já recolheu na Ponte 25 de Abril. "Estive numa zona entre o tabuleiro dos carros e o do comboio", diz, situando o espectador. Planeia localizar as câmaras nestes locais, em pontos distintos. Ao som, juntar-se-ão as imagens em que se pressente (e não se vê) os veículos em movimento. "As sombras são muito bonitas", frisa ao DN.

Em 2017 assinalam-se 30 anos desde que concebeu o primeiro projeto para a ponte de São Francisco, a cidade onde hoje vive. "Acho que não foi por isso que me encarregaram o projeto", nota.

Em 1987, por ocasião dos 50 anos da ponte de São Francisco, desenhou uma escultura sonora, que "ouvia" a ponte e também a colónia de gaivotas que fica numa ilha próxima da cidade americana. Por ocasião dos 75 anos da infraestrutura, em 2012, voltou à ponte. "Foi a minha primeira experiência com vídeo", conta. "Imagino que tenha sido por isso que me convidaram para Lisboa", aponta. "A diferença é que comecei a usar uma tecnologia nova, sensores vibratórios e usei uma câmara live."

No início, confessa, planeava estabelecer um diálogo entre a ponte portuguesa e a ponte de São Francisco. Mudou de ideias quando visitou o local no início do ano. "Parecia-me menos interessante do que fazer alguma coisa só com esta ponte [a 25 de Abril]." começa. "Esta ponte tem um som muito diferente do som da Golden Gate. Mais abstrato. Ouvi-o à distância e estive na ponte, onde os comboios passam. O elemento sonoro que quero trabalhar são os padrões sonoros que se movem."

O artista define-se como alguém que "tira sons das coisas". Liga um dos dois computadores que usará mais tarde na conferência para mostrar os que já "tirou" da ponte que une Lisboa e Almada. Entre eles está o som captado no topo do pilar central da ponte graças ao uso de sensores vibratórios dentro de um cabo. "Interessa-me o som das coisas", afirma. E por coisas refere-se mesmo a objetos.

O que se ouve é profundo, gutural. Bill concorda: são as entranhas da ponte. O projeto do MAAT combina estes sons com os que captará com os hidrafones instalados dentro do rio Tejo.

Nos seus últimos projetos, Bill Fontana quer "tirar o silêncio". Foi o que fez no sino de um templo budista, no Japão. "Tinha de ver a cara do monge budista quando lhe dei a ouvir", ri-se. O que tem de especial é que o som foi aprisionado quando o sino estava mudo. Bill carrega no play mais uma vez. "É o som que se consegue quando as harmonias se encontram." O projeto chama-se Silent Echoes e já conhece uma variação em Nova Iorque. "A Torre Met tem um sino que tocava a cada quarto de hora há cem anos. O edifício foi vendido e deixou de tocar, mas consegui ter acesso a ele", conta. Usou o mesmo método, o resultado é distinto.

Bill Fontana, de 69 anos, devia ter sido compositor. E foi como estudante de composição que veio a descobrir padrões musicais no mundo. "A música para mim, compor, requer um certo estado de tensão e quando esperava pelas aulas de composição, sentava-me num parque muito bonito, começava a concentrar-me na aula e ficava num estado musical. Os sons do parque soavam particularmente bonitos, e comecei a sentir os seus padrões. Comecei a investigar como é que o ruído se transforma em som. Fiz toda uma carreira sustentada em padrões musicais que existem no mundo", diz sobre o seu trabalho.

Isso e uma visita ao MoMA (Museum of Modern Art) fizeram a diferença no seu percurso. Sabe o momento exato em que aconteceu. Na exposição Machine Show, nos anos 1970. Viu uma obra de Marcel Duchamp em que o artista francês falava em esculturas sonoras. "O nome surgiu como algo provocador." E no próximo ano o artista completa 50 anos de carreira.

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